Através dos encantos da visão, com a lente fixa aos intentos que me cerca, tenho movido corações pra um olhar sublime e terno diante das imagens cintilantes captadas por uma pessoa que vive a chorar em meio às tempestades que tentam naufragar este poeta sonhador...
Não sei até quando o coração deste sonhador vai agüentar bater forte no peito aflito e angustiado pelas marcas do tempo. Contudo, procuro me abster das magoas deixadas num rastro sem igual e caminharei como um vencedor por ter chegado até aqui, mesmo que com cicatrizes perpétuas.
Magoas que está sempre a porta querendo adentrar e fazer seu ninho eterno em um coração que luta com todas as forças pra não ser engolido pelo mundo da desigualdade. Vivo talvez pela poesia não escrita que vem direto das alturas em forma de alento pra uma alma cansada e muitas vezes irritada com tantas pisadas por um mundo desigual e mesquinho.
Oh!!! minha alma, até quando viverás este martírio dentro de si por não encontrar a esperança que tanto espera... até quando viverás o drama de uma mente perplexa pelas feridas causadas pela vida errante que tens vivido. Tu que desejas viver uma vida de alegrias... encontra-se a mercê das lágrimas que vivem a rolar dos olhos de quem sempre acredita no melhor. Tu que deitas nas noites intermináveis e levantas pelas manhãs sempre na espera de um novo dia radiante de felicidade, mas de repente as mesmas frustrações de anos de buscas não alcançadas tendem a bater a porta do coração dizendo que tudo não passa de uma mera ilusão. Tu que não consegues entender o porquê de tantas surras, já que procuras levar apenas aos corações paz, amor, alegria, e desejas com todo ímpeto a justiça aos injustiçados. Não entende tudo isto? Mas uma coisa é certa, oh minha alma!!!
A alegria chegará e fará de ti regozijos de quem sempre lutou por esperar o grande dia... por mais que o inimigo lhe diga ser uma utopia, Deus lhe diz, ser real e verdadeiro. E este grande dia já está às portas... Chegou o momento que todas as armas do inimigo estão a cair por terra e a vitória para ti é certa, e todo o teu choro se converterá em bonança e muitas felicidades por ter passado o inverno álgido no calabouço assombroso de teu cérebro febril.
Deus é fiel !!!
Luiz Marco
Na escuridão do pensamento
Na escuridão do meu cérebro febril;
trago lembranças sórdidas do meu viver
quão a uma criança indefesa aos infortúnios.
A cobardia invadia minha alma,
tentando roubar-me o mais precioso;
o intelecto da vida humana.
Sinto através do tempo a maldade tentando
Arrancar de minhas entranhas
o perfume suave do amor.
Mas, esta essência do amor,
tem esquadrinhado o meu ser,
tornando-me capaz de viver sempre o impossível.
Vi-me fisicamente acorrentado no calabouço espantoso,
nos esgotos e na lama que a vida me conduziu,
anestesiado pelos icebergs na alma.
Mas com a certeza de um lindo raio de sol aquecer-me.
Quando criança, um mal trapilho,
pé descalço no chão de barro.
Queimado do sol abrasador,
rastelando folhas secas pelo chão,
ou cortando lenha com machado,
para o jantar a luz de velas.
Às vezes vivendo por viver,
mas no agente da alma,
uma esperança no porvir.
A vida me proporcionaria muitas intempéries.
Mas a chama do querer inundou meu coração
com grandes realizações, trazendo-me o
luminoso sol da justiça sobre minha existência.
Sei que havia dois caminhos para uma escolha,
por motivos da infelicidade; mas Deus brioso e Santo,
proferiu evidências ao amor.
Trazendo o bálsamo da ternura sobre minha alma cansada.
Hoje a emoção faz parte de minha vivência,
tenho compreendido o verdadeiro sentido de viver,
sonhar, superar os traumas das noites sombrias,
sob um luar dourado no lacrimejar de minha alma.
Hoje deslumbro como herói, os marasmos vividos
em minha infância e juventude.
Tenho galgado com amor, coragem e determinação
Todos os acabrunhamentos nesta rica história de vida.
Porfiarei para sempre este amor intenso que me faz feliz.
Querer é poder!...
Luiz Marco
trago lembranças sórdidas do meu viver
quão a uma criança indefesa aos infortúnios.
A cobardia invadia minha alma,
tentando roubar-me o mais precioso;
o intelecto da vida humana.
