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A fuga

As batidas na porta da sala não paravam. Vinicius tentava tapar os ouvidos, mas não conseguia impedir. O som dos socos e pontapés que seu pai dava na porta da sala, não paravam. Nilza, mãe de Vinicius queria impedir que Avelino entrasse em casa. Estava bêbado novamente. E como sempre nervoso. Avelino era um homem forte, trabalhava como “chapa”1 desde que perdeu o emprego, há mais ou menos um ano, e o pouco que conseguia durante o dia, bebia tudo e mais um pouco, no bar do seu Juvêncio, que ficava na esquina.
Nilza se virava, vendendo salgadinhos e doces na rua. Vinicius a ajudava sempre que podia, quando voltava da escola.
“Que saudades do antigo Avelino”, dona Nilza sempre falava isso. Na época que ele não bebia e não batia nela. Era uma boa pessoa. Mas agora, bastava beber para se transformar em outra pessoa. Um animal.
Lá fora, largou a esteira de impropérios contra sua esposa e às vezes, contra o seu filho e contra qualquer um que se metesse em seu caminho. Os vizinhos, incomodados com a gritaria, começaram a acender as luzes e alguns até se atreviam a abrir a janela. Avelino gritava e esbravejava, dizendo que não era da conta deles e chegou até a jogar uma garrafa contra uma das casas.
Avelino consegue arrombar a porta e vai direto para o quarto. Encontra sua esposa sentada sobre a cama com a cabeça baixa.
- Ô sua desssgraxada, não me ouviu batendo na porrrrta não? - Disse Avelino, com a voz arrastando como se sua língua estivesse inchada.
Nilza não respondeu e continuou com a cabeça baixa.
- Ô sua desssgraxada, tá ficando surda?
- Eu ouvi sim e toda a vizinhança também.
Diante de tal resposta, Avelino esticou o braço esquerdo e deu um sonoro tapa em Nilza.
- Sabia que tem lei contra isso? Um dia eu fujo daqui.
- Tá pessssando que xou algum gnorante? Eu sei desssa lei da Maria de “não sei o quê”. E isprimenta fugi pro se vê se num te acho e te trago pelos cabelo. – dizendo isso Avelino deu um soco em Nilza, jogando-a para o chão. Ela bateu a cabeça no guarda roupa e desmaiou. Avelino, mal se agüentando em pé, tombou na cama e adormeceu também.
No meio da noite Nilza acorda. Tudo doía. Tinha um hematoma na cabeça, resultado da batida no guarda roupa. O lábio estava inchado e partido e estava sangrando pelo nariz, devido ao soco que levara. Todo o seu braço esquerdo e sua camisola estavam manchados de sangue. Ficou sem entender. Não podia ser o dela, pois já estava seco. Tentou se levantar e sua visão escureceu acompanhada de uma forte dor de cabeça. Quando as imagens começaram a ficar clara, viu seu marido jogado sobre a cama e o sangue pingando na lateral. Viu seu filho num canto do quarto com uma faca manchada de sangue na mão.
- Filho, o que você fez? – Disse Nilza desesperada correndo de encontro com o menino.
- Eu escutei ele gritando com você mamãe. Ele te machucou. Depois eu vi você cair e pensei que ele tinha matado você, então eu matei ele. Desculpa mamãe. – Vinicius começou a chorar e Nilza o abraçou forte.
- Venha meu filho. Temos que fugir.

Fim

1-chapa.: Trabalhador autônomo

Alguns detalhes interessantes que descobri enquanto escrevia esse texto.

A CADA 15 SEGUNDOS uma mulher é espancada. A cada nove segundos uma mulher é ofendida na conduta sexual. Também a cada nove segundos uma mulher é desmoralizada no trabalho doméstico ou remunerado. Mulheres negras têm mais chances de serem estupradas que as mulheres brancas.
A lei citada no texto é a Lei Maria da Penha. Ela foi sancionada pelo presidente da república no dia 07 de agosto de 2006, a lei é a 11.340/06.
Mais detalhes no site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_maria_da_penha


por Jack Sawyer

JAPÃO



Manhã de quarta-feira.


