SERESTEIRO
POR AQUI EU TE ENCONTREI,
POR AQUI, POR ESTA RUA!
A RUA ESTÁ DIFERENTE...
SERÁ DE SAUDADES TUA?
FOI POR AQUI QUE EU TE VÍ,
NA TARDE MANSA A PASSEAR
E DESDE ENTÃO ME PERDÍ
NO ESPÊLHO DE TEU OLHAR...
OS QUE TE AMARAM, ACASO,
AÍNDA LEMBRAM DE TÍ?
OU SERÁ FEITO UM DESCASO,
SÓ EU QUE NÃO ESQUECÍ?
DIZEM QUE TODOS SE FORAM
OS QUE TE QUERIAM BEM
E FICASTES SÓ, NA ESTRADA,
SEM AMIGOS, SEM NINGUÉM!
MAS ESTA É A MESMA RUA
MESMA CASA, MESMO CHÃO
E NO CÉU A MESMA LUA
QUE ESPIOU NOSSA PAIXÃO!
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009
TRISTEZA
AÍNDA TEM O TEU CHEIRO
AÍNDA TEM O TEU GOSTO,
A FRONHA DO TRAVESSEIRO
A BELEZA NO TEU ROSTO...
O TEU OLHAR DIVERTIDO
NO ESPÊLHO DO BANHEIRO
FICOU ALI ESCONDIDO
NO TEU SORRISO FACEIRO.
ESSAS COISAS TÃO PEQUENAS
MARCAM COM PROFUNDIDADE
MAIS QUE PALAVRAS AMENAS
NOS SUSPIROS DA SAUDADE...
AGORA A CASA VAZIA...
VIVE CHAMANDO POR TI!
SEJA DE NOITE OU DE DIA,
A TRISTEZA MORA AQUI!
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009
SÓ AMORES
EU VIM AO MUNDO PELADO,
SEM DENTES E CAREQUINHA.
TINHA CARA DE SAFADO...
MAS DIZIAM:- É UM ANJINHO!
A VIDA ME DEU PANCADA
QUANDO NÃO QUIS APRENDER.
É UMA ESCOLA DANADA...
NUNCA PÕE NADA A PERDER!
ASSIM APRENDÍ NO GRITO...
COMO É DURA UMA LIÇÃO.
SE BÉRRO SOU MAU CABRITO,
SE CALO SOU UM BOBÃO...
HOJE SOU MESTRE FORMADO,
NADA ME TIRA DO SERIO...
PELA VIDA SOU AMADO,
EU DESVENDEI SEU MISTÉRIO.
SE VIM AO MUNDO PELADO,
VOU VOLTAR DO MESMO JEITO.
COMIGO NÃO VAI MAIS NADA,
SÓ AMÔRES NO MEU PEITO!
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009
ESTAÇÕES
O TEMPO MARCOU AOS POUCOS
NO MEU ROSTO O MEU VIVER.
ENTRE SORRISO E DESGOSTOS
TANTO AMAR... TANTO SOFRER...
NA PRIMAVERA DOS SONHOS
ERGUI CASTELOS NO AR
DESMORONARAM TRISTONHOS
DEIXANDO A DOR NO LUGAR...
E NO VERÃO DAS PAIXÕES
QUANTOS VERSOS ESCREVI!
TANTO TEMPO! E AS CANÇÕES
AÍNDA CHAMAM POR TI...
AGORA OUTONO DA VIDA...
O MEU CABELO A BRANQUEAR
A TUA SAUDADE ESQUECIDA
VEM AQUI ME RECORDAR...
O INVERNO ESTÁ CHEGANDO
OUTRO RUMO EU VOU TOMAR
MAS EU SEGUIREI CANTANDO
ENQUANTO O TEMPO DEIXAR!
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/SP-2009
MEU ALGOZ
ESSES MURMURIOS TÃO VAGOS
AFLORAM NA MINHA MENTE
COMO LEMBRANÇAS DE AFAGOS
DE UM PASSADO TÃO PRESENTE
DE QUEM É ESSA SAUDADE
QUE ME VISITA OUTRA VEZ?
É DE MINHA MOCIDADE
QUE FOI EMBORA DE VEZ?
OU SERÁ DE ALGUM AMIGO
QUE DE LONGE ME LEMBROU
E TALVEZ PENSE CONSIGO
PARA SABER COMO ESTOU?
SAUDADE TEM TANTOS NOMES
TANTO NOME ME LEGOU...
ALGUNS MATARAM MINHA FOME
OUTROS MEU SONHO MATOU...
DE QUEM SERÁ ESSE RISO
DE QUEM SERÁ ESSA VOZ?
DO MEU DESTINO INDECISO
PENSANDO EM SER MEU ALGOZ!
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009
SER FELÍZ
SER FELÍZ É TER DINHEIRO?
SER O CHEFE! O TIMONEIRO
SER DE TUDO O MANDÃO?
SER FELÍZ É VER O SOL
NASCENDO NO HORIZONTE
ESPALHANDO A LUZ DO DIA
A ONDE QUER QUE REPONTE
SER FELÍZ É LER UM LIVRO
CONTANDO TÃO BELA HISTÓRIA
QUE DESPERTA NOVOS SONHOS
QUE VÃO VIVER NA MEMÓRIA...
SER FELÍZ É TER AMIGOS
CAMINHANDO LADO A LADO
ALGUNS SORRINDO CONTENTES
OUTROS SEGUINDO CALADOS...
SER FELÍZ É TER FAMÍLIA
FILHOS DOANDO CARINHO
É REPARTIR SEU CALOR
PARA TODOS NO CAMINHO
SER FELÍZ É SENTIMENTO?
É ESCOLHA? É PROCURA
POR VIDA? POR AVENTURA?
SER FELÍZ TODOS QUEREMOS!
E CADA UM AO SEU JEITO
PROCURA A FELICIDADE
PARA DEITAR NO SEU LEITO...
SER FELÍZ É O DESTINO
DE QUEM ACREDITA EM DEUS
DE QUEM VE NO SEMELHANTE
OS MESMOS DIREITOS SEUS...
SER FELÍZ É UM EXERCÍCIO
DE PACIÊNCIA E DE SUOR.
SER FELÍZ É IR VIVENDO
SEMPRE BUSCANDO O MELHOR
SER FELÍZ É EXISTIR...
APRENDER E PARTILHAR
SEM MEDO E SEM LAMENTO:
- SER FELIZ! É SE GOSTAR...(GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/SP)
CODELZINHO
‘A LENDA DO ZÉCA GADO’
ZÉCA GADO AO NASCER
JÁ FALOU MAL DA PARTEIRA:
MAS QUEM É ESSA MULHER
QUE TEM CARA DE PORQUEIRA?
SEU PAI ERA BOIADEIRO
E MUITO GADO ESFOLOU
E O APELIDO CERTEIRO
A SEU PIMPOLHO LEGOU
ZÉCA GADO EM MENINO
NÃO ERA BOM DA CABEÇA
A MARCA DO SEU DESTINO
É ONDE A VIDA TROPEÇA...
TROPEÇA NA CARA FEIA
NA MALDADE JÁ CRIANÇA
CUIDANDO DA VIDA ALHEIA
ROENDO O FIO DA CONFIANÇA
FOI CRESCENDO PELA VIDA
DETONANDO MEIO MUNDO
COM SUA ALMA TINGIDA
PELO FEDOR MAIS PROFUNDO
SENTADO NA VELHA ESQUINA
SÓ NAMORANDO QUEM PASSA
A TODA A GENTE INCRIMINA
COM SUA VISÃO DEVASSA...
TODO O MACACO TEM RABO
MAS QUE NEGA A ENXERGAR
O RABO DO ZÉCA GADO
RODAVA EM PORTA DE BAR...
ALEM DE SOLTAR A FRANGA
QUERIA CANTAR DE GALO
ONDE FAZIA SUA CAMA
COMIA A FRUTA NO TALO
E ASSIM A VIDA SEGUIA
PROVANDO DE TUDO UM POUCO
SÓ DO TRABALHO FUGIA
DIZENDO QUE ERA LOUCO...
E QUANDO FICOU VELHINHO
COM SUA VIDA VADIA
ELE AZEDOU O SEU VINHO
POIS TINHA A ALMA VAZIA...
QUANDO MORRER ACREDITA
DOIS CAIXÕES SÃO NECESSÁRIOS
UM PARA A LINGUA MALDITA
OUTRO PRO CORPO DO OTÁRIO
TODOS DEIXAM SUA MARCA
QUANDO PARTEM PRO DEDÉU
A MARCA DO ZÉCA GADO
SEGUE NUM POTE DE FÉL...
QUEM VIVEU A SUA SINA
DETONANDO TODO O MUNDO
VAI DESCER PELA LATRINA
DO INFERNO MAIS IMUNDO...
QUE ELE SIRVA DE EXEMPLO
A VOCES QUE AQUI ESTÃO
A NOSSA ALMA É UM TEMPLO
NÃO É UM PANO DE CHÃO...
QUE SERVE DE COBERTOR
A TODO O CARA SAFADO
QUE TENTA ESCONDER A DOR
DE TER SIDO MAL AMADO...
APONTANDO O DEDO SUJO
PARA TODA A CRIATURA
DA PPRÓPRIA SOMBRA TEM MEDO
POIS SABE QUE É LAMA PURA...
POR ISSO TOMEM CUIDADO
AO VIGIAR A VIDA ALHEIA
POIS VÃO FICAR PENDURADOS
COMO ARANHA NUMA TEIA...
PROCUREM FAZER AMIGOS
QUE POSSAM ALGO PLANTAR
E QUE SIRVAM DE ABRIGO
QUANDO A VELHICE CHEGAR
FUJAM DA NEGRA MALDADE
NUNCA ESCOLHAM O PIOR
DEIXEM MARCAS DE SAUDADE
CREIAM SEMPRE NO MELHOR
QUE NA HORA DA PARTIDA
SEJA MESTRE OU APRENDÍZ
SE DESPESSAM DESSA VIDA
DIZENDO:- EU FUI FELÍZ!
NÃO CUIDEI DA VIDA ALHEIA
DEIXEI OS OUTROS VIVER
COM SANGUE DE MINHA VEIA
EU FÍZ O MUNDO CRESCER...
MUITO AMEI E FUI AMADO
POR ENTRE SORRISO E DOR
E SEI QUE SEREI LEMBRADO
QUANDO MEU TEMPO SE FOR
FUI AMIGO DOS AMIGOS
E MUITO SONHO REGUEI
A LUZ QUE TRAGO COMIGO
COM ESFORÇO CONQUISTEI
VENCI O MEU EGOÍSMO
MEU DEMÔNIO INTERIOR
SALTEI POR SOBRE O ABISMO
MAS AO PARTIR VOU MELHOR
MELHOREI MEU PENSAMENTO
EU QUE ERA PEDRA BRUTA
TRANSFORMEI MEU SENTIMENTO
LAPIDEI-ME NESSA LUTA...
QUE PERMANEÇA NA TERRA
TUDO QUE A TERRA ME DEU
A MINHA VIDA SE ENCERRA
SÓ FICA O PÓ QUE FOI EU...
LEVO PRÁ OUTRAS ESFERAS
TUDO O QUE AQUI APRENDI
ENTRE SORRISO E ESPERAS
EU SEI! EU SEI!... EU VIVI...
SIGAM A ROTA TRAÇADA
MESMO TENDO MIL ESPINHOS
SOMOS NÓS QUE ESCOLHEMOS
O NOSSO PRÓPRIO CAMINHO...
PODE ESQUECER A MALDADE
DE TANTA GENTE MESQUINHA
SÃO OS RAMOS DA BONDADE
QUE VÃO ENFEITAR TEU NINHO...
MAS SE TUDO TE ATRAPALHA
NÃO QUEIRAS FUGIR DA CRUZ
É O SUOR DO TEU TRABALHO
QUE PAGA A CONTA DA LUZ...
EU NÃO SEI POR QUE ESCREVI
ESSA HISTÓRIA SEM CABEÇA?
VOU TERMINAR POR AQUI
ANTES QUE O GADO ENLOUQUEÇA...
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/SP
CARTA AOS LEITORES
SENHOR EDITOR:
Lendo e relendo o número dois de seu periódico tomei a decisão e coragem de contradizê-lo. Nossa linda cidade já nasceu predestinada ao turismo. É só consultar o famoso livro de um dos maiores pensadores da literatura iguapense, que perdeu seu precioso e caro tempo para nos ofertar por amor tão completa obra. Nessa obra magistral se fica sabendo que os primeiros turistas foram os formadores de sambaquis. Eram nômades (ou visitantes) que bem antes de 3.000AC, vinham anualmente em época de piracema pescar em nosso fértil litoral, e, aqui moqueavam seu pescado e após se fartarem partiam para suas belas aldeias no interior de Pindorama, deixando seu lixo (sambaquis) como recordação.
Por aqui também “turistavam” piratas, seriam o equivalente aos farofeiros atuais. Paravam próxima a vila, pegavam o que queriam inclusive as menininhas descuidadas e doidas por aventuras, e, voltavam alegremente em bandos para seu local de origem.
Quando vocês insinuam que o apelido ideal para minha amada Princesa seria cidade “lá tinha”, acho uma brincadeira de extremo mau gosto, só porque tinha ouro, cana de açúcar, navios, arroz, Matarazzo, vapores, porto, marinha, jesuítas, consulado português, colônia katsura, Xiririca, Sete Barras, Jacupiranga, Miracatu, Juquiá, Pedro de Toledo, Itariri, Pariquéra, Registro e Ilha comprida? Por favor! Parem com essa tola brincadeira. Vocês esquecem que o essencial não foi perdido! Rocio, Icapára e Barra do Ribeira.
Vocês seus tiradores de sarro desconhecem (Obvio! Não leram o educativo livro que eu li atentamente), que por aqui passaram visitantes ilustres, Washington Luiz, Albert Camus, Monteiro Lobato? Eu sei vocês vão dizer:- Passaram! Gostaram tanto que nunca mais voltaram. E daí! Qual o problema? Garanto que nunca mais se esqueceram do casadinho de manjuba, e, culturalmente é o quê importa.
Também acho pura maldade de falsos defensores da cidadania esse falatório maldoso, diz que me disse que não leva a nada e só serve para denegrir nossos abnegados representantes, que se matam de tanto trabalhar uma hora por semana, quatro horas por mês e ganham uma ninharia R$ 3.750,00. Insignificantes R$937,50 por hora, míseros R$15, 625 por minuto. Imaginem o desprendimento dessas pessoas, se submeter a trabalho tão árduo por R$15, 625 por minuto! Coisa que um bom ajudante de pedreiro ganha dando risada e com a mão na massa em 480 minutos. Eu heim! Acho bom vocês cancelarem esses comentários chulos, pois dá a parecer que querem forçar essas dedicadas figuras públicas a saírem por aí proibindo os educados munícipes de jogarem garrafas pet na rua, fazer banzé em defesa da arborização vetando podas em época errada,encaminhando mendigos à seus locais de origem, zelando para que meninos do mal não assaltem nem roubem bicicletas, atentos ao patrimônio público danificado, cuidando de embelezar a cidade.
Desculpem! Vocês que vivem jogando pedras em vidraças alheias. Vocês são frustrados? Não vêem que são eles que suam a camisa de marca e fazem as boas leis que beneficiam a população, que criam a base para este fantástico progresso? Que ajudam a carregar nos sofridos ombros a cruz municipal? Que são eles que enquanto vocês estão enchendo a cara e se divertindo pelos botecos da vida, perdem noites e noites de sono reparador, pensando unicamente em nosso bem estar? Que sofrem vendo nosso povo desanimado e sem perspectivas? Vendam esse veneno para o Butantã! Pois eles são nossos heróis, os mais honestos, inteligentes, probos exemplos de nossa sociedade, escolhidos a dedo entre 40.000 cidadãos, os melhores, nossos semideuses!
Também quero informar a vocês, bando de sacanas, que essa história que corre por aí, de que o último divertimento da tradicional família iguapense (TFI) é ver turista passando pela ponte para Ilha Comprida é pura fofoca. Nossos hotéis estão lotados, nossas ruas limpas e sem entulhos, nosso comércio é o maior do Vale do Ribeira, ninguém deve IPTU atrasado (só eu!) e a cadeia foi desativada, prova de criminalidade zero.
É isso aí! Falei o que tava entalado na garganta. Cansei de jogar pedra na cruz, agora só elogios. Hei! Vão continuar virando a cara por quê? Meu Bonje! Errei novamente.
GASTÃO FERREIRA/CIDADÃO IGUAPENSE
A ARCA DE NÃOÉ
CRÔNICAS DE PINDAÍBA
A ARCA DE NÃOÉ
NÃOÉ DESPERTOU APAVORADO, PELA CENTÉSIMA VEZ TIVERA O MESMO PESADÊLO. TUPÃ LHE APARECIA EM MEIO A RAIOS E TROVÕES E LHE ORDENAVA CONSTRUIR UMA YGARA (JANGADA EM TUPI GUARANI), COM A QUAL DEVIA SALVAR DA EXTINÇÃO ALGUNS ELEMENTOS DA REGIÃO.
- SERÁ QUE DORMI TORRADO NOVAMENTE? NÃO É POSSÍVEL ACONTECER LOGO COMIGO UMA COISA DESSAS! PODE SER QUE MEU NOME ATRAIA ESSES PESADÊLOS! COMO EU GOSTARIA DE TER SIDO CHAMADO DE CARLINHOS, GALVÃO, AGENOR, BENEDITO OU ATÉ MESMO DE UM INOFENSIVO JOSÉ! MAS NÃO! MEU PAI FOI COLOCAR ESSE NOME RIDÍCULO DE NÃOÉ. E, AGORA ESSE TAL TUPÃ QUE NÃO ME DEIXA DORMIR SOSSEGADO. GRITANDO A NOITE TODA NO MEU SONO:- NÃOÉ! CONSTRUA UMA YGARA! OS TEMPOS CHEGARAM! A TERRA SERÁ ALAGADA, TUDO SURUCARÁ! SALVE PELO MENOS ALGUNS DE MEUS FIEIS, AMADOS, HONESTOS, PUROS E DEDICADOS FILHOS. NÃOÉ! SALVE-OS!SALVE-OS!
NÃOÉ, SEM QUERER QUERENDO, CONTOU SEU SONHO NO BAR DO DITO E LOGO TODO O POVOADO FICOU SABEDOR. FORMOU-SE UMA MULTIDÃO IMPLORANDO UMA VAGA NA YGARA DE NÃOÉ.
NÃOÉ ATÉ GOSTOU DO PUXA SAQUISMO DO POVÃO E DE IMPROVISO TASCOU UM DISCURSO:- MEU POVO DO VALO GRANDE E MINHA POVA DO VALO PEQUENO NOTEM VOCÊS QUE PELO REDUZIDO TAMANHO DA YGARA NÃO PODEREI LEVAR A TODOS COMIGO NESSA JORNADA DE SALVAÇÃO. TUPÃ FALOU E DISSE:- SÓ OS MEUS FIÉIS, OS PUROS, OS HONESTOS E DEDICADOS SERÃO SALVOS DO NEFANDO PERIGO. TODO O FOFOQUEIRO, MENSALEIRO, NEPOTISTA, FDP, CUIDADORES DA VIDA ALHEIA, CONDENADOS POR IMPROBIDADE OU NÃO, PUXA SACOS DE CARTEIRINHA CARIMBADA OU NÃO, E O ESCAMBÁU A QUATRO OU A CINCO, EU NÃO LEVO! EU NÃO LEVO! NÃO LEVO!