Sinto através do tempo a maldade tentando
Arrancar de minhas entranhas
o perfume suave do amor.
Mas, esta essência do amor,
tem esquadrinhado o meu ser,
tornando-me capaz de viver sempre o impossível.
Vi-me fisicamente acorrentado no calabouço espantoso,
nos esgotos e na lama que a vida me conduziu,
anestesiado pelos icebergs na alma.
Mas com a certeza de um lindo raio de sol aquecer-me.
Quando criança, um mal trapilho,
pé descalço no chão de barro.
Queimado do sol abrasador,
rastelando folhas secas pelo chão,
ou cortando lenha com machado,
para o jantar a luz de velas.
Às vezes vivendo por viver,
mas no agente da alma,
uma esperança no porvir.
A vida me proporcionaria muitas intempéries.
Mas a chama do querer inundou meu coração
com grandes realizações, trazendo-me o
luminoso sol da justiça sobre minha existência.
Sei que havia dois caminhos para uma escolha,
por motivos da infelicidade; mas Deus brioso e Santo,
proferiu evidências ao amor.
Trazendo o bálsamo da ternura sobre minha alma cansada.
Hoje a emoção faz parte de minha vivência,
tenho compreendido o verdadeiro sentido de viver,
sonhar, superar os traumas das noites sombrias,
sob um luar dourado no lacrimejar de minha alma.
Hoje deslumbro como herói, os marasmos vividos
em minha infância e juventude.
Tenho galgado com amor, coragem e determinação
Todos os acabrunhamentos nesta rica história de vida.
Porfiarei para sempre este amor intenso que me faz feliz.
Querer é poder!...
Luiz Marco
IMAGENS DO "1º ENCONTRO LITERÁRIO REGIONAL"
FOTO DE TODO GRUPO
FOTO DE TODO GRUPO
FOTO DE TODO GRUPO
FOTO DE TODO GRUPO
ROBERTO FORTES(IGUAPE) E LUIS PASSOS(CAJATI)
OSVALDO MATSUDA ( MIRACATU)
BANCADA COM PRODUÇÕES DOS ESCRITORES
JEHOVAL JUNIOR (MIRACATU)FOTOS DE LUIS MARCO
O Pássaro Encantado
Linda manhã de sexta-feira Santa, festa cristã de muita importância. Dia que Nosso Senhor morreu para resgatar a humanidade pecadora. Dia de ficar em casa, de ir à Igreja, à procissão, dia de rezar.
O céu, azul de brigadeiro, riscado vez ou outra pelas frenéticas andorinhas, em contraste (ou em complemento?) com o verde azulado do morro do Pitione, resumiam em grande estilo o cenário paradisíaco.
Como sempre fazia em dias desse tipo, Nelson, abrindo a janela de seus aposentos no velho sobrado da Tia Eunice, de fronte ao rio Ribeira, diz para si: - Que dia para uma boa caçada!
A caminho da padaria do Seu Romeu, a barriga rosnando feito um cachorro de agosto, encontra o amigo Zeca, companheiro de pescarias e caçadas: - Dia, Zeca. Vamos pro Pitione caçar uns macucos? Que o que! Zeca, católico fervoroso, balançando a cabeça para ressaltar a importância de suas palavras: - De jeito maneira! Hoje é sexta-feira santa. Nada se pode matar. É pecado grave... Anos de purgatório...
Nelson, que nunca fora tão temente das normas religiosas, nem insistiu. Já na padaria, a fome lhe incomodando as entranhas, fez seu pedido: - Dia, Seu Romeu. Me veja um pingado, um bolo de roda pra agora e mais dois pro almoço. Também metade de uma coruja, uma bengala e duzentas gramas de mortadela da boa. Hoje vou almoçar no mato, entre um tirinho e outro. Pelo menos na janta, como melhor. Hoje, tá com jeito da caçada ser das boas...
Seu Romeu, arregalando os olhos: - Caçada? Hoje? Dia da morte de Cristo, nosso Senhor? Não pode, seu Nerso. É contra as leis da Santa Igreja. Dá um azar danado!
Nelson, já meio cabreiro, mas com muito mais teimosia do que ponderação, tomou de suas coisas e partiu de volta à pensão.
Conferindo a munição, a Winchester 22 desmontada na mochila de lona verde, da cor do mato, os pios de madeira pra chamar a bicharada, o cantil de alumínio que conservava a água fresca por horas, o limão vermelho pra gotejar na água e matar a sede de verdade... tudo em ordem.