Alan estava eufórico. Afinal conseguiria sua tão sonhada viagem para o Japão, através de um intercambio. Seria neste fim de semana. Não conseguia se conter de tanta felicidade. Mas coisas estranhas começaram a acontecer.
Ao preparar seu café da manhã, por acidente, deixou a caixa de cereais cair na mesa e derrubar quase todo o seu conteúdo. Na afobação de tentar aparar a queda, esbarrou na caixa de leite e a derrubou no chão. Não se importou muito, pois havia só um pouquinho. Iria se atrasar. Resolveu limpar toda a bagunça antes. Retirou primeiro a louça e os talheres, quando voltou para limpar os cereais, parecia que havia letras nos espaços vazios, antes ocupados pelas louças. Parecia a palavra “NÃO”. Não ligou muito, juntou tudo e foi limpar o chão. Olhou o relógio, não daria tempo. Pegou a mochila e saiu. No chão, o leite escorreu pelo vão entre os pisos e formava a sílaba “VA”.
O ônibus demorou a chegar na escola devido a um acidente de trânsito. Um sedan bateu em um caminhão de tubos de aço. O motorista morreu na hora com um tubo que atravessou o pára-brisa.
O bizarro foi o sangue espirrado no vidro traseiro do sedan, que pareciam formar as palavras “NÃO VÁ”.
Alan não viu. Não queria olhar. Era muito sangue para começar o dia.
Na escola, tudo transcorreu bem. A euforia continuava e a visão do acidente não abalou sua alegria. Recebia parabéns de vários colegas que sabiam da sua viagem.
Durante a aula de língua portuguesa, o professor pediu que acompanhassem a leitura de um texto no livro de exercícios. Parecia que sua mente lhe pregava peças pois as palavras “não”, “vá”, “agora”, “ainda”, “desista”, ficavam dançando em seu campo visual, como se estivessem em negrito, se destacando do texto. Tentou se concentrar e tudo voltou ao normal. Talvez estivesse impressionado por causa do acidente.
Quando toca a campainha de fim de aula, ele espera os outros saírem enquanto arruma suas coisas. Já estava de saída quando um dos vidros da sala se espatifa.
Assustado corre até o canto da sala com mais alguns colegas para ver o que tinha acontecido. Um pobre beija flor havia atravessado o vidro. Ainda se debatia em meio aos cacos.
Já em casa, achou melhor não comentar nada, pelo menos o da escola, pois o acidente da rua seus pais já sabiam.


Tarde de quinta-feira


Alan estava andando de bicicleta com os amigos quando resolveram que queriam dar uma festa de bota fora para Alan. Seria na sexta à noite, na véspera de sua viagem. Ele achou a idéia legal e aprovou.


Manhã de sexta-feira

Já na escola, Alan não se continha de alegria, não via a hora de o sábado chegar. No intervalo “recreio”, Miriam, uma mestiça japonesa veio falar com Alan. Era esquisito. Ela era sempre tão tímida, só conversava se falassem com ela. Talvez queria se despedir dele e dizer que não iria a festa.
- Alan gostaria de falar com você um instante.
- Pode falar Miriam – respondeu Alan todo simpático.
- Sabe... não é fácil pra eu falar abertamente assim mas... eu não ficaria tranqüila se não te disse isto.
- Pois então diga.
- Adie sua viagem. Não vá no sábado. Vá no domingo. É mais calmo.
- Não. Estou aguardando isso há tanto tempo, não vou esperar nem mais um dia.
- Eu falo sério. Andei tendo sonhos horríveis, mesmo antes de saber de sua viagem.
- Isso é besteira – rebateu Alan – Você deve estar impressionada com alguma coisa, talvez um filme que você tenha assistido.
- Não Alan, porque eu inventaria alguma coisa assim, sabendo que é o seu sonho. Não estou pedindo para você desistir, apenas adiar um dia.
- Já está decidido. Vou no sábado e pronto.
Deu as costas para Miriam e saiu. Ao passar pelo espelho de corpo inteiro do corredor não viu o seu reflexo. Quando seu cérebro processou essa informação, voltou correndo para olhar o espelho. Na verdade, foi só uma ilusão, seu reflexo estava lá. A conversa com Miriam e a expectativa da viagem estava gerando um abismo emocional no qual ele tinha que se controlar.


Tarde de sexta-feira

Toda a turma da escola estava na festa, inclusive os professores. Por onde passava recebia tapinha nas costas e parabéns. De repente, a pessoa que ele menos esperava estava lá também. A Miriam. Ela estava com uma blusa de mangas curtas com um longo decote nas costa e saia acima dos joelhos, o que era muito incomum.
“ – Provavelmente, estaria ali para tentar dissuadi-lo da viagem.” – pensou Alan.
Ela havia parado na bancada de bebidas e pegou dois copos de refrigerantes. Sem que Alan percebesse, ela despeja um pó em um dos copos e vai em sua direção.
- Se veio aqui para me fazer desistir, está perdendo seu tempo porque...
- Calma, calma. Só vim para lhe desejar boa viagem.
- Só isso? Sem discurso?
- Sem discurso, prometo. – dizendo isso entregou um copo para Alan e outro colocou na mesa e cruzou os dois dedos indicadores em frente aos lábios como se, selando um juramento.
Retomando seu copo ela levantou à altura dos olhos e disse:
- Um brinde a você Alan. Que você desvende a magia do oriente.
- Tin-tin – respondeu Alan tomando todo o refrigerante em um gole só.
- Boa viagem. Tenho que ir agora.
- Valeu por ter vindo.
Após três horas de festa, Alan se sentia cansado e meio zonzo, e disse aos colegas que voltaria pra casa porque teria que acordar cedo e seus pais haviam saído.
Quando estava na cama, demorava para dormir e quando pegava no sono, acordava com pesadelos. Já era de madrugada quando conseguiu ter um sono tranqüilo.


