vazante

Vazante poema água

despedida com choro à noite

O seu rosto dissolvendo
Dia de chuva
Chuva a derreter os seus olhos
Despedida de quem nunca mais vai ser visto
Quantas palavras não foram ditas
Quantas lindas palavras poderiam ter sido ditas
Ficaram
Vestido azul
Sorriso branco
Claro como o dia
Sol nos olhos e no cabelo
Ondas em dia de sol bem claro
Árvores por entre olhos
À noite...despedida...soluços...

déco
Sete Barras

Terceira Ordem

esta ordem
esta é a ordem
o dia está para a chuva
estou antes da chuva
estou onde lá choveu
o choro no céu
para o mundo
céu quebrado
ser quebrado
Marlon feliz
um improviso
um free jazz
uma batucada
na casa do Nestor
dor no pé
Mal de Norton
pra que nomear?
toda dor é um mal
psique do role
forte
psique do role
amor livre
quase tudo pode fazer
um libertador nada fazer
vamos todos juntos
ir a passeio
força
forte café
não amo o dia
amo o dia
um pulsar
ou um impulso
força
plantar
enraizar
doce voar
obrigado de nada
a vida
a morte
pausa entre as palavras
eu ñ quero
estar forte
itálico
dor forte
negrito
voando forte
terceira ordem

EU LÍRICO, MIRACATU

Nasci pequenina beirando o rio
despertei sonolenta
entre a sombras das árvores
mosqueadas de sol.

Prainha repleta de encantos
Prainha repleta de vida
Prainha repleta de luz.

Deixe de ser o que era
para erguer-me volvendo à luta
força que há na terra,
humus que a flor encerra
sem espantos,sem assombros, sem medos.
Minha voz ainda úmida de orvalho
solta aos ventos, pela dormência dos ares:
sou terra que abriga
sou povo que trabalha!

Na imensidão do verde que me cerca
grandes ervas musáceas,
cujos os frutos se apresentam em cachos,
adocicam,ornamentam, abrilhantam
terra que ouro contém
ouro que o povo encanta.
palmo a palmo, a civilização
avança...
brotada em meu coração.
E como a fagulha que fende as nuvens
sem provocar trovões
renasço!

Miracatu repleta de encantos
Miracatu repleta de vida
Miracatu repleta de luz.

Poema da Antologia "Miracatu Nossa terra,
Nossa gente!
3ºConcurso Literário da Câmara Municipal de
Miracatu

Aline Regina dos Santos

Vó Joana

Vó Joana
O Tamargo
Está bem atrasado
Pro jantar.

Ficou no bar
Com os amigos
Bebendo
Cerveja gelada.
Barrigudo.

Estava deitado na rede
Tinha sede
Mas, foi beber
No mar.

Sonhava sozinho
Cantava Soul
Um dia
Saiu trôpego
Quis abraçar o mundo
E num segundo
Percebeu
Que era virtual
Love U2.

Bateu Ponto
Ficou Sisudo.
Os passos
Da menina
Ficaram no asfalto.
A chuva lavou.
Bem que Vó Joana
Alertou.

Miracatu, 18 de janeiro de 1998

(Poesia publicada no livro: PÓ DA TERRA - Osvaldo Matsuda)
Fazendo coro para a INCELENCIA PARA VELHA JOANA - Julio Costa

farofa de passarinho

wilha...
escuta esse nome
wilha...
se conta ninguém acredita que ele é índio
nem ele mesmo
wilha contô que num tem coisa mais gostosa que farofa de passarinho
e que era o que a vó dele, véinha, véinha, mais gostava
e que ela até aguava a boca só de lembrá
mais eu perguntei se ele não tinha dó de acabá com os passarinho não
uns bichinho piquinininho daquele
que panelada que dava?
aí ele perguntô se tinha boi se acabano? ou se tinha frango?
ou porco?... ou até soja?
E disse que gente e bicho num se separava não
Era tudo farinha do mesmo saco
E que acabá com um era acabá com o outro
E que não era todo dia que ela fazia farofa de passarinho não
E que em volta da casa da vó dele
Tinha quase tudo quanto é tipo de fruta e flor pra passarinho
E que ela passava a tarde toda ouvino a cantiguinha deles
E num dexava ninguém judiá deles não
E que uma das coisa mais bunita
Era vê a vó dele lembrá do gosto da farofa de passarinho
que a vó dela fazia, lá longe no passado dela
e que acabá com esse custume dela era a mesma coisa de acaba com ela
e só ela sabia e tinha tanta paciência
pra cuidá daquela plantaiada toda
Aí aquilo fico na minha cabeça
eu pensei que aquilo que ele falô era verdade
num era comê os bicho que fazia acabá com eles tudo não
e nem pará de cumê ia resolvê o pobrema.
E que o gosto da farofa de passarinho
Talvez fosse um dos último apego
que a vó do wilha tinha com o povo do passado lá dela
se tivesse mais mata pros bicho, eles até escapava.
Outro dia conversano com um vizinho meu
contei essa história pro seô Roberto
aí ele disse
que isso é coisa de gente atrasada
que hoje em dia carne a gente compra é no açougue
que farofa de passarinho não enche a barriga de ninguém não
aí eu perguntei a ele se ele num tinha dó da vó do wilha não
aí ele me perguntô se a vó do wilha num tinha dó dos bicho não?
aí eu perguntei a ele se não era os gado, as cana e as soja
que a gente vê na televisão
que acabava com os bicho tudo não
Aí ele perguntô se eu num gostava de churrasco e óleo de soja não
Que todo mundo dá opinião mas continua esperdiçano comida
Que se acaba com o restinho de bicho num vai te nem pra lembrança
Só nas foto e filme
Que hoje em dia tem que tê uma mentalidade pra frente