Na saída, Dona Eunice, vendo o soldado partindo para a guerra tão disposto, indagou: - Isso não é roupa de ir à Casa de Deus, Nelson. O Senhor Jesus merece mais respeito. Se arrume direito, homem. Ponha o terno que passei ontem à noite e a calça de linho cinza. E engraxe os sapatos também. Tire essas botas fedorentas... - Não vou pra igreja, Dona Eunice, cortou o Nelson já impaciente. Vou pro mato buscar um bom nambu ou macuco pra comermos na janta. Quando tinha fome, o senhor Jesus também comia. E só não ia caçar macuco porque não tinha uma Winchester igual a minha... E lá se foi, o caçador, pros rumos da ponte para atravessar o Ribeira e se embrenhar na mataria. Dona Eunice nem disse palavra, apenas benzeu-se com o sinal da cruz três vezes o voltou-se para seus afazeres, indignada.
O céu, azul de brigadeiro, riscado vez ou outra pelas frenéticas andorinhas, em contraste (ou em complemento?) com o verde azulado do morro do Pitione, resumiam em grande estilo o cenário paradisíaco.
Como sempre fazia em dias desse tipo, Nelson, abrindo a janela de seus aposentos no velho sobrado da Tia Eunice, de fronte ao rio Ribeira, diz para si: - Que dia para uma boa caçada!
A caminho da padaria do Seu Romeu, a barriga rosnando feito um cachorro de agosto, encontra o amigo Zeca, companheiro de pescarias e caçadas: - Dia, Zeca. Vamos pro Pitione caçar uns macucos? Que o que! Zeca, católico fervoroso, balançando a cabeça para ressaltar a importância de suas palavras: - De jeito maneira! Hoje é sexta-feira santa. Nada se pode matar. É pecado grave... Anos de purgatório...
Nelson, que nunca fora tão temente das normas religiosas, nem insistiu. Já na padaria, a fome lhe incomodando as entranhas, fez seu pedido: - Dia, Seu Romeu. Me veja um pingado, um bolo de roda pra agora e mais dois pro almoço. Também metade de uma coruja, uma bengala e duzentas gramas de mortadela da boa. Hoje vou almoçar no mato, entre um tirinho e outro. Pelo menos na janta, como melhor. Hoje, tá com jeito da caçada ser das boas...
Seu Romeu, arregalando os olhos: - Caçada? Hoje? Dia da morte de Cristo, nosso Senhor? Não pode, seu Nerso. É contra as leis da Santa Igreja. Dá um azar danado!
Nelson, já meio cabreiro, mas com muito mais teimosia do que ponderação, tomou de suas coisas e partiu de volta à pensão.
Conferindo a munição, a Winchester 22 desmontada na mochila de lona verde, da cor do mato, os pios de madeira pra chamar a bicharada, o cantil de alumínio que conservava a água fresca por horas, o limão vermelho pra gotejar na água e matar a sede de verdade... tudo em ordem.
Na saída, Dona Eunice, vendo o soldado partindo para a guerra tão disposto, indagou: - Isso não é roupa de ir à Casa de Deus, Nelson. O Senhor Jesus merece mais respeito. Se arrume direito, homem. Ponha o terno que passei ontem à noite e a calça de linho cinza. E engraxe os sapatos também. Tire essas botas fedorentas... - Não vou pra igreja, Dona Eunice, cortou o Nelson já impaciente. Vou pro mato buscar um bom nambu ou macuco pra comermos na janta. Quando tinha fome, o senhor Jesus também comia. E só não ia caçar macuco porque não tinha uma Winchester igual a minha... E lá se foi, o caçador, pros rumos da ponte para atravessar o Ribeira e se embrenhar na mataria. Dona Eunice nem disse palavra, apenas benzeu-se com o sinal da cruz três vezes o voltou-se para seus afazeres, indignada.
O cheiro do mato fazia bem. Era como um perfume para Nelson. Quanto mais se distanciava da cidade mais em casa se sentia. Na estradinha da antiga usina, a caminhada rendia. Passo a passo a montanha azulada passava a um verde profundo, vez ou outra, salpicado de outros tons, revelando a diversidade de árvores da floresta. Com a distância cada vez maior da cidade um silêncio incomum foi cercando o caçador que estava acostumado a trocar os barulhos urbanos pelos sons da natureza.
No interior da mata, à sombra fechada dos garacuís, das perobas, dos arapassus, das imensas figueiras, andava camuflado, sem produzir ruído algum. Os pés, protegidos pelas insubstituíveis Verlon, como os de um felino, acariciavam o chão de folhas e gravetos secos. Nada se ouvia. Nada mesmo. Cadê a bicharada? Nem borboleta voava. Nem pernilongo, mutuca ou borrachudo. Atravessando um riachinho pedregoso, onde aproveitou para banhar o rosto e a cabeça e abastecer o velho cantil, também não viu nada. É comum nesses riachinhos achar pitus, barrigudinhos ou girinos. Mas, estranhamente nada se movia nem na água, nem na terra e nem no céu.
Por vários quilômetros de silenciosa caminhada, nada se viu. Em toda sua vida de mil e uma caçadas, jamais o Pitione, com sua mata exuberante, deixou que voltasse pra casa sem um inhambu, alguns macucos, urus ou jacus. Até bichos de porte eram abundantes como macacos, veados, antas, jaguatiricas e toda a rica fauna da mata atlântica.
Já se ia pelas tantas da tarde. Os bolos de roda e a coruja, ingeridos e digeridos, não mais ocupavam espaço na mochila que permanecia vazia.
Em outro córrego, agachado a espremer o último limão no cantil, o silêncio é enfim quebrado. Um alvoroço de asas no topo de uma guaricica bem copada lhe chamou a atenção. Lentamente virou-se a buscar com os olhos atentos a posição do bicho. Que maravilha! Mas, que pássaro é aquele?! - pensou consigo. Em tantos anos de mato nunca havia visto nada parecido. Do porte de um gavião-índio, mas de plumagem branca, imaculada. Pousado na galharia, como a se mostrar de propósito, com o peito estufado e a cabeça bem erguida.
Nelson, por instantes, ficou a admirar a ave rara que mais parecia a visagem de um anjo de tão grande brancura e tamanho. Não voltaria de mãos abanando, de mochila murcha, de Winchester fria. Posicionou-se para o disparo, disfarçado de folhagem a menos de quinze metros; os olhos fixos, a mão esquerda firme a sustentar a arma; a mira no peito desafiante, o dedo no gatilho esperando a ordem superior... Paaaahhh! Em meio à fumaça os olhos surpresos ainda fitavam o animal que fez um leve movimento de cabeça, parecido com um "não". E não mesmo; não errava um tiro daquele. Impossível. E por que o bicho não voou? Por que ainda estava lá a lhe provocar a ira? Manejou com destreza a arma e engatilhou outra bala... Paaaahhh! Inacreditável. Agora a ave, a lhe zombar, abre as asas, esticando ao extremo uma e depois a outra, a espreguiçar-se. Mais uma manobra e... Paaaahhh!
A ave então, para provar-lhe ser de verdade, lança de vôo, despencando em sua direção e, como um caça (e não uma caça), quase lhe toca o chapéu numa rasante, pousando em seguida num imenso jataizeiro. Agora de costas, o pássaro abre novamente as asas e assim permanece formando, contra a luz, o desenho de uma cruz, como a que sustentou nosso Senhor Jesus Cristo na sexta-feira da paixão. Seu Mido, de vidro riscado por tantas quedas, e pulseira vermelha para nunca ser perdido, avisou-lhe às horas: três da tarde, pontualmente.
Jogando a mochila nas costas com a espingarda já desmontada a preencher-lhe o farto espaço, Nelson garrou o rumo da cidade...
- Ainda dá tempo de pegar a Missa das seis!
No interior da mata, à sombra fechada dos garacuís, das perobas, dos arapassus, das imensas figueiras, andava camuflado, sem produzir ruído algum. Os pés, protegidos pelas insubstituíveis Verlon, como os de um felino, acariciavam o chão de folhas e gravetos secos. Nada se ouvia. Nada mesmo. Cadê a bicharada? Nem borboleta voava. Nem pernilongo, mutuca ou borrachudo. Atravessando um riachinho pedregoso, onde aproveitou para banhar o rosto e a cabeça e abastecer o velho cantil, também não viu nada. É comum nesses riachinhos achar pitus, barrigudinhos ou girinos. Mas, estranhamente nada se movia nem na água, nem na terra e nem no céu.
Por vários quilômetros de silenciosa caminhada, nada se viu. Em toda sua vida de mil e uma caçadas, jamais o Pitione, com sua mata exuberante, deixou que voltasse pra casa sem um inhambu, alguns macucos, urus ou jacus. Até bichos de porte eram abundantes como macacos, veados, antas, jaguatiricas e toda a rica fauna da mata atlântica.