O LOCAL FICOU QUASE VAZIO. UM GRUPO DE CRENTES QUE ORAVA PELO FINAL DOS TEMPOS, PEDIU VAGA. NÃOÉ FOI CATEGÓRICO:- CRENTES? NEM PENSAR, NÃO ENTRA NA MINHA YGARA NEM QUE JEOVÁ TUSSA! VOCÊS NÃO VIVEM DIZENDO QUE JÁ ESTÃO SALVOS? ENTÃO, QUE PALHAÇADA É ESSA? SÓ POSSO SALVAR OS NÃO SALVOS, OS DO MUNDO, E POR FAVOR, PAREM COM O HISTERISMO, E, OUTRA COISA NADA DE TRAUMAS E PRAGAS!
UM GRUPO GLS/PVC SOLICITOU AGASALHO. GLS? NÃO POSSO! SE FOR LEVAR TODA A FAUNA DA REGIÃO A YGARA AFUNDA. POR FAVOR, SEGUREM A FRANGA. POR FAVOR! POR FAVOR! CADA UM NO SEU QUADRADO.
O PESSOAL DA TERCEIRA IDADE, DIGO DA MELHOR IDADE, IMPLOROU UMA VAGUINHA. QUE É ISSO MEUS VÉIOS! VOCÊS ESTÃO NO FIM DA PICADA, DIGO, DA MELHOR IDADE, DEEM O SEU LUGAR PARA OS JOVENS QUE TERÃO UM FUTURO GARANTIDO E DEPOIS NÃO POSSO PERDER TEMPO FAZENDO SOPINHAS E PAPINHAS PRÁ MENININHOS E MENININHAS DECRÉPTAS. EU HEIM!
E FORAM ASSIM DESCARTADOS TODOS OS QUE O PROCURAVAM. POLÍTICOS, APOLÍTICOS, ATEUS, AMEUS, ANOSSOS, ATOAS, SÃOS E ALEIJADOS, SANTOS E PECADORES. OS HABITANTES DO LUGAREJO ESTAVAM INCONFORMADOS E PRONTOS PARA LINCHAR NÃOÉ, QUANDO SE FORMOU A MAIOR TEMPESTADE JÁ VISTA. O CÉU ESCURECEU. RAIOS E TROVÕES, PEDRAS DE GÊLO DE CINCO QUILOS, VENDAVAL E VENDAVINHO, O MUNDO FICOU SURDO E MUDO PERANTE O DANTESCO REBULIÇO. O TORÓ COMEÇOU. TUDO ESTAVA SENDO ALAGADO. AS MANSÕES, OS CASEBRES, AS CASAS DE CÔMODOS E INCÔMODOS, AS CASAS DE TOLERÂNCIA E INTOLERÂNCIA, OS BARES E BUTECOS, AS IGREJAS, MESQUITAS E SINAGÓGAS, EM FIM O PEQUENO VILAREJO SEM NOME PELO JEITO JAMAIS TERIA UM NOME, POIS TUDO ESTAVA SENDO DESTRUÍDO. OS POUCOS QUE SOBREVIVIAM EM CIMA DAS ÁRVORES, MAS QUE LOGO PERECERIAM AFOGADOS AINDA NOTARAM A YGARA QUE FLUTUAVA NAS ÁGUAS REVOLTAS, LEVANDO ENTRE TODAS AS CRIATURAS VIVAS QUE HABITARAM O LOCAL, APENAS BILÚ, MARGARETH, NOLINHO, NÃOÉ, E UM CACHORRO SARNENTO QUE JAMAIS ENTENDEU PORQUE FOI SALVO.
A JANGADA VAGOU POR OITENTA DIAS E SETENTA E NOVE NOITES E APORTOU NUM LOCAL APRAZÍVEL. UM SITIO CERCADO DE VERDES MONTANHAS E UM IMENSO E MAJESTOSO RIO. ESSE LOCAL, NUM FUTURO MUITO DISTANTE FICARIA CONHECIDO COMO O FANTÁSTICO E INACREDITÁVEL REINO DE PINDAÍBA. NÃOÉ E OS SOBREVIVENTES FORAM OS PRIMEIROS A DESCOBRÍ-LO E HABITÁ-LO. QUEM QUIZER MAIORES DETALHES, FAVOR CONSULTAR O VOLUME-I DE CRÔNICAS DE PINDAÍBA, O INICIO.
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/SP-2009
ICAPÁRA
ICAPÁRA
NÃOÉ ABANDONOU A YGARA E IMEDIATAMENTE COMEÇOU A ERGUER UM POVOADO. LEMBRAM QUE APORTARAM NA LOCALIDADE ALEM DE NÃOÉ, UM TAL BILÚ, NOLINHO , MARGARETH E UM CACHORRO SARNENTO. COMO NÃOÉ JÁ ERA UM ANCIÃO, DIGO, ESTAVA NA MELHOR IDADE, NÃO SE IMPORTOU QUANDO NOLINHO E BILÚ INICIARAM UMA APROXIMAÇÃO, DIGAMOS MAIS INTIMA COM MARGARETH. ERA UMA GRAÇA DE SE VER, O MELHOR PEIXE, A MAIOR BANANA, O MARACUJÁ MAIS SUCULENTO, O MICO LEÃO MAIS BEM MOQUEADO, TUDO ERA DADO EM SINAL DE AMOR À MARGARETH, QUE COMEÇOU E NÃO MAIS PAROU DE ENGORDAR. NÃOÉ EDUCADAMENTE INTERFERIU E ACABOU COM O INSIPIENTE NAMORICO:- PAREM DE ALIMENTAR ESSA MULHER! PARECE UMA PORCA DE GORDA. DAQUI PARA FRENTE SÓ DEEM ÁGUA DA FONTE E CASADINHO DE MANJUBA, OU ELA FAZ REGIME OU LIBERO A INDIADA PARA VOCÊS.
FOI SÓ NÃOÉ DAR A NOTÍCIA E BILÚ E NOLINHO FICARAM OURIÇADOS:- CADÊ? CADÊ AS INDIAS?
-ESTÃO CONSTRUINDO UM SAMBAQUI NAS CERCANIAS! INFORMOU NÃOÉ.
-NOSSA VAMOS TER UMA ESCOLA DE SAMBA NO PEDAÇO? DISSE UMA DESLUMBRADA E LOIRA MARGARETH.
-QUE ESCOLA DE SAMBA MENINA? PERGUNTOU NÃOÉ.
-UÉ! SE TIVER SAMBA AQUI, ENTÃO TEM ESCOLA DE SAMBA!FALOU MARGARETH.
- AÍ MEUS NEURÔNIOS! EXCLAMOU NÃOÉ.
DE COMUM ACORDO E TAMBÉM PORQUE ERA MUITO TRABALHOSO CONSTRUIR UM IMENSO E MODERNO POVOADO PARA APENAS QUATRO PESSOAS, RESOLVERAM CONHECER O LOCAL ONDE ESTAVA SITUADA A TRIBO INDIGENA. CAMINHARAM... CAMINHARAM... CAMINHARAM UNS DOZE QUILÔMETROS E AVISTARAM AS MALOCAS. NÃOÉ ORDENOU:- AQUI PARA!
MARGARETH, A DOURADA, EXCLAMOU BOQUIABERTA:- QUE LINDO NOME!ICAPÁRA.
- MAS QUEM COLOCOU ESSE NOME NESSE BELO LUGAREJO? PERGUNTOU NÃOÉ.
- O SENHOR SEU NÃOÉ! O SENHOR DISSE ICAPÁRA.
- NÃO! MINHA LINDA LEITOINHA OXIGENADA, EU DISSE AQUI PARA, MAS PODEMOS CHAMAR ESSE APRAZÍVEL LOCAL DE ICAPÁRA, TEM TUDO A VER COM ESSE CHEIRO DE MATO, COM ESSA ÁGUA E ESSES INDIOS PELADÕES.
CHEGARAM OS SELVAGENS E CERCARAM OS QUATRO CARA PÁLIDAS. APÓS O ESTÁGIO DE RECONHECIMENTO, ISSO É, APALPA AQUI, CHEIRA ALI, ENFIA O DEDO ALÍ, ALÁ E ACOLÁ, COMEÇOU A CONFRATERNIZAÇÃO. TUDO PRATO TÍPICO, BUGÍO NO ESPETO, TAINHA NA FOLHA DE BANANA, QUATÍ GRELHADO, PARATI E PARAMIM NA BRASA, SUCO DE CAJÁMANGA, ARAÇÁ E BUTIÁ NA CATÁIA.
FOI A MAIOR FESTANÇA. MARGARETH MATOU TODAS AS SUAS FOMES, SÓ NÃO TRANZOU COM O CACIQUE POR RESPEITO AS SUAS CINCO FEROZES E CIUMENTAS ESPÔSAS. NOLINHO E BILÚ SE APROVEITARAM TANTO DA CATÁIA QUANTO DAS BELAS, SELVAGENS E NUAS INDIAS TROPICÁIS, APRENDENDO MUITAS NOVIDADES COM ELAS.
FORAM CONVIDADOS A SE RADICAREM NO LOCAL. NÃOÉ GANHOU UMA MALOCA SÓ PARA SI. MARGARETH FICOU PARA LÁ E PARA CÁ INDO DE ÓCA EM ÓCA, E BILÚ E NOLINHO SE AMOCOZARAM NA MALOCA DOS SOLTEIROS E NINGUÉM NUNCA SOUBE O QUE ACONTECEU POR LÁ.
NOVE MESES APÓS A CHEGADA DA GANGUE, DIGO, DO GRUPO DE NÃOÉ, MARGARETH TEVE DOIS LINDOS CORUMINS. AS VINTE VIRGENS SOLTEIRAS QUE CUIDAVAM DE NOLINHO E BILÚ CONTINUARAM SOLTEIRAS, MAS CADA UMA TEVE SEU NENEM BRANQUÉLO. ASSIM COMEÇOU A MISTURA ÉTNICA CHAMADA CAIÇARA. FOI EM ICAPÁRA QUE TUDO TEVE INICIO E SEGUNDO OS LIVROS DOS PIRATAS DA BARRA, SERÁ DE LÁ QUE CHEGARÁ O FIM.
OS ESTUDIOSOS PODEM ENCONTRAR O RELATO ACIMA EM SUA ÍNTEGRA NO VOLUME I – CRÔNICAS DE PINDAÍBA – O INICIO.
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/SP-2009
OS CAIÇARAS
OS CAIÇARAS
DUZENTOS ANOS APÓS A CHEGADA DE NÃOÉ A ICAPÁRA, OCORRERAM FATOS QUE MUDARAM O RUMO DA SAGA DOS DESCENDENTES DO GRUPO ORIGINAL. HOUVE FARTA MISCIGENAÇÃO ENTRE OS ABORÍGINES E O PESSOAL DA ARCA, POREM OS NOMES FORAM MANTIDOS COMO UMA HOMENAGEM OU PARA SE DIFERENCIAREM OU POR SE ACHAREM MELHOR DOS SEM EIRAS E BEIRAS, SEI LÁ. ERA UM TAL DE BILUZINHO, ZINHO,NOLINHO, INHO,MARGARETHINHA, TINHA. VEJA COMO ESSA COISA DE GENTE IMPORTANTE ATUALMENTE ADORAR SER CHAMADO PELO DIMINUTIVO É COISA ANTIGA, PROVAVELMENTE HERANÇA DOS TAIS PAIS E MÃES DA PÁTRIA.
UMA PRAGA CHAMADA PIRATAS DA BARRA, QUE NUM FUTURO MUITO FUTURO SERÃO CONHECIDOS COMO O PESSOAL DO BANHO DA DOROTÉIA E SEGUIDORES DO BOI. É O BOI? É O BOI? INVADIAM CONSTANTEMENTE A VILA E NUM ARRASTÃO (?) RAPINAVAM OS INOCENTES E POBRES HABITANTES DO LUGAREJO, QUE ERAM CONHECIDOS POR CAIÇARAS DEVIDO AO FATO DE BEBEREM TODAS E NUNCA FICAREM TORRADOS.
O DENOMINATIVO CAIÇARA TEVE ORIGEM NA LOCALIDADE. UM TAL BENEDICTUS, POBRE ALDEÃO PLANTADOR DE MANDIÓCA, TEVE A BRILHANTE IDÉIA DE MONTAR UM ALAMBIQUE E COMEÇOU A PRODUZIR CAACHAÇA (GRAFIA ORIGINAL DA PALAVRA CACHAÇA). FICANDO MUITO RICO PASSOU A SE CHAMAR DICTINHUS. FICOU MILIONÁRIO E TODOS O APONTAVAM COMO TINHUS. QUANTO MAIS RICO MENOS POMPOSO O NOME, DEVIA SER PARA PASSAR POR POBRE E ASSIM NINGUÉM PEDIR FAVORE$.
O MESMO BENEDICTUS, DICTINHUS OU SIMPLESMENTE TINHUS, PROVAVA DE CADA GARRAFÃO DE SUA PRODUÇÃO DE PINGA, OU SEJA, VIVIA TORRADO.COM O TEMPO O SEU ORGANISMO SE ACOSTUMOU COM A DOSAGEM EXCESSIVA DE ÁLCOOL E ELE APENAS CAIA BEBADO E LEVANTAVA BONZINHO, ESTÁ AÍ A ORIGEM DA PALAVRA CAIÇARA (CAI E SARA).
VOLTANDO AOS PIRATAS DA BARRA. OS TAIS PIRATAS TODA A VEZ QUE INVADIAM O LUGAREJO DEIXAVAM SUAS MARCAS QUE PODIAM SER CONFIRMADAS NOVE MESES DEPOIS COM O NASCIMENTO DE DEZENAS DE PIRATINHAS. PARA AMENIZAR O PROBLEMA E TER ALGUM LUCRO COM ISSO, OS “DA CULTURA” DA ÉPOCA TIVERAM UMA BRILHANTE IDÉIA. ORGANIZARAM UMA FESTA ANUAL ONDE COBRAVAM PEDÁGIO DOS BARCOS (ERAM OS ÔNIBUS DAQUELE TEMPO), ALUGAVAM TERRENOS PARA BARRAQUINHAS E SACANEAVAM OS ROMEIROS, DIGO, OS VISITANTES. (NADA A VER COM O QUE VOCÊS ESTÃO IMAGINANDO).
OS PIRATAS DA BARRA GOSTARAM DA GENIAL IDÉIA E PROPUZERAM AO CHEFE DA VILA INCREMENTAR O CALENDÁRIO TURÍSTICO COM MUITOS EVENTOS E FESTEJOS, ASSIM OS DA VILA PODERIAM ASSALTAR NUMA BOA OS CHEGANTES COM ALTOS ALUGUEIS DE BARRACAS, TAXAS E SOBRE TAXAS, QUE ELES PAGARIAM SEM QUEIXAS, DESDE QUE TIVESSE MUITA MUIÉ, CACHAÇA E BAILÉCOS. OS PIRATAS FARIAM A SEGURANÇA E FICARIAM COM UM PERCENTUAL DOS LUCROS.
DESSA MANEIRA SURGIU O CARNAVAL, A FESTA DA TAINHA, A MANJUBADA, FOLIA DE REIS E RAINHAS, E, UMA CENTENA DE FESTIVAIS E ORGIAS QUE NÃO DEIXAVAM NINGUÉM DORMIR SOSSEGADO E A MOLECADA NUM CIO CONSTANTE. UMA SEITA INTITULADA “OS ÚLTIMOS FILHOS DE TUPÃ DOS ÚLTIMOS DIAS”, REVOLTADA COM A PROMISCUIDADE E POR NÃO CONSEGUIR PRENDER A PERERÉCA DAS FILHOTAS QUE VIVIAM FUJINDO SEM AUTORIZAÇÃO PATERNA PARA PARTICIPAREM DAS BACANAIS, DIGO, DAS INOCENTES FESTINHAS, RESOLVERAM ABANDONAR O POVOADO DE COSTUMES TÃO DEPRAVADOS E PROCURAR UM NINHO DE PAZ E TRANQUILIDADE ONDE PODESSEM CASTAMENTE ADORAR TUPÃ, FAZER FILHOS, GANHAR MUITO DINHEIRO, FOFOCAR E SUJAR AS RUAS COM SEUS PROPRIOS LIXOS.
A PROCURA TEVE INICIO E MUITOS LOCAIS FORAM VISITADOS. NO PRÓXIMO EPISÓDIO VOCÊS TOMARÃO CONHECIMENTO DESSES FATOS E DECOBRIRÃO COMO, QUANDOE ONDE OS “ÚLTIMOS FILHOS DE TUPÃ DOS ÚLTIMOS DIAS” ENCONTRARAM O VALE DOS SEUS SONHOS.
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009
A DESCOBERTA DE PINDAÍBA
“OS ÚLTIMOS FILHOS DE TUPÃ DOS ÚLTIMOS DIAS” ESTAVAM POR AQUÍ COM OS ICAPARANOS QUE SÓ PENSAVAM EM FESTAS, FESTINHAS E FESTÕES. COM A INCREMENTAÇÃO DO POLO TURÍSTICO, DE GENTE E GENTINHAS ENTRANDO E SAINDO DA VILA, ATÉ OS ANIMAIS SILVESTRES DESAPARECERAM TEMEROSOS DE VIRAREM ESPETINHO DE GATO ASSIM QUE BOTASSEM A CARA NO POVOADO. MEIO QUILO DE MICO-LEÃO-DOURADO CUSTAVA MAIS CARO QUE OVA DE TAINHA EM PEIXARIA, E, UM INSIGNIFICANTE TAPIR VALIA O PRÊÇO DE UM BEZERRO DESMAMADO.
“OS ÚLTIMOS...”, QUE EQUIVALIAM AOS CRENTES DE NOSSA ÉPOCA, DIZIAM QUE NÃO ERAM DO MUNDO. O POVINHO ATEU E ATÔA SORRIA E COMENTAVA:- PODE SER QUE ELES NÃO SEJAM DO MUNDO, MAS QUE AS FILHAS SÃO SÃO! E RIPA NA XULIPA. ESSES ATOS E DITOS OBCENOS CONSTRANGIAM SOBREMANEIRA OS “ÚLTIMOS...”, OS QUAIS PARTIRAM PARA OS FINALMENTES. FIZERAM UMA REUNIÃO NO TERREIRO (?) DE TUPÃ E APÓS SACRIFICAREM UM JACÚ PRETO (SUAS GALINHAS PRETAS DA ÉPOCA), TOMARAM DIVERSAS DECISÕES. VENDERIAM SEUS BENS MOVEIS E IMÓVEIS. OS MOVEIS ERAM OS ESCRAVOS PORQUE SE MOVIAM SEU BURRO! E OS IMÓVEIS OS INÚMEROS PRÉDIOS COMERCIAIS ONDE OCORRIAM AS ORGIAS, BACANAIS E CACHAÇADAS HOMÉRICAS QUE TANTO OFENDIAM A MORAL DOS CRENTES, MAS COMO DINDIM É DINDIM NUNCA RECLAMARAM DIRETAMENTE DOS INQUILINOS QUE PAGAVAM ALUGUÉIS ABSURDOS PELOS LUPAMARES.
COMO TODO O IDIOTA SABE, DINHEIRO É DINHEIRO. “OS ÚLTIMOS...”, PEDIRAM HORRORES PARA VENDER AS ESPELUNCAS E OS COMERCIANTES NÃO TINHAM ESSA GRANA TODA, RESOLVERAM APELAR PARA O AGIOTA DE PLANTÃO, UM TAL JOÃO QUALQUERCOISA, TINHA ESSE APELIDO POR QUE COMPRAVA QUAL QUER COISA, DAVA UNS ENFEITES E VENDIA DEZ VÊZES MAIS CARO.
O POVO IGNORANTE COMO SÓ PODE SER UM POVINHO DA ROÇA, NÃO CONCORDAVA COM O QUE OS “ÚLTIMOS...” ESTAVAM FAZENDO E COMEÇOU UM QUEBRA BARRACO BONITO DE SE VER, ISTO É, TACARAM FOGO NAS PROPRIEDADES E EM VÁRIOS IRMÃOS DA SEITA. FOI A PRIMEIRA E DERRADEIRA VEZ QUE A RAÇA CAIÇARA TOMOU BRIO E PARTIU PARA A BRIGA, EXERCENDO SUA CIDADANIA. MUITA GENTE FOI AO ENCONTRO DE TUPÃ ANTECIPADAMENTE, NA VERDADE FORAM TANTOS OS EXTERMINADOS QUE ATÉ O NOME TIVERAMDE ALTERAR. DE “OS ÚLTIMOS FILHOS DE TUPÃ DOS ÚLTIMOS DIAS”, PASSARAM A SE CHAMAR “OS ÚLTIMOS DOS ÚLTIMOS FILHOS DE TUPÃ DOS ÚLTIMOS DIAS”.
NO FINAL DO ENTREVERO OS “ÚLTIMOS DOS ÚLTIMOS...” FORAM EXPULSOS DAQUELA SODOMA CAIPÍRA ABAIXO DE PORRETE E SÓ COM A ROUPA DO CORPO. QUEM TUDO QUER! TUDO PERDE.
EMBRENHARAM-SE NA MATA E COMO NÃO TINHAM BÚSSOLA PERDERAM-SE. FORAM ATACADOS POR TERRÍVEIS ONÇAS PINTADAS E NÃO PINTADAS, JAGUATIRICAS, LOBOS GUARÁS, MACACO PREGO, MACACO ARANHA, MACACO TAMANDUÁ, MACACO FORMIGA. TODOS ESSES BICHOS ELES MATARAM DE LETRA E PRATICAMENTE ACABARAM COM SUAS RAÇAS. SOFRERAM MESMO FOI NOS BICOS DAS MUTUCAS E MOSQUITOS PÓLVORA.
NESSAS ANDANÇAS O POVO DE TUPÃ FOI DAR (?) NO PÉ DA SERRA, ITATINS, JIPUVURA, MUMUNA, QUATINGA. OU SEJA, EM QUALQUER ESTÂNCIA QUE CHEGAVAM ELES DAVAM, E, COMO DAVAM. DAVAM CANCEIRA, CABEÇADAS E COM OS BURROS NA ÁGUA. RESOLVERAM INVOCAR TUPÃ E PEDIR CONSÊLHOS. SEGUIRAM O SAGRADO RITUAL E APÓS MUITO CAUIM, UHÁSCA E CANABIS, SENTIRAM A PRESENÇA DO PURO, BENEVOLENTE, HUMILDE E CLEMENTE TUPÃ, QUE AMOROSAMENTE ACONSELHOU SEUS FILHOS:
- BANDO DE CRETINOS, FDP, GLS, PERDEDORES DO CACETE! COMO TIVERAM A OUSADIA DE SAIREM DO LOCAL ONDE EU TINHA TUDO DE GRAÇA E COMEÇAREM A ANDAR PELO MEIO DA MATA SEM UM GUIA, UM MATEIRO? MEU DEUS! SEM UM MAPA. OLHEM AQUI SEUS BOSTINHAS, TÃO VENDO AQUELA TRILHA ALI? POIS É, VÃO SEGUINDO A DITA CUJA QUE TODOS VOCÊS VÃO DAR EM PINDAÍBA. E, NUNCA MAIS ME INCOMODEM PARA FAZEREM PERGUNTAS RIDÍCULAS, PARA ISSO TEM MÃE DE SANTO, TERREIRO DE MACUMBA, CARTOMANTES, O ESCAMBÁU, ME ENTENDEU? TÃO PENSANDO QUE SOU O QUÊ? UM MOLEQUE DE RECADOS? UM CANDIDATO A ALGUM CARGO PRECIZANDO DE VOTO, QUE TEM QUE ATURAR TUDO DE VOCÊS?EU SOU TUPÃ! EU SOU TUPÃ! TU... PÃ!
OS “ÚLTIMOS DOS ÚLTIMOS...” APAVORADOS E GRATOS PELA BONDADE E SABEDORIA DE TUPÃ, PEGARAM A ESTRADINHA E TOMARAM O RUMO SUL. AQUELA COISA DE SEMPRE, CAMINHAR, CAMINHAR, CAMINHAR. COMER, COMER, COMER. FAZER COCÔ. BEBER, BEBER. DORMIR, DORMIR, DORMIR E DORMIR QUE NINGUÉM É DE FERRO, AH, EVENTUALMENTE E NA MOITA FAZER MAIS UM “ULTIMOZINHO”.
APÓS DIAS E DIAS NESSE TÉDIO TEDIOSO, MATAR ONÇA, ESGUELAR MACACO, CORRER DE COBRA VENENOSA E SE ESTAPEAR CONSTANTEMENTE ESPANTANDO MUTUCAS, CHEGARAM A UM SITIO MARAVILHOSO. MONTANHAS COM TODAS AS TONALIDADES DE VERDE, BICHOS CORRENDO POR TODA A PARTE, UM RIO MAGNÍFICO, UM LAGAMAR DESLUMBRANTE ONDE BOTOS, ROBALOS, TAINHAS E PARATÍS SALTAVAM A FLOR DA ÁGUA. ERA A DESCRIÇÃO DO PARAISO, O LOCAL MAIS BELO JAMAIS VISTO POR OLHOS HUMANOS. A DADIVOSA NATUREZA PARECIA GRITAR:- BEM VINDOS! BEM VINDOS! CUIDEM DE MIM E EU OS TORNAREI FELÍZES. VENHAM MEUS FILHOS! FARTEM-SE EM MINHAS ÁRVORES FRUTÍFERAS, SACIEM SUA SEDE NAS FONTES CRISTALINAS DOS MONTES, DURMAM SOB ESSE CÉU ESTRELADO EMBALADOS PELAS CANTIGAS DO MAR. BEM VINDOS! BEM VINDOS! CUIDEM DE MIM! PRESERVEM-ME.
OS “ÚLTIMOS DOS ÚLTIMOS FILHOS...” ESTAVAM ENCANTADOS E LOGO ENCONTRARAM UM NINHO DE NHAMBUS. PEGARAM OS OVOS E O CASAL DE AVES E SACRIFICARAM A TUPÃ EM AGRADECIMENTO AO FIM DA JORNADA. QUEM TEVE O DOM DE VER, VIU! A PRIMEIRA LÁGRIMA DE DOR ROLOU DA FACE DA DIVINA NATUREZA, SEUS FILHOS OS PÁSSAROS CHORAVAM COM ELA.
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009
DOS RATOS E HOMENS
AS CASAS FORAM INVADIDAS SILENCIOSAMENTE. ALGUNS ESTUDIOSOS AFIRMAM QUE ELES CHEGARAM COM O DESCOBRIDOR, JÁ QUE OS ABORÍGINES DESCONHECIAM O NOME PELO QUAL ERAM CONHECIDOS:- RATOS.
NO INICIO ERAM POUCOS, POIS AS CARAVELAS RARAMENTE APORTAVAM NO LUGAREJO. ESGUEIRARAM-SE DOS PORÕES, GANHARAM OS CASARIOS E ESCONDERAM-SE NOS ARMAZENS. ENTRE FARDOS DE PRODUTOS IMPORTADOS ENGORDARAM E PROLIFERARAM.
QUANDO SE ACHARAM SUFICIENTEMENTE FORTES E NUMEROSOS, ATACARAM E TOMARAM A POPULAÇÃO COMO REFÉM. ELEGERAM UM LÍDER E CONSTITUIRAM UMA CÔRTE ÁVIDA PARA DESTRUIR A COMUNIDADE HUMANA INDOLENTE.
O BOM SENSO PREVALECEU. SE DESTRUISSEM COMPLETAMENTE A CIVILIZAÇÃO NÃO TERIAM QUEM OS ALIMENTASSEM GRATUÍTAMENTE, POIS SUA ESPÉCIE NÃO ERA DADA AO TRABALHO, MAS SIM A RAPINAGEM.
APRENDIAM RÁPIDO E RAPIDAMENTE FORAM SE TRANSMUDANDO EM HUMANOS. APENAS NA APARÊNCIA, EM SUAS MENTES E CORAÇÕES PERMANECIAM RATOS.
O TEMPO PASSOU E O PEQUENO POVOADO TRANSFORMOU-SE EM VILA, COMARCA, CIDADE. OS RATOS ENRIQUECERAM, ERAM UNIDOS ENTRE SI E FICAVAM SEMPRE COM A PARTE PODRE DE QUALQUER NEGOCIATA, A QUAL DAVA OS MELHORES LUCROS. SABIAM QUE PODERIAM CONTAR COM O AUXÍLIO DE RATOS IMINENTE EM CARGOS EXTRATÉGICOS, QUE OS LIVRARIAM DA RATOEIRA.
OS RATOS NÃO ERAM BURROS, OS BURROS ERAM PARENTES POBRES DOS CAVALOS. OS RATOS ERAM APENAS RATOS, E POR INSTINTO EXPLORAVAM A INGENUIDADE HUMANA. AOS CACHACEIROS DAVAM PINGA. AOS SEM DENTES, DENTADURAS. AOS SEM TÉTOS, UNS TIJOLINHOS E TELHAS. AOS FAMINTOS, CESTAS BÁSICAS. E ASSIM FORAM AUMENTANDO SEU DOMÍNIO SÔBRE OS TOLOS E INTERESSEIROS. COMO OS RATOS NÃO TRABALHAVAM, NECESSITAVAM DE MARACUTAIAS, MENSALÕES, MENSALINHOS, SUPERFATURAMENTO, PARCERIAS E GRITOS PARA TEREM A BOA VIDA QUE LEVAVAM.
O NEPOTISMO ERA UM TRAÇO COMUM. SOMENTE ENTRE ELES SE SABIA QUEM ERA OU NÃO APARENTADO A RATO. QUEM NÃO ERA NÃO TINHA VÊZ, POR MAIS QUE JURASSE QUE TINHA PAVOR DE RATOEIRA E ADORASSE QUEIJO. RATO CONHECE RATO PELO CHEIRO, E O ESTRANHO ERA SEMPRE DESCARTADO. ALGUNS CAMUNDONGOS, RATOS DEGENERADOS, ERAM UTILIZADOS COMO ESPIÕES, DEDO-DURO, ALCAGUETAS, E COMO ERAM CORROMPÍVEIS FAZIAM QUALQUER SERVIÇO SUJO, APENAS PARA SEREM APONTADOS COMO PARENTES OU APANIGUADOS DOS VERDADEIROS RATOS.
UM RATO VERDADEIRO ERA RECONHECIDO POR SUA DESONESTIDADE, FALTA DE CARÁTER, CARA DE PÁU E FACILIDADE NO MENTIR, POIS MESMO QUE JÁ TIVESSE SIDO PRÊSO OU SETENCIADO, SE CONSIDERAVA ÍNTEGRO E EXEMPLAR, E AÍ DE QUEM O LEMBRASSE DO FATO, PODERIA SOFRER UM PROCESSO POR DIFAMAÇÃO OU COISA PIOR.
A CIDADE DOMINADA A SECULOS PELOS ROEDORES ESTAVA A MINGUA SANGRAVA MORIBUNDA, SEM FUTURO, ENTREGUE AO DESTINO, PRONTA PARA APAGAR A ÚLTIMA LUZ E ESQUECER A CONTA, QUANDO A NOTÍCIA VAZOU:- ALGUNS GATOS RONDAM AS CERCANIAS!
ANOS DEPOIS... NUNHUM RATO RESTOU NA REDONDEZA, O ÚLTIMO ROEU
A ROUPA DO REI E A RAINHA RAIVOSA ROEU O RESTANTE. OS GATOS SÃO CARNÍVOROS, ANIMAIS RAPINANTES, NÃO PLANTAM NEM FIAM E ESTÃO ASSUMINDO ASPECTOS HUMANOS. DIZEM QUE UMA MATILHA DE CÃES FERÓZES FOI AVISTADA. TOMARA QUE OS HUMANOS DEPOIS QUE OS CACHORROS FIZEREM A FESTA, EXPULSEM OS CÃES E SALVEM A CIDADE SE ELA SOBREVIVER.
MORAL DA HISTÓRIA: SÓ OS IGUAIS SE ENTENDEM
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/SP
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NO FORMIGUEIRO
O dia amanhecera tranqüilo. O formigueiro estava despertando lentamente. As formigas operarias já haviam se alimentado e se dirigiam ao trabalho. A classe dominante ainda dormia, a noite fora farta em comes e bebes, e como sempre a festança acabara tarde.
As operarias dirigiram-se a floresta em busca de comida. Tinham que agir com o máximo de cuidado, hoje levavam consigo pela primeira vez uma inocente formiguinha que desconhecia totalmente o mundo exterior.
A formiguinha bobinha como só podia ser uma inocente aprendiza, estava embriagada com as novidades e tudo observava. Ávida para tudo contar às coleguinhas que ainda não podiam sair do formigueiro.
Notou o sol imenso e luminoso. O céu azul sem fim. Arvores com folhagens deslumbrantes.
O vento que soprava mansamente. A água que corria murmurando sobre seixos coloridos. Pedras imóveis e mudas, majestosas em sua solidão. Extasiava-se perante tanta beleza e dizia: - o Grande Formigão, o que tudo fez! É um pai generoso. Olha como foi bondoso comigo! Quanta comida! Quanta fartura! Quanta… foi levada pelos ares por um sabiá para alimentar seus filhotes.
O sabiá que desde manhãzinha buscava alimento para sua prole, voando em direção ao seu ninho pensava lá com suas plumas: - O Grande Sabiá, o que tudo fez! É um pai generoso e bom. Deu-me de presente essa insignificante formiga que alimentará meu filhote.
A cobra descobrira o ninho na noite anterior e aguardara a saída do sabiá para devorar seu petiz. E enquanto procurava uma moita para enrodilhar-se e digerir calmamente sua presa, agradeceu: - Oh! Grande Cobra, a que tudo fez! Obrigada pela farta alimentação.
Joaquim matou a cobra e cuidadosamente tirou o couro, que vendeu para o sapateiro Zé Galvão. E alegremente agradecia ter ganhado seu sustento diário: - Obrigado meu Deus, o que tudo fez! Obrigado pelo pão de cada dia… Não terminou a oração, foi assaltado por um rapaz encapuzado que o deixou desmaiado, sem roupa e sem dinheiro.
O encapuzado comprou a sua dose diária de Crack e entrou a viajar: - Obrigado Paizão, o que tudo fez! Obrigadúúú… nem chegou a sentir o tiro certeiro bem no meio da testa... O jornal da cidade noticiou alguns dias depois: - meliante encontrado com a boca cheia de formigas. Obrigado meu Deus!Por menos um.
Lá em cima, bem lá em cima Ele balançava a cabeça: - São todos meus filhos! Eu os criei! Quanto tempo perdido, meu Deus!
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE
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DIA DE POBREZA
Um belo dia, num reino não muito distante, o educado e tolerante rei, e, a simpática e animada rainha resolveram visitar o que julgavam ser sua propriedade pessoal, com a finalidade de mostrarem aos jovens príncipes seu futuro feudo.
Disfarçaram-se. A esbelta rainha com uma cafona bermuda GGG e o restante de camiseta, bermudão e chinelos de dedos, saíram assim vestidos para não serem reconhecidos pela gentalha e também para evitarem os lambe lambes, oba obas e pede pedes. Estavam tão bem fantasiados que nem mesmo a duquesa Florisbela, a primeira e única amiga da rainha a reconheceu. O que a soberana achou ótimo, pois assim poderia pelo menos por algumas horas ficar livre de sua sombra, digo, amiga.
Contrataram um guia turístico, arrumaram a cesta de piquenique e lá se foram numa velha carruagem alugada a desfrutarem as belezas do reino rico e magnífico.
A primeira parada foi na praça principal. Ao estacionarem a carruagem, uns cinco mendigos, todos alcoolizados, se ofereceram para tomar conta dos veículos e dos cavalos. A simpática rainha escandalizada com o comportamento dos ditos cujos, ou porque jamais imaginaria que em seu tão afamado reino pudesse existir pedintes, ou talvez por seus estranhos e penetrantes perfumes, disse: - Não!
Um deles tascou um beliscão no cavalo que lhe respondeu com um belo coice. Outro riscou a porta da carruagem, e, então o bem amado e salve salve rei, disse: - Sim! Podem cuidar do veiculo.
Um dos príncipes era extremamente observador e foi logo dizendo: - Papi! Olhe quanto lixo na calçada, que povo mais porco! Ao que automaticamente o outro príncipe pôs no bolso o saquinho vazio de biscoito que estava petiscando e já ia jogar na rua.
O amável rei queria ver tudo, mostrar tudo e foi logo ordenando ao guia trabalhar duro. O guia que nem desconfiava que o personagem tão arrogante e brutal fosse seu soberano, humildemente informou: - Temos que contornar a praça e descer por aquela viela, pois a Rua Veneza esta alagada como sempre. A inteligente rainha que sonhava desde princesinha em passear de gôndola, queria porque queria desfrutar da Rua Veneza, no que o bom guia informou que a rua na realidade não tinha esse nome, que era apenas um apelido carinhoso com que o povo se referia a mesma, pois bastava uma chuvinha para alagá-la.
Um dos príncipes, para testar o ótimo humor paterno, perguntou: - Mas o rei não manda arrumar a rua? Ao que o guia respondeu: - O sublime monarca não se preocupa com ninharias, apesar de todos os proprietários estarem estudando a possibilidade de abandonarem seus prédios, pois ninguém os quer comprar devido à calamidade que os deprecia. E tentarão construir no local um piscinão, que batizarão com o nome do divino monarca para homenageá-lo.
A simpática rainha, antes que desse um saricotico em seu amado esposo, mudou de assunto e pediu para ver a famosa e limpa orla marítima, no que foi prontamente atendida.
O príncipe observador ou chato foi logo apontando: - Nóóóssa quanto peixe! Deve ser uma revoada de tainhas! O guia como sempre atento corrigiu-o na hora: - Não é um cardume de tainhas, mas sim um alegre grupo de sacolas plásticas que resolveram conhecer o Oceano.
- Como assim? Retrucou o exótico príncipe.
- É um costume local jogar sacos de lixo na água. Aliás, ali também jogam sofás, cadeiras, camas e outros objetos velhos, cacarecos como dizem.
- E o rei não faz nada?
- Ora sua poderosa e viajada majestade é por demais ocupada para cuidar de bobagens.
- Bobagens! Sujar a água que é fonte de sustento de pescadores!
- Pois é! Mas quem suja a água é a plebe e no meio dela deve ter muitos pescadores.
- Que vergonha! Disse o príncipe eco-chato.
- Sim! Uma vergonha, porem o celeste monarca não tem culpa. As carruagens coletoras de lixo passam diariamente executando sua função.
Resolveram fazer o primeiro lanche do passeio. Quando retiraram os deliciosos petiscos reais, alguns moleques que por ali se divertiam, pararam extasiados e pediram sua cota no festim, no que a astuta rainha, sempre a mais exaltada e curiosa foi logo indagando se estudavam, tinha pais e mães. Deram à resposta padrão, pais ausentes, fome, etc. A rainha teve seu décimo chilique do dia: - E o conselho tutelar! Cadê? Cadê? Na hora de pedir votos são tão devotados! Mas depois é esse descaso! Os meninos deram uma gostosa gargalhada, passaram a mão na cesta de piquenique e saíram correndo.
A bondosa e calma rainha teve seu décimo primeiro chilique do dia: - Policia! Policia! Ao que o gentil guia a explicou: - Com crianças e adolescentes não adianta chamar a policia, pois nada podem fazer, graças a um tal de estatuto, de quem todos por o desconhecerem na íntegra tem medo.
O piedoso casal real e os príncipes, sem a cesta de lanches resolveram voltar à praça principal. Qual não foi a sua imensa surpresa ao constatarem que a velha carruagem havia sido depenada e os cavalos tinham virados churrasquinhos de gato. Voltaram a pé ao palácio, maldizendo o povinho sem educação e sem princípios. Foi o dia de pobreza do rei.
MORAL DA HISTÓRIA: - Cuidado! Por mais importante que você se julgue, um dia a realidade mostra a cara.
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2007
A EXOBIOLOGIA, CIÊNCIA QUE ESTUDA AS POSSIBILIDADES DE VIDA FORA DA TERRA, E MESMO EM OUTRAS GALÁXIAS, TEM SE ESFORÇADO AO MÁXIMO PARA NOS BRINDAR COM NOVIDADES. DEVIDO A IMENSIDÃO DO ESPAÇO CÓSMICO, ATÉ O MOMENTO NADA SE DESCOBRIU DE EXTRAORDINÁRIO. EM NOSSA CIDADE, A EXOBIOLOGIA LUTA PARA CONSTATAR A PRESENÇA DE VIDA INTERGALÁTICA, FATO QUE, SE COMPROVADO, COLOCARÁ IGUAPE POR DEFINITIVO COMO UM FAROL A NORTEAR OS NÃO-HUMANOS.
OS ESTUDIOSOS ESTÃO CONSEGUINDO RESULTADOS FASCINANTES, POIS JÁ CHEGARAM À CONCLUSÃO QUE CULTIVAMOS ALGUNS COSTUMES AGREGADOS A CULTURAS NÃO TERRESTRES. NOTEM QUE SUAS PROFUNDAS PESQUISAS REVELAM ALGUNS DE NOSSOS ESTRANHOS HÁBITOS/MANIAS QUE SÓ REFORÇAM SUAS TEORIAS: I – MANIA DE APAGAR VELA; II- MANIA DO SALTO ALTO; III- MANIA DO FOGUETE; IV – MANIA DO ATRASO; V – MANIA DE VÍTIMA.
MANIA DE APAGAR VELA- É A ESTRANHA MANIA QUE TEMOS DE APAGAR A VELA ALHEIA. TODA A VEZ QUE ALGUÉM SE SOBRESSAI, NO LUGAR DE DAR UMA FORÇA, APLAUDIR, AUXILIAR, BAIXA-SE O SARRAFO, E LÁ VEM CRÍTICA E MAIS CRÍTICA ATÉ DESESTIMULAR A AMBICIOSA CRIATURA, OU SEJA, EM VEZ DE ACENDER SUA PRÓPRIA VELA, APAGAM A DO VIZINHO E PUXAM O TAPETE.
MANIA DO SALTO ALTO – A MANIA DO SALTO ALTO OU, COMO DIZEMOS EM NOSSO LINGUAJAR TÃO PECULIAR, “POUCO SALTO”, É A MANIA QUE GRUDA EM TODA A PESSOA QUE É BRINDADA COM UM CARGO, UM EMPREGO, UM BICO. POR MAIS SIMPLES QUE SEJA, SALVO RARAS EXCEÇÕES, LOGO, LOGO SOBE NO SALTO. AINDA NÃO DESCOBRIRAM QUEM DÁ O CURSO “POUCO SALTO” EM IGUAPE. MAS QUE ENSINAM DIREITINHO ENSINAM. CARAS DESLUMBRADAS, BOCAS MOLES E TORTAS, OLHARES SUPERIORES E INFERIORES, FRASES FEITAS E DESFEITAS, TREJEITOS E OUTRA COSITAS MÁS... ESTÁ TUDO ALI. BASTA UM CARGUINHO/CARGÃO PASSAGEIRO (QUATRO ANOS) E TODOS SE DESLUMBRAM E SE MODIFICAM. PARECE MAGIA, PASSADAS AS VACAS GORDAS (!), TODOS VOLTAM IMEDIATAMENTE A CALÇAREM AS SANDÁLIAS DA HUMILDADE, ESQUECIDOS COMPLETAMENTE DE SEU COMPORTAMENTO EXTREMAMENTE ARROGANTE NO PASSADO RECENTE.
MANIA DO FOGUETE – COM CERTEZA, É ESSA MANIA A QUE MAIS NOS APROXIMA DOS EXTRATERRESTRES, POIS VIVEMOS SINALIZANDO PARA NOSSOS IRMÃOS DO ESPAÇO EXTERIOR:- OLHE EU AQUI! ... OLHE EU AQUI! ...TOMOU UM PORRE? ... FOGUETE! BOI SAIU? ... FOGUETE!BOI ATRASOU? ... FOGUETE! O AMIGO VENCEU? ... FOGUETE! O INIMIGO DANÇOU? ... FOGUETE! COM A DINHEIRAMA GASTA COM O DITO CUJO, PODERÍAMOS CONSTRUIR UM PORTO ESPACIAL... UM VELÓDROMO (!)... RECUPERAR A FONTE DA SAUDADE SABE LÁ! ... MAS QUE DARIA PARA ERGUER UMA GRANDE OBRA, DARIA.
MANIA DO ATRASO – É INCRÍVEL COMO SOMOS DESLIGADOS. OBVIO, NÃO SOMOS HUMANOS, SOMOS DE FORA. TEATRO... SHOWS... PASSEIOS... COMÍCIOS... TUDO ATRASA ATÉ MESMO ESCOLA DE SAMBA E BOI TATÁ. PRECISAMOS RESPEITAR O TEMPO ALHEIO; SE MARCOU HORÁRIO (POR QUE MARCOU? MARCOU POR QUÊ?), TEM QUE SEGUIR O ROTEIRO.
MANIA DE VÍTIMA – SOMOS TODOS VÍTIMAS. DO REI MARAVILHA, DA RAINHA MÃOS LIMPAS, DOS PRÍNCIPES E PRINCESAS, DO AMIGO DO REI, DA CORTE ESNOBE, POBRE E MEDIEVAL, DO PUXA SACO GRITÃO E MAL EDUCADO (PERSONAGENS ESSES QUE POVOAM NOSSO IMAGINÁRIO DE CONTO DE FADAS DESDE CRIANCINHAS). SOMOS VÍTIMAS REAIS DO DONO DO BOTECO QUE NÃO VENDE FIADO, DO VIZINHO CUIDÃO, DO PEDINTE ACHACADOR, ATÉ MESMO DA HIERARQUIA/GALERA QUE CONSTITUI A NOSSA SOCIEDADE.
O ESTUDO REVELOU DOIS FATOS INTERESSANTES. PRIMEIRO: NÃO SABEMOS EXERCER NOSSA CIDADANIA, POR ISSO A VACA JÁ SABE DE COR E SALTEADO O CAMINHO DO BRÉJO. SEGUNDO: ENTRE NÓS NÃO EXISTEM CORRUPTOS, SONEGADORES, MENSALEIROS, FOFOQUEIROS, LADRÕES DO BEM PÚBLICO OU PRIVADO, CALOTEIROS, OU SEJA, EXISTEM SOMENTE VÍTIMAS (FATO INÉDITO E PARADOXAL).
CARO E INTELIGENTE LEITOR, SE VOCÊ ESTÁ INCLUSO COM MAIS DE DUAS MANIAS... CUIDADO!... MUITO CUIDADO! ... PROVAVELMENTE VOCÊ É UM ET...
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/SP-2007
O PARQUINHO
A cidade estava em festa. Semoventes de todas as longitudes desfilavam por suas vetustas calçadas. Até mesmo indianas confundidas com irmãs de Madre Teresa de Calcutá, marcavam presença.
A rainha regente, em reunião rotineira resolveu reafirmar a realeza. A repercussão retumbou rapidamente em receoso rebuliço. O ex rei raposa, remoeu o ressentimento. Recém resignado, reprovou roxo de raiva a régia remodelação. E, reivindicou reintegrar o reino, reconquistar a região, repelir o regime reinante numa reviravolta roaz. Ridículo! A rejeição pela retrograda roubalheira no reduto ainda rende rusgas ríspidas. A ralé radiante, não reabilitou o recaído, que em seu rico recanto ri dos rotos e rasgados. A rebordosa reacionária recorda a recepção risível, a remoer remoques em resposta ao retornar após retumbante retirada. O redil reconsidera regalar o ex rei relapso, com reservas, ressalvas e recusas.
Todas essas palavras e frases com a letra “erre” são para dizer que a rainha alugou um parquinho de diversão, nessa fictícia cidade, e pos a corte para trabalhar. Teve choro e ranger de dentes. O povão quando soube da novidade correu a conferir. E não é que era verdade verdadeira!
Os lordes e altas damas tiveram seus dias de pobreza. Desacostumados que estavam com o exercício da humildade, gentileza e convívio com o populacho. Foi chilique sobre chilique. Na bilheteria uma boadame que adora olhar o mundinho por cima dos óculos, esquecida de seu passado pobre, a cada ingresso vendido fazia beição e murmurava com seus cabelos desgrenhados: – Eu me vingo! Eu me vingo. Outra disfarçava com um véu árabe a diáfana face, temerosas de que as bactérias do Zé povinho invadissem suas sensíveis narinas.
Uma nobre teve que descer dos saltos, e calçar as sandálias da humildade perante as educadas crianças que teimavam em chamá-la de tia: – tia é a irmã de seu pai! Seu pezinho de chinelo rosnava a dondoca. Outro nobre, ferido profundamente em seu orgulho, passava o tempo olhando para cima, com o nariz empinado, a fim de não ser reconhecido pela ralé, ou, talvez estivesse apenas cumprindo com suas obrigações, pois era o responsável pelas aeronaves.
O fechamento do parque era o momento mais aguardado. As madamas sem maquiagem, despenteadas, só meio salto, caidaças e fulas da vida, davam vazão ao ressentimento: – foi a praga do rei deposto! Quantas mãos precisei beijar e quantas macumbas rolaram para conseguir esse cargo! Eu sou uma dama! Uma madama! Ouviram?
O parquinho fez o maior sucesso. O dinheiro arrecadado servirá para beneficiar os munícipes e mostrar a população, já esquecida, que funcionário público é servidor do povo, que um dia de pobreza pode ser encarado como algo útil e que trabalhar honestamente não tira pedaço de ninguém. Que conviver é compartilhar, e que todos nós, nobres e plebeus somos compostos do mesmo tecido de que são criados os sonhos e os pesadelos.
GASTÃO FERREIRA
gastaoiguape@yahoo.com.br
O ET E O PESCADOR
O ET E O PESCADOR
O homem viajava no tempo, sua nave aterrissou no novo portal da bela cidade… confundira-o com um moderno porto extraterrestre.
Ditinho avistou o objeto voador não identificado. Recolheu seu currico, certo de que eram fiscais de pesca a fim de multá-lo. Estava pronto para mil desculpas esfarrapadas, quando foi abordado pelo piloto da aeronave:
- Saudações!… habitante do passado. Posso saber o nome dessa localidade?
- Iguape!… meu senhor.
- Iguape? Não pode ser!…Iguape é um bairro pobre de Registro!
- Não!… Não!… O senhor esta enganado, aqui é Iguape, ali é o Rocio e essa água toda ali é o Valo Grande…
- Ah! Já entendi… Esse é o famoso valinho que se atravessava de um pulo, e que depois foi desmoronando até engolir a cidade inteira…
- Meu Bonje!… O senhor tem certeza?
- Claro amigo! Venho do futuro e conheço o passado remoto dessa região…
- O senhor veio do futuro?
- Mais precisamente do ano de 2.500 D.C.…
- E Iguape não existe nesse futuro?
- Não!… Estudei bem essa localidade. Fiz vários documentários sobre a lendária Juréia…
- Mas a Juréia existe, eu fui lá!
- No meu tempo ela é uma lenda, uma espécie de Atlântida tropical…
- Meu Bonje! E Iguape?
- Iguape foi uma cidade desaparecida. Também é uma lenda em minha época. Dizem nossas crônicas que contava com um famoso templo, visitado por milhares de Romeiros. Ficou conhecida na história antiga pela questão “JvT” (Joio Versus Trigo), uma disputa local que acabou ocasionando a destruição da tal cidade…
- Meu Bonje! O que era o tal “JvT”?
- Eram picuinhas de partidos políticos. Brigavam tanto entre si, que se esqueciam de administrar o município… estradas vicinais abandonadas, descaso na saúde, lixo e entulhos nas ruas, antipatias gratuitas por quem não abraçava suas idéias e métodos de agir… o Valo Grande desmoronava e assoreava o lagamar… com o tempo, uma tal de Ilha Comprida, que ninguém conseguiu provar se realmente existiu, com o aterro do Mar Pequeno, uniu-se a Iguape… lotearam os terrenos e depois tudo afundou com o grande desgelo polar, ficando apenas as mansões das montanhas.
- As mansões das montanhas?
- Não contei?… Toda a decadência começou quando um prefeito muito honesto e batalhador conseguiu comprar com apenas seu salário de representante do povo, uma linda mansão com piscina e altos muros. Todos os que o seguiram no cargo competiram entre si para adquirirem uma moradia mais vistosa do que a dos outros…
- Meu Bonje!
- Com o tempo e novas tecnologias, aplainaram o topo das montanhas e passaram a construir seus palacetes nas verdes alturas…
- Não acredito!
- Posso até mostrar fotos! Pois é uma das sete maravilhas do mundo antigo, das poucas que sobreviveram as catástrofes que quase destruíram o planeta…
- Meu Bonje! Que coisa inacreditável!
- Sim!… pensando bem, foi inacreditável… os mandatários construíram seus luxuosos palacetes com seus salários, até hoje, apesar das duvidas, não conseguimos provar se houve prevaricações, mas a cidade não progredia… todo o dinheiro dos inúmeros impostos ajuda estadual, federal e mundial, era rapidamente utilizado em pavimentação de estradas, reforma de escolas, maternidade e foguetes…
- Meu Bonje! Não mudaram nem no futuro…
- Com o descaso a cidade foi cercada pelo lixo, manguezal e doenças… só os da montanha e seus afilhados, tinham uma vida digna, boa alimentação, saúde e segurança garantidas…
- E ninguém fez nada? Ninguém reclamou?
- Você esta fazendo alguma coisa? Cidadão!
- Por favor! Pode pular esta parte?
- Tudo bem!… o povo sem poder criticar, averiguar e provar que o xis da questão estava na aquisição das belas mansões, começou a grilar terrenos próximos a localidade chamada Registro, e lá, construíram um favelão, ao qual batizaram com o nome de sua ex amada cidade, que fora tragada pelo mar…
- Meu Bonje! E daí?
- Bem!… A classe dominante ficou isolada em suas mansões com piscinas e altos muros, no topo das montanhas. A ajuda oficial acabou… a fonte de recursos secou… e o tempo matou a todos, nem se quer temos o comprovante de seus nomes, apenas o de quem iniciou o processo… Restaram as imensas construções vazias. No meu tempo, habitadas por urubus e gaivotas, e, fotografadas do alto pelos raros turistas que se aventuram por essas terras selvagens…
- Meu Bonje!… Meu Bonje!
- Pare de falar meu Bonje a todo o momento! Não tem outra forma de se expressar?
- Meu Bonje!… Não!… Estou abismado…
- Afinal! Em que ano estamos?
- Em 2007…
- Meu Bonje! A decadência já começou…
GASTÃO FERREIRA
gastaoiguape@yahoo.com.br
A VISITA DO EXTRATERRESTRE
Pois não é que recebemos aqui na corte a visita de um extraterrestre muito simpático. Veio estabelecer relações comerciais e entre os milhares de burgos do planeta terra escolheu nossa progressiva cidade. Coisas de ETs.
No começo todos acharam que era brincadeira de algum carnavalesco frustrado. O disco voador era pequeno e cheio de luzes que piscavam alucinadamente. Um curioso, não se contendo, tocou no estranho objeto e levou um choque violentíssimo, está gago até hoje.
Quando a noticia do choque se espalhou, a população largou seus inúmeros afazeres e acorreu ao campo de futebol para observar o fenômeno. Os homens da lei chegaram e isolaram o local. As autoridades, gente como a gente, também curiosos lá estavam à espera dos finalmente.
De repente não mais do que de repente, desliza a porta do ÓVNI e um ser parecido com um pequeno macaco, tipo bugio, sai jogando espelhos e colares de plástico, dizendo em bom e claro português:- Mim XPT… Mim fazer negócios… Mim falar com chefe…
O chefe chegou. Por incrível que pareça não houve atraso. E, já zangado e cheio de razão ia reclamar da brincadeira, quando notou o belíssimo, caríssimo e reluzente colar de ouro que XPT usava, e, tornando-se macio e humilde falou: - Mim o chefe!
XPT contou sua história, ali mesmo, na frente do povo. Quando falou em vultosos negócios e que a nave estava carregada com ouro e pedras preciosas, o chefe achou melhor ter uma conversa reservada com a criatura e educadamente a convenceu a acompanhá-lo até o palácio residencial.
XPT estava extasiado, como é que uma gente tão primitiva conseguia se comunicar tão bem. No palácio o chefe apresentou-o a chefe, aos chefinhos e aos chefetes, exaltando as qualidades e qualificações de cada um. XPT falou de negócios bilionários e exigiu bons antecedentes para concretizá-los. O chefe mostrou seus diplomas de chefe que eram vários, pois entre um exílio e outro lá vinham outro diploma para reconfirmar no cargo. XPT não havia se enganado, o homem estava entre os dez melhores em um país que possuía mais de cinco mil cidades, centenas delas consideradas de primeiro mundo, o homem deveria ser um privilegiado e um gênio administrativo.
XPT era um bom comerciante e logo tratou de saber o que o progressivo local poderia oferecer em termos de troca. Deixando no ar um quê de mensalinho extra, se obtivesse algumas vantagens. O chefe falou… falou… falou e no final disse: - temos chuchu!... Chuchu? Não! Disse XPT.
Temos maracujá!... XPT: - oh... Oh... Não!
- Manjuba?… nem pensar.
O chefe se desesperava vendo fugir o negocio do milênio, e, no desespero entendeu como era pobre o seu vale. XPT, astuto comerciante, também estava desgostoso. Como um local cujo líder era um dos dez melhores em um imenso país que exportava para todo o planeta produtos industrializados, medicamentos, novelas, livros e idéias, não tinha nada criativo ou tecnológico para ofertar. E, conclui que se um dos dez melhores era assim, imaginem os outros. Voltou a sua pequena nave carregadas de tesouros e alta tecnologia e foi em busca de outro planeta.
Foi assim que perdemos a chance de sermos os primeiros exportadores galácticos. Quem sabe num futuro não muito remoto, outro XPT passe por aqui, e, tomara que então seja diferente.
Gastão Ferreira