Noite de sábado

O telefone toca insistentemente. Alan levanta meio sonolento, olha pela janela e percebe que é noite ainda e atende o telefone.
- Alô. – responde com voz pastosa.
- Graças a Deus, você está aí ainda, por que não atendeu o telefone antes. – disse Emerson, seu colega de escola.
- Como assim, “aí ainda”? Nem amanheceu.
- Acorda cara, já é sábado, você perdeu o vôo, graças a Deus.
- O que você está dizendo?
- Liga a televisão – disse Emerson
Alan tateia a cama em busca do controle remoto e liga a tv no RecordNews, bem no momento que o repórter dá as noticias.
“... estamos aqui no aeroporto, na sala de controle aéreo e a nota que foi divulgada para a imprensa é que o vôo que saiu do Brasil para o Japão caiu no mar do Japão, na área conhecida como Triângulo do Dragão, que é parecido com o Triângulo das Bermudas do oriente. É muito provável que ele tenha caído na área da Fossa das Marianas, a região mais profunda do oceano, podendo chegar a até 11 km de profundidade. Especialistas acreditam que não houve sobreviventes. O Triângulo do Dragão é conhecido por vários desaparecimentos de navios e aeronaves que ...”
Alan desliga a televisão e fica pensando em Miriam.

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Em memória das vítimas do vôo 447 da Air France.

Perna Longa

Por Jack Sawyer

Jonas sempre foi impetuoso, corajoso, mancebo valentão.

Sempre batia no peito dizendo "eu isso", "eu aquilo".

Morava em um sitio. Ele, os pais e os irmãos. Era meio sertão.

Naquele tempo, não tinha as facilidades que temos hoje. Uma ida ao supermercado, quando possível, era uma verdadeira viagem, a pé e por estrada de terra, ou através de trilhas no meio do mato.

Sempre que saiam, Jonas ia à frente. E é em uma dessas saídas, que se passa nossa historia.

De família católica, todos eles, era sagrado eles irem à igreja todo domingo.

Saiam de casa com a luz do dia. Fim de tarde, na verdade. O crepúsculo, com seu disco dourado a se esconder por detrás dos morros. Como iam pegar trecho de mata, essa claridade não era suficiente para iluminar o caminho, então tinha que recorrer, ocasionalmente, às lanternas.

Jonas, como sempre, ia à frente. Sentia-se como um explorador. Quando chegavam na cidade, ele voltava para o grupo e retomavam o passeio todos juntos.

Chegavam sempre em uma praça, um pouco antes da igreja, para impar os sapatos. Tirar o capim e escovar a poeira que se fixara em suas roupas e calçados. Logo após essa limpeza, se dirigiam para a igreja.

Ao fim da missa, conversavam com algumas pessoas, para colocar "o papo em dia". Os pais ficavam conversando com o padre, até que, finalmente se despedem.

Chega à hora do cansativo retorno, pois agora era no escuro. Uma noite sem luar. Se afastando das luzes da cidade, a penumbra era total, salvo alguns vaga-lumes, que iam e viam, num balé frenético e aleatório.

Jonas estava lá na frente de todos, logo em seguida seus irmãos, em fila indiana, e por último, seus pais, de mãos dadas, cantando uma música que teimava em permanecer em suas cabeças.
De repente, Jonas percebeu o mato se mexer à sua direita. Parou e ficou olhando no escuro tentando achar algo com a fraca luz da lanterna.

Seus irmãos, logo se aproximaram e um deles perguntou;

- O que foi?

- Nada, acho que não foi nada. Um rato, talvez.

Aproximou-se da moita e, o que é que fosse que estivesse ali, saiu correndo.

- Algum bicho noturno. – falou Jonas, quase para si mesmo.

Continuaram a marcha e ele logo se adiantou dos demais.

Andaram mais alguns quilômetros, e novamente, o mato se mexeu à sua direita.

O irmão mais próximo percebeu a parada e correu para perto de Jonas. Os dois focalizaram com a lanterna, quase ao mesmo tempo, o local do barulho.

O susto foi tremendo, porque era algo que eles não esperavam ver ali. Pelo menos, não àquela hora.

Era um garoto, quase da mesma idade de Jonas, meio pálido, olhos grandes, rosto arredondado. Estava descalço e usava um short escuro.