E aquilo ficô na minha cabeça
Eu pensei que aquilo que ele falô era verdade
E eu pensei que um churrasquinho era bem bão
E aquilo tudo fico na minha cabeça
Rodano...rodano
Aí eu me perguntei
como é que se fazia pra sair do meio dessa roda?

déco
Madrugada de 16-06-2009-06-17
Sete Barras

beijo à noite fria

chegou. Demorou, mas chegou.
O frio veio a semana passada
Dar certo com o frio pode ser um ponto de vista
O frio talha os sentimentos com mais rigor
No frio ele lembra dos amores que o inverno trouxe
No frio como com mais gosto a comida quente
No frio é bom dormir agarrado com ela debaixo das cobertas
No frio a serração parece contos de fadas saídos dos brejos frios
Por aqui não ouço falar de fadas
A serração deixa ver o sol às escondidas
O sol vai abrindo sutilmente a neblina
para acariciar o seu lindo corpo
à noite, beijos rodeados pelo vento frio
Rua deserta
Seu cheiro
Seu corpo quente
A noite fria aumenta os sentidos da pele
Seus lindos seios
Latidos
O vento frio
A sua boca
Noite fria
Janelas
O frio
Beijo
A noite
Seus lábios
Seu corpo
A noite fria...a noite fria...
Aqueço a noite fria com o calor do seu beijo
O calor do seu beijo...
Beijo a noite fria
com vento gelado aquecido pelo seu corpo
Aqueço a noite fria com o calor do seu beijo

déco
Sete Barras
09-06-2009
Às vezes penso que seria melhor
ter o cérebro na barriga
e o estomago na cabeça.


Comeria logo pela manhã
Algumas enciclopédias
Um chá de prosa pela tarde
e para acompanhar bolinhos de poesia


Teria em compensação
uma disenteria de palavras
e os pontos de exclamação
atordoando minhas tripas e de quebra
o intestino grosso.
_Com quantos parafusos soltos e rimas livres componho minha filosofia?
_E quantos pregos e porcas
eu fixo no punk minha gritaria?
_Não procure nos meus olhos respostas,
porque guardo num lugar que nem a chuva levaria
_Porque essa mesma chuva,
as calçadas e os pecados lavaria


Nesse diálogo ela chorava e ele sorria
E no tempo
parafusos, pregos e porcas enferrujariam?

O MAR DE ITAPITANGUI

A ENCHENTE

O rio enche.

De suas margens, a água transborda num furor endoidecido, levando tudo o que se encontra pela frente. No céu a chuva é uma só; há muitos dias que cai sem parar. Tantos meses de seca, tanta lavoura perdida, e agora, de repente, aparece esse mundo de água que não acaba mais. Vingança da natureza? Mas que mal o ribeirinho lhe fez, se sempre soube se utilizar dos seus recursos com sabedoria e parcimônia?

As últimas notícias dão conta que Ribeira-acima as coisas estão bem piores. Xiririca está sob as águas e todas as orações se voltam para a protetora Nossa Senhora da Guia, que em seu altar lança o olhar benevolente sobre a cidade como se para impedir que as águas flagelem ainda mais seus fiéis.

Na canoa, o ribeirinho vaga pelos espaços de seu pequeno domínio, posse herdada dos antepassados, tentando resgatar as criações poupadas pelas águas. No fundo da canoa, a mulher tem os olhos vermelhos, mas não verte uma lágrima; sabe que o esposo e os quatro filhos precisam dela firme e forte. Ele recolhe algumas galinhas e vê os corpos boiando na correnteza de seus porcos e bois; tudo perdido. Da plantação, só avista as pontas que balançam sob o caminhar furioso das águas. Nada restou, além dele e a família e aquele pouco de criação.

Em seus quarenta e tantos anos morando naquelas terras jamais vira tanto água junta. Verdade que o Ribeira sempre foi um rio caprichoso, protagonista de enchentes espetaculares. O avô lhe contara que, pelos idos de 1807, a Vila de Xiririca fora completamente destruída pelas águas e teve que ser transferida para o local atual. Notava as lágrimas que escorriam dos olhos marejados do velho quando ele narrava essa história.