Já se ia pelas tantas da tarde. Os bolos de roda e a coruja, ingeridos e digeridos, não mais ocupavam espaço na mochila que permanecia vazia.
Em outro córrego, agachado a espremer o último limão no cantil, o silêncio é enfim quebrado. Um alvoroço de asas no topo de uma guaricica bem copada lhe chamou a atenção. Lentamente virou-se a buscar com os olhos atentos a posição do bicho. Que maravilha! Mas, que pássaro é aquele?! - pensou consigo. Em tantos anos de mato nunca havia visto nada parecido. Do porte de um gavião-índio, mas de plumagem branca, imaculada. Pousado na galharia, como a se mostrar de propósito, com o peito estufado e a cabeça bem erguida.
Nelson, por instantes, ficou a admirar a ave rara que mais parecia a visagem de um anjo de tão grande brancura e tamanho. Não voltaria de mãos abanando, de mochila murcha, de Winchester fria. Posicionou-se para o disparo, disfarçado de folhagem a menos de quinze metros; os olhos fixos, a mão esquerda firme a sustentar a arma; a mira no peito desafiante, o dedo no gatilho esperando a ordem superior... Paaaahhh! Em meio à fumaça os olhos surpresos ainda fitavam o animal que fez um leve movimento de cabeça, parecido com um "não". E não mesmo; não errava um tiro daquele. Impossível. E por que o bicho não voou? Por que ainda estava lá a lhe provocar a ira? Manejou com destreza a arma e engatilhou outra bala... Paaaahhh! Inacreditável. Agora a ave, a lhe zombar, abre as asas, esticando ao extremo uma e depois a outra, a espreguiçar-se. Mais uma manobra e... Paaaahhh!
A ave então, para provar-lhe ser de verdade, lança de vôo, despencando em sua direção e, como um caça (e não uma caça), quase lhe toca o chapéu numa rasante, pousando em seguida num imenso jataizeiro. Agora de costas, o pássaro abre novamente as asas e assim permanece formando, contra a luz, o desenho de uma cruz, como a que sustentou nosso Senhor Jesus Cristo na sexta-feira da paixão. Seu Mido, de vidro riscado por tantas quedas, e pulseira vermelha para nunca ser perdido, avisou-lhe às horas: três da tarde, pontualmente.
Jogando a mochila nas costas com a espingarda já desmontada a preencher-lhe o farto espaço, Nelson garrou o rumo da cidade...
- Ainda dá tempo de pegar a Missa das seis!
Lélis Ribeiro
Fim.
Fim.
DONA COTINHA
DONA COTINHA
Dona Cotinha melhor idade, exímia dançarina, única vencedora consecutiva da maratona “Calo de ouro”, um evento dançante promovido anualmente pelo clube Seupimpa, onde a vencedora ganha um fim de semana com direito a acompanhante no famoso resort “Adios Mutuca’s” na Barra do Ribeira, estava eufórica, acabara de conhecer Benedito e foi amor a primeira pisada no pé... Estavam dançando.
Paixonite na terceira idade é igual remédio milagroso, cura reumatismo, pressão alta, enxaquecas, nervo ciático, em fim qualquer dodói que possa infernizar a vida de quem já está para lá da Ilha Comprida, ou seja, no fim da picada, ou como se diz, na melhor idade.
Foi bailando que ela apaixonou-se. Benedito era um dançarino nato, um pé de valsa caiçara e naquela noite estava inspirado, não deu sossego à dona Cotinha e ela deslumbrada esquecia as dores na coluna e dançava e dançava.
Que homem o tal Benedito, muito jovem, alto, moreno, bem apessoado... Um tanto calado é verdade, mas para amar não há necessidade de muito converse, por vezes é até melhor ficar calado do que só falar bobagens. Dona Cotinha estava nas nuvens, digo dançando e pensava lá com suas sandálias de prata:- Quero esse homem prá chamar de meu!... E deu inicio a paquera:- Meu nome é Maria das Dores, apelido Cotinha, além de dançar muito bem, cozinho, lavo e passo...
- É! Disse Benedito com ar distante...
- Sim! Também arrumo muito bem uma casa, tomo dois banhos por dia, faço um excelente casadinho de manjuba, tainha na telha, na folha da banana, no forno...
- É!...Realmente Benedito não era de muita conversa, mas Cotinha não se deu por vencida...
- Sou aposentada, ganho muito bem, o falecido era pescador e meus filhos estão todos casados... Moro sozinha.
- É!...Não disse que Benedito era muito calado!
- São quase quatro horas da manhã, estamos dançando desde a meia noite, horário em que você entrou no clube, não poderíamos continuar nossa agradável conversa em outro local?
- Pode ser no meu barco?
- Noooossa! Você tem um barco? Vamos sim... Há quanto tempo não entro num barco...
- Vamos?
Quatro e meia da madrugada... Um barco ancorado entre a passarela e o antigo porto da balsa... Cotinha de mãos dadas com Benedito... A beira do valo completamente deserta... Neblina. Quanto mais se aproximavam do velho barco, mais Cotinha se arrepiava de frio. Pararam... O barco estava solto e flutuava a uns três metros da margem. Cotinha tremia... Alguma coisa estava errada:- Benedito! Agora que notei... Você não me é estranho.
- Claro que não Maria das Dores! Eu fui seu primeiro namorado... Benedito que há setenta anos morreu afogado.
João Carudo encontrou dona Cotinha desmaiada, eram seis horas da manhã de domingo e foi a ele que ela contou essa história que vai além da imaginação. Dona Cotinha nunca mais foi dançar no Seupimpa, agora é freqüentadora assídua da “Sandália de Cristal”, um local bem longe da água... Semana passada conheceu Alcino, um jovem caladão, com uma estranha marca vermelha ao redor do pescoço... Mora num sitio...
Gastão Ferreira
www.gastaodesouzaferreira.blogspot.com
UMA NOBRE VISITA

UMA NOBRE VISITA
A Princesa do Litoral passou novamente pela cidade. Dessa vez chegou de barco, o qual ancorou atrás do CITUR:- Meu Bonje!Josephus, que pobreza, veja os guarda carros municipais... Tão mal vestidos.
- Esses não são guarda carros Majestades! São mendigos que estão prestando um belo trabalho comunitário, protegem os veículos de assaltos e vandalismos...
- O quê? Já temos isso nessa cidade pacata!
- Ainda não! Mas os proprietários das conduções não sabem...
- Mas Josephus! Sujinhos assim não vão afastar os turistas?
- Que turista majestade? Faz um bom tempo que por aqui só aparece meia dúzia de gatos pingados...
- Meu Bonje! Onde foram parar os turistas?
- Por incrível que pareça em Cananéia...
- O quê? Foram para aquela cidadezinha onde dizem que nem o vento presta...
- Pois é! Ela está recebendo muitos turistas... Ruas limpas, bem arborizadas, segurança e bons preços...
- Você deve estar enganado! Vamos até a praça da matriz.
- Vamos devagar majestade... Aprecie o passeio... Não se canse... A senhora vai fazer 471 anos em dezembro...
- Veja Josephus! Você estava enganado, os hotéis estão lotados, tem pessoas dormindo até na calçada...
- São pedintes majestade! Toda a semana aparece mais alguns...
- Meu povo continua generoso, adora alimentar quem não gosta de pegar no pesado...
- Não fale tão alto majestade! Vá que ouçam e pensem que seja uma carapuça, vai sobrar para a senhora...
- Josephus! Meu coreto! Que aconteceu com meu amado coreto?
- Calma majestade! Para tudo existe uma explicação. Seu coreto foi destruído...
- Isso eu já reparei! Mas como? Caiu um raio encima?
- Não Majestade! Sua cidade agora faz parte do patrimônio histórico nacional...
- Oh! E o velho coreto não fazia parte da praça?
- Sim! Mas não pertencia ao período tombado...
- Mas Josephus! Os nomes na placa também não pertencem ao tal período... Olhe aquele nome ali... Eu conheço... Eu conheço.
- Majestade! Vai sobrar para mim... É melhor sairmos da praça...
- Nem pensar! Vou imediatamente me queixar ao Bonje e resolver esse problema...
- Majestade! Tenho uma péssima notícia a vos dar...
- Pior do que o fim do coreto? Pior do que esses sem tetos e sem banhos dormindo nas laterais do templo? Pior do que o lixo no lagamar? Pior do que a falta de turistas? Pior do que a falta de perspectiva que noto no rosto dos cidadãos? Pior do que essas velhas árvores peladas? Ora Josephus! Me poupe...
- Majestade! O Bonje foi embora...
- Oh! Não... Não... Não!
- Majestade! Majestade!... Desmaiou.
Gastão Ferreira
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