Ficaram alguns segundos se encarando. De repente, o garoto olha para o morro mais próximo, dava pra ver só o contorno escuro contra o fundo azul escuro do céu.

O garoto levantou a perna direita e a estendeu em direção ao morro. Devia ter uns três quilômetros de distância. Em seguida atirou o corpo na mesma direção e içou a outra perna, até sumir na escuridão.

Jonas, sem olhar para traz, fala com seu irmão.

- Você também viu isso, não viu?

- Vi e não consigo acreditar.

- O que vamos fazer?

- Nada. Nem vamos falar nada. Ninguém acreditaria nisso.

Aguardaram os outros e começaram a andar sempre junto.

Alguns anos mais tarde, comentando com gente mais velha da região, Jonas veio a descobrir que esse menino, quase sempre aparece em locais onde possui alguma fonte de minério ou pedras preciosas.

Mas nunca iremos saber disso, não é mesmo?

Fim.

Este conto foi inspirado numa historia que um amigo, antigo morador do Vale do Ribeira, me contou. Ele garante que foi verdade. Os nomes foram substituído para protegê-lo.

Jack Sawyer ;D

"Talvez você não esteja tão só quanto imagina..."

Poço da vida eterna.

O vento açoitava o rosto e minhas orelhas. Já estava a 1600 metros de altura naquela escalada quase vertical, esperando que tudo aquilo fosse verdade. Preparara-se tanto.
Tentava não olhar para baixo, mas era inevitável. A altura é muito maior vista de cima do que quando se está embaixo.

Tudo isso começou há um ano atrás, quando socorri uma vítima de atropelamento. Era um cigano. Uma camionete o havia acertado em cheio e o jogado de encontro a uma árvore.
Eu estava logo atrás com meu jipe, e vi quando o motorista da caminhonete foi embora sem prestar socorro.

O homem estava muito mal. Não ia sobreviver, mas em seus últimos instantes de agonia, se esvaindo em sangue por todos os lados, enfiou a mão dentro colete de couro que estava usando e tirou um pacote enrolado com uma fina tira de couro. Antes que eu esboçasse qualquer reação, ele me fez jurar que seguiria adiante, que seguiria o mapa e encontraria o poço. Quando finalmente concordei, para que ele não se esforçasse mais, ele virou para o lado e morreu.
Levei-o até o próximo vilarejo e contei o ocorrido, ninguém fez mais perguntas. Coloquei o mapa no porta luvas e segui viajem. Acabei esquecendo o assunto.

Algum tempo depois, quando estava limpando o carro e abri o porta luvas, cai no assoalho do jipe o "rolinho de couro". Foi quando me recordei do cigano e aquele dia fatídico. Abri com cuidado e vi que era um mapa.

No plano central havia uma montanha, no alto um poço e envolta do mapa, vários desenhos indicativos que nada faziam sentido. Apenas um deles, eu havia visto no dia que socorri o cigano. Provavelmente ele também, e no descuido, foi atropelado.

Passei os últimos 11 meses pesquisando e treinando escalada, pois quanto mais eu pesquisava, mais ficava convencido que aquele mapa não era delírio de velho louco.
E hoje estou aqui. No alto dessa montanha, com os dedos em carne viva. Após uma pausa para tomar fôlego retomei a subida. Depois de 10 minutos de vários escorregões, cheguei a um pequeno espaço aberto e plano de uns quatro m2 e novamente a continuação da montanha. Na base tinha uma fenda com pouco menos de 50 centímetros de largura e um símbolo na entrada. Era um símbolo de entrada, estava meio desgastado pelo tempo, mas era o símbolo de entrada. Eu já sabia, já tinha decorado todos os símbolos do mapa. Ainda bem que não precisaria subir mais.

Tirei a lanterna e corda da mochila. Tentei olhar pela fenda, mas estava escuro demais. A escuridão parecia engolir a luz da lanterna. Amarrei a corda na mochila e a outra ponta em mim. Joguei a mochila pela fenda e logo em seguida passei. Dentro da caverna era mais espaçoso, andei um pouco pelo túnel aproveitando a claridade da entrada. Parecia mais uma mina abandonada escavada na rocha. Quando resolvi usar a lanterna, ela começou a piscar e dar sinais de bateria fraca, mal eu tinha usado a lanterna. Troquei as pilhas usadas por novas, mas sem resultado algum. Tentei ver pela luz do meu relógio, mas também não funcionava. Tirei um isqueiro do bolso e acendi, pelo menos isso funcionava. Tirei a bússola da mochila e fiquei surpreso porque ela girava sem parar, sem apontar uma direção. Pelo jeito, nada elétrico, eletrônico ou magnético funcionava ali. Consegui tirar um pedaço de escora da caverna, enrolei a ponta com uma meia e embebi com fluido de isqueiro. Pronto já tinha uma tocha improvisada.

Olhei o mapa novamente e esta última frase, até hoje, eu não conseguia entender. "Enxergarás com os ouvidos o que os olhos não podem ver". Não sei se era um erro de tradução, não tinha sentido. Ali só tinha a rocha lisa e algumas escoras, mais nada. Sentei para comer e beber alguma coisa.

Enquanto estava comendo, ouvi um ruído, parei de mastigar e fiquei escutando. Novamente o ruído. Pareciam pequenas patas correndo pela parede. Peguei a tocha e fiquei observando. Nada. Mas o ruído ainda estava lá, arranhando a rocha, será que era isso que aquela ultima frase queria dizer? "Enxergarás com os ouvidos...".

Encostei o ouvido na fria parede rochosa e fui seguindo toda a sua extensão. Logo à frente ouvi o ruído novamente, parecia estar vindo de trás da parede. Mas como? Ela era totalmente lisa, não havia rachaduras e nem emendas. Peguei o meu martelo de escalada e comecei a bater de leve na parede. Havia um ponto oco na rocha e um relevo. Aproximei a tocha para enxergar melhor e tinha o mesmo símbolo da entrada, mas não estava ali antes.

Pus-me a golpear a parede. Apesar do barulho de oco, ela era dura. Depois de vários golpes, abri um pequeno orifício. A partir daí fiquei empolgado, deixei o martelo no chão e comecei a bater com os ombros e com os pés. A alegria de ter encontrado aumentava a minha força e num rompante de energia derrubei a parede, caindo junto com ela, em meio à poeira e pedaços de rocha.

Acendi novamente a tocha e lá estava ele. O poço. Tal qual estava desenhado no mapa. Aproximei-me e olhei dentro. Parecia muito fundo.

Procurei uma pedra para calcular a distancia, mas... Não encontrei nenhuma. Havia tantas quando eu caí. A entrada deve ter mais na entrada. Mas... Onde está entrada? O buraco pelo qual eu passei, se fechou novamente. A parede estava lisa, como eu a havia encontrado. Meu martelo ficara do outro lado. Bati com a lanterna na beira do poço até conseguir tirar uma lasca. Já serviria para o que eu tinha em mente.

Joguei o fragmento e fiquei ouvindo. Havia água. Quase dei um grito de alegria. Agora, a questão era como tirar a água do poço. Com a tocha erguida olhei toda a extensão da caverna. Era bem grande, havia pegadas ali, seriam as minhas? Não sei dizer, estava tão eufórico.
Em uma fenda, cheia de areia e poeira, parecia ter um pedaço de corda. Olhando mais de perto, vi que era a alça de um balde. Um balde rústico e bem antigo, mas serviria para os meus propósitos.

Amarrei minha corda em volta do balde, para reforçar e quando ia jogá-lo no poço, algo passou entre os meus pés, olhei para baixo e vi um rato que tentava me morder. Chutei-o para o lado e ele voltava a me morder. Tentei chutá-lo novamente, não seria um rato que ficaria entre eu e o meu sonho. Desta vez, quando ele tentou me morder novamente, eu pisei nele com força.
Vocês devem estar pensando "mas que nojo", mas ao invés de sair sangue e víceras, saíram molas e engrenagens. Era mecânico, mas parecia tão real.

Estava preste a jogar o balde, quando uma mão segurou meu ombro com força e me puxou. Aquela coisa era feita de pedra e resfolegava como uma locomotiva a vapor, tinha vários furos no corpo, mãos e cabeça, por onde saiam vapores.

Tentei empurrá-lo, mas ele não me soltava. Empurrei com mais força e ele caiu no chão. Voltei para o poço e atirei o balde na água. Puxei com cuidado e quando ia beber, aquela aberração de pedra, veio para cima de mim novamente. Estava decido a não me deixar tomar a água. Parecia uma espécie de guardião. Seus esforços eram para pegar o balde e não contra mim. Após alguns minutos se engalfinhando, acabei vencendo a peleja.

Levantei o balde segurando-o como se fosse uma taça, e tomei toda a água.
Olhei triunfante para o boneco de pedra, que neste momento, estava se levantando. Ficou de pé em minha frente, e sem qualquer aviso, se desfez em poeira.

Meus pés estavam ficando duros. Olhei para minhas mãos e acontecia a mesma coisa, com buracos por onde vazavam vapores. Eu estava me transformando na criatura que acabei de derrotar. Uma criatura de pedra.

Envolta do poço, havia uma inscrição. "Avise, cuidado com a ág...". Não estava terminada.
É minha tarefa agora, avisar qualquer aventureiro que venha aqui. Nem que leve uma eternidade.

Fim
Jack Sawyer ;D

JACK SAWYER

JACK SAWYER



Sou paulista da capital, nasci em São Paulo em 1971, vim para Miracatu em 1980, por causa do trabalho do meu pai.

Estudei na escola de Pedro Barros, no Armando Gonçalves em Miracatu e me formei em Matemática pela faculdade de Registro.

Sempre gostei de ler, e tudo isso começou quando eu morava em São Paulo. Uma vizinha me deu um livro de crônicas chamado “Para gostar de ler”, daí em diante não parei mais.

Sou muito fã de ficção, suspense, terror (principalmente vampiros e lobisomens), fantasia épica e medieval.

Meus autores preferidos são Robin Cook, Stephen King, Clive Cussler, Julio Verne e recentemente André Vianco e J.Modesto (ambos brasileiros). Comecei a escrever em fevereiro de 2008, quando entrei em um grupo de fãs do escritor Stephen King. Nesse contato mais próximo com as pessoas que gostavam do mesmo estilo que eu, fui incentivado a escrever, pois sempre tive vontade mas nunca consegui passar para o papel.

Nesse grupo sempre escrevem contos de várias mãos, por exemplo, um começa e outro participante vai dando continuidade até alguém colocar um final. Foi num desses contos que percebi que conseguia e daí em diante não parei mais. Criei um blog para postar os contos.


Atualmente sou bancário e nas horas vagas, escrevo.

Pedra de Fenraht

Madrugada nublada. Havia lua, mas devido ao clima, estava encoberta por nuvens finas.
Dois homens e uma mulher perseguem um outro homem pelas ruas da cidade. Iluminada pelas lâmpadas amarelas dos postes, vê-se apenas os vultos aqui e ali. Finalmente, o homem já cansado, entra em uma ruela com a intenção de despistar seus perseguidores e é frustrado com uma enorme parede fechando sua escapada. Era um beco sem saída.
Encurralado e no escuro, ele vê seus algozes chegarem na entrada do beco, onde havia claridade. Eles se aproximam da vítima. A mulher ao centro e os dois homens pelas laterais. O homem perseguido foi recuando até se ver sem saída. Encosta-se à parede e aguarda. Observa a mulher que se aproxima, aproveitando que a lua revolve aparecer e a ilumina. Tinha um corpo esguio e usava uma máscara. Mantinha os cabelos compridos amarrados em um rabo de cavalo. Parecia ser a líder do grupo. Os outros dois eram fortes com aparência truculenta.Aproximaram-se do homem, acuando-o cada vez mais, até que, quando estava bem próxima dele, ela o atacou.
000
Eu estava voltando da balada, de madrugada, e ao passar pelo beco, vi o movimento.
A principio, achei que era um assalto, como tantos outros que haviam acontecido ali. Mas fiquei curioso. Escondi-me atrás de uns sacos de lixo, acumulados na entrada do beco, e fiquei observando.
Eram três, e o do centro, parecia, pelas formas, ser uma mulher. Eles haviam acuado um homem no beco. Parecia mais uma intimidação, pois ninguém portava arma. Assumiam uma postura de ataque, com os corpos levemente curvados, as pernas afastadas e os braços afastados do corpo, tal qual um urso preste a atacar. Não usavam luvas, e nas mãos pareciam... não, não pode ser, mas pareciam... garras.
De repente, a líder saca uma espada curta, de aproximadamente uns 30 cm, e enfia na barriga do sujeito, na altura do umbigo, e vai subindo, numa forma de ritual de morte, até a altura do peito.
000
Estava tão concentrado na cena que me assustei quando um rato passou por cima da minha mão.
No apavoramento derrubei um saco de lixo e praguejei baixinho o meu descuido. Instantaneamente os três olharam na direção da entrada do beco. Fiquei bem quieto, achando que eles voltariam a se concentrar na vítima, quando a líder disse quase rosnando.
- O que estão esperando? Vão ver o que foi isso.
Os dois brutamontes vieram na minha direção, com extrema agilidade. Saí correndo tentando tomar uma dianteira deles, mas eles eram rápidos. Comecei a entrar em vários terrenos, pulando cercas e grades para ver se atrasava um pouco o avanço deles, mas creio que os subestimei, pois apesar de grandes, eles faziam os mesmos movimentos e melhores.
Consegui subir em cima da laje de uma casa e fui passando de casa em casa, até que cheguei em um espaço vazio.
“Mas que droga, tinha que ter uma piscina aqui?”.
Quando olhei para traz, o sol já estava quase nascendo e os dois quase me alcançando. Sem pensar, atirei-me na piscina.
Se tivesse olhado, teria visto que um deles, ao perceber a claridade do alvorecer, pulou no vão entre duas casas e se escondeu embaixo dela. O segundo estava no meio da laje, quando percebeu o que estava acontecendo. Já era tarde de mais, a luz do astro rei o atingiu em cheio. Sem ter onde se esconder, virou cinzas no mesmo instante, vaporizando-se. Suas cinzas se espalharam pela piscina, levada pela brisa da manhã.
ooo
Algum vizinho curioso ouviu o grito desesperado na madrugada e chamou a policia, através do disk-denúncia.
Os investigadores começaram a analisar a cena do crime, coletando evidencias e entrevistando testemunhas, até conseguirem um retrato falado de uma pessoa, que saiu correndo do beco.
ooo
Saí da piscina, com as roupas pesadas e pulei o muro do terreno, caindo do outro lado, todo desajeitado e ofegante. Quando me virei para conferir meus perseguidores, reparei que tinha sumido.
Resolvi sair o mais rápido possível daquele terreno, antes que alguém começasse a achar ruim. Não tinha outra forma de sair do terreno sem passar em frente das enormes janelas. Tinha um menino assistindo desenho na sala, nem ia perceber eu passando. De repente, ele me olha e fica me encarando. Sem mais nem menos, ele dá um grito, chamando a mãe.
- Manheeeeeeee. O homem da televisão ta aqui na janela da sala.
Sem entender o que o menino quis dizer, fiquei olhando a tv. A policia estava veiculando um retrato falado do assassino do beco, com um numero de telefone logo abaixo. Era o meu retrato.
Eles estavam pensando que eu era o culpado pela execução no beco.
Percebi que não era seguro ficar à vista. Saí daquele terreno e fiquei andando pelos cantos, desviando de ruas muito movimentadas.
Já era tarde quando vi uma viatura se aproximando e entrei em uma livraria para me esconder.
O policial passou com a viatura, olhando para a livraria. Deu um cutucão no parceiro, mostrando o retrato falado e, em seguida, deu meia volta, parando em frente ao estabelecimento.
Do outro lado da rua, olhos amarelos acompanhavam tudo.
ooo
Um dos policiais entra na livraria, enquanto o outro fica no carro, passando a situação pelo radio.
A livraria não é muito grande, o policial logo me vê e vem na minha direção. Tentei escapar, mas vi, pela vidraça, o brutamontes do beco atravessando a rua e vindo na direção da livraria. Em vista das possibilidades de sucesso, achei mais vantagem ir com o policial. Quando vi o policial se aproximando, me ajoelhei e coloquei as mãos na nuca, demonstrando com esse gesto, que não iria resistir.
Os clientes haviam se afastado, pois o policial se aproximava com arma em punho, dando voz de prisão.
ooo
O policial do carro estava falando no rádio e atento a ação na livraria. Quando desligou o rádio percebeu um movimento à sua esquerda, do lado de fora. Um homem grande e forte com aproximadamente 1,80 cm se aproximava da viatura, as mãos para fora dos bolsos, não aparentava representar perigo. Calmamente, com a mão direita, o policial destravou a capa do coldre.
O individuo chegou bem perto da viatura e se abaixou, para ficar na mesma altura que o policial dentro do carro.
- Pois não cidadão? Em que posso ajudá-lo?
- No momento, preciso de uma “forcinha”. – e sem nenhum aviso, colocou a mão no ombro do policial, segurando firmemente.
O policial tentou se libertar, mas a mão do sujeito o prendeu como garra, entrando em sua carne através do uniforme, e do colete à prova de balas.
Aos poucos o policial começou a parar de se debater. Seus cabelos começaram a ficar brancos e sua pele enrugada. Estava envelhecendo enquanto sua força vital estava sendo drenada, ao tempo que o sujeito ia assumindo as feições do policial, seus olhos assumindo um amarelo mais intenso. Ao final, a cabeça do policial, já morto, pende para frente, pressionando a buzina por um tempo, até se transformar em pó, sobre o banco da viatura. Enquanto isso o metamorfo se dirige para a livraria.
ooo
Dentro da livraria, o policial ouve a buzina sendo acionada, e fica indeciso entre render o prisioneiro ou ajudar o parceiro. O som pára de repente e ele volta sua atenção para o prisioneiro, quando seu parceiro entra na livraria.
- O que foi aquilo Nestor?
- Nada.
Sem aviso, o metamorfo segura o policial pelo pescoço com apenas uma das mãos e o ergue do chão. Com o movimento do braço e fazendo pressão com o polegar, o metamorfo quebra o pescoço do policial e o solta no chão. O homem cai como um boneco, todo torto, em posições antinaturais.
Quando ele veio na minha direção, fiquei apavorado. Se ele fez isso com um policial treinado, imagine comigo.
Conforme ele se aproximava, meu peito começava a queimar. Abri a camisa e puxei para fora o colar que meu avô tinha me dado. Era uma corrente fina com uma pequena pedra vermelha pendurada. Ela pulsava como se tivesse vida própria.
Ao avistar a pedra na minha mão, o metamorfo cessou o avanço. Parecia temer a pedra, ou admirá-la.
Conforme eu apontava a pedra para ele, a intensidade do brilho aumentava, e ele recuava ainda mais.
Comecei a ter uma ponta de esperança, coloquei a pedra na sua frente, e tomando coragem, comecei a avançar em sua direção.
Enquanto eu ia chegando mais perto, o rosto dele ia mudando de forma, acredito que eram todas as identidades que ele assumiu.
A criatura foi se afastando até ficar encurralada. Segurei bem firme a pedra e coloquei bem perto da criatura. A pedra vibrava na minha mão e estava muito quente. De repente, o metamorfo, começou a ficar disforme, tomando a forma de pequeno ciclone e vindo na direção da gema, em uma espiral nebulosa, sugada por um feixe de luz vermelha emitida pela pedra. Finalmente o raio de luz se recolhe, tragando o metamorfo para dentro dela, para dentro da pedra, que volta a ficar fria e sem vida.
Resolvi sair dali rápido. Os dois policiais, provavelmente já pediram reforço, e não seria inteligente permanecer no local, com dois policiais mortos.
Meu plano foi por água abaixo, quando vi parada na porta a mulher que executou o cara do beco. Ainda estava vestida toda de preto e tinha na sua mão direita a espada.
Olhava-me com raiva. As unhas de sua mão esquerda se alongaram, parecendo garras. Estava curvada para frente com as pernas levemente abertas, em posição de ataque. Pequenas presas, alvas e pontiagudas, brotaram de sua boca.
A intenção era clara, me matar. Eliminar o único elo da corrente de eventos que a ligava ao assassinato.
Tentei usar a mesma tática que havia usado contra o metamorfo. Apontei a pedra para ela, mas nada aconteceu, havia algo errado. Percebi um leve sorriso em seu rosto. A pedra estava sem vida, não tinha mais aquele brilho rubro e intenso. Meu avô disse que a pedra de “Fenraht” era um forte amuleto, mas eu nunca imaginei contra o que ela deveria me proteger.
- Essa pedra não tem o mesmo efeito sobre mim, garoto.
Com um sorriso amarelo, perdendo a confiança, comecei a me afastar, ainda com a pedra na mão, com a esperança de que de repente, ela voltasse a funcionar.
Sem aviso algum, e com a agilidade de um gato, ela saltou sobre mim, com a espada em punho.
Eu caí sentado, com os dois braços cruzados sobre o rosto, tentando instintivamente me proteger do derradeiro golpe, desejando apenas que nada daquilo estivesse acontecendo.
Automaticamente, a pedra começou a brilhar. Um brilho diference, verde que aumentou de intensidade, envolvendo nós dois. Tudo parecia em câmera lenta.
ooo
Eu estava voltando da balada, de madrugada, e ao passar pelo beco, vi o movimento. Imaginei que fosse mais um assalto. Peguei meu celular e liguei para a policia e dei meia volta, escolhendo outro caminho. Estranhamente, a jóia que eu carregava pendurada no pescoço, sem que eu percebesse, foi aos poucos perdendo o brilho.

Fim

Obs. 3º lugar no concurso de contos do Overlook Hotel.

Unidade

- Protejam a rainha – gritou um dos guardas.
- Primeira infantaria, ao centro. Segunda
infantaria se divida e ataque pelos flancos ao meu sinal.
– cada destacamento contendo dois mil elementos, se posicionara, munidos de lanças e escudos.
O general continuava a gritar as ordens.
- Esquadrão alado, voe por traz das linhas inimigas e tentem conter o avanço.
Imediatamente, mil elementos montados em magníficas criaturas aladas, alçam vôo, com alforjes contendo pedras, algumas afiadas ou pontiagudas.
No ar, o esquadrão alado se divide em dois, com fileiras de 10x50 cada, uma pela frente e outra por traz. Quando se cruzam no ar, provocam uma verdadeira chuva de pedras, que quando não matam, pelo menos tonteiam o inimigo.
A comando do general a primeira infantaria avança, estocando com lanças os que ainda insistem no ataque. Enquanto isso, a segunda infantaria vai terminando o serviço do esquadrão alado.
Ao chamado do general, os soldados voltam para reagrupar a formação.
Um grupo de manutenção é convocado para os reparos no castelo e cobrir os buracos na muralha.
A guarda pessoal da rainha, a desloca para um lugar seguro no castelo, onde só pode ser atingida se a fortaleza inteira for destruída. Ao final da breve batalha, os curandeiros, auxiliares e voluntários, recolhem os feridos e os mortos.

É meu amigo. É sempre assim, quando um formigueiro é atacado.