Logo se desvia desses pensamentos e continua a remar sob a chuva que insiste em cair. Talvez vá para o abrigo da cidade, onde outros já se encontram há dias, longe de suas terras, distantes de suas casas destruídas e de suas mobílias levadas pelas águas.

Enquanto rema, olha desgostoso para a mulher e os filhos, e nem sequer pensa em chorar. Seu choro, por certo, de nada adiantaria contra a fúria do rio.

Singularidades de uma rapariga ribeirense

(Conto, por Roberto Fortes)
I
A estalagem ficava na descida do Beco do Saloio. A fachada desbotada, que há muitos anos não via uma mão de cal, ostentava encima da porta de entrada uma tabuleta, toscamente lavrada, na qual a custo eram distinguidas umas letras, quase apagadas, que diziam:


A MANJUBEIRA
Estalagem & Casa de Pasto

Ao entrar no estabelecimento, notei o seu ar de extrema pobreza. Num banco rústico, ao fundo, onde mal chegava a luz do dia, um homem calvo e de enormes bigodes enrolados nas pontas, a pança saliente a lembrar um monge glutão, deu um grito que ecoou como um trovão em dias de rebojo:

– Gentes de bem costumam tocar a sineta antes de se aboletarem para dentro da minha estalagem, ó atrevido forasteiro!

Ainda meio aturdido pela acolhida um tanto fora dos padrões ditos civilizados, pude notar uma sineta de bronze afixada na porta.

– Peço que releve o meu atrevimento, senhor estalajadeiro, mas, nas minhas muitas pernoites pelas mais diferentes estalagens da Europa, jamais reparei na existência de uma sineta chumbada à entrada.

– Os olhos foram feitos para ver – disse, secamente, o estalajadeiro –, da mesma forma que o siso para prolongar a vida do cristão.

– Acabo de chegar da Vila de Cananeia e parto amanhã para Santos – eu disse, enquanto o homem se levantava do banco e vinha em minha direção; só então reparei nos seus olhos remelentos e nos bigodes sujos de farinha. – O senhor teria uma boa cama, uma tina com água quente para um banho relaxante e uma sopa substanciosa para aplacar a fome de um viajeiro temente a Deus?

O velho gordo suavizou a expressão do rosto, até então oscilante entre o mau humor e a má vontade.

– Boa cama o forasteiro só há de encontrar na casa do senhor pároco. Agora, uma cama com um colchão de palha amaciado por tantas dormidas, dois baldes de água para lavar o corpo e a alma, e uma suculenta sopa de trairuçú, isso eu vos garanto que o forasteiro encontrará em minha humilde estalagem.

Aceitei o que o estalajadeiro me oferecia, sem qualquer objeção. A estalagem mais próxima ficava em Cananeia, onde estive hospedado, e não era muito diferente dessa de Iguape. Ainda sinto as picadas de percevejos coçarem por todo o meu corpo.

Foi então que eu o vi pela primeira vez, sentado num dos cantos escuros do saguão da estalagem. Pude notar que fumava um cigarro fedorento e sorvia sem pressa uma caneca de vinho. Devia estar beirando os cinquenta. Era gordo, como os frades do Piamonte. Usava um sobretudo surrado, que deve ter-lhe dado status há vinte anos, mas que hoje apenas denunciava que os seus dias já foram melhores. Na mesa, notei um grosso livro encadernado com couro de carneiro, e os meus olhos, já acostumados com a penumbra do local, conseguiram discernir, também na mesa, uma pena de ganso e um vidro de tinta escarlate. Talvez fosse um viajante que estivesse a explorar a Ribeira de Iguape, e o grosso livro, o seu diário de viagem?

Ao notar que me aproximava, o homem parou de sorver a caneca de vinho, olhou-me de alto a baixo e disse, abaixando os olhos para a mesa:

– Não sou das companhias mais agradáveis, mas se deseja sentar e tomar uma caneca deste vinho detestável, o amigo que não faça cerimônia e se abanque. Esta é a única mesa desta que é a única estalagem desta vila perdida nos confins do Sul de São Paulo.

Sentei-me. O homem pediu mais uma caneca de vinho, apagou na quina da mesa o seu cigarro fedorento, abriu a página do livro marcada por uma fita vermelha e, forçando os olhos na penumbra, começou a ler:

“Acabo de chegar a esta vila, que tem por invocação a Mãe de Deus, Senhora das Neves. O lugar possui alguns sobrados de esmerada arquitetura; seus proprietários, pelo que, do alto de sua boçalidade, informou-me o estalajadeiro, dedicam-se ao cultivo do arroz, que exportam para o Rio de Janeiro e Sul do País. O restante do casario espalha-se por algumas ruas; são casas baixas, cobertas por telhas de barro e caiadas de branco. A vila pareceu-me pacata, acolhedora. Queