NA FREMÊNCIAS DAS FERVURAS

To com medo da noite
Dizia a voz enluarada
Na fremência das fervuras
De um silêncio que varria

Ninguém dizia
Ninguém sabia falar
De onde vinha
Aquele sentimento
Aquela clausura de dor

Mas ela estava ali
Como coisa
Como pedra de beira de rio
Como flor em árvore seca
Como silêncio
De dia de finados
Como uma dor
Da perda de todo dia.

Eu nunca mais quero falar daqui
Eu nunca mais quero engolir a seco
Eu nunca mais quero deixar de lembrar
Quem eu sou

A subida da terra
A corcunda da serra sob minha mão!

Mais o bom
O bom ainda é poder escutar
Cantiguinha de chuva no telhado
Bom ainda
É poder sentir o cheiro da terra molhada
Minhoca furando o chão
Siriri voando e cantando
Assanhaçu azulando nosso dia.

To contente com a noite
Dizia a voz enluarada
Na fremência das fervuras


Julio Cesar da Costa
2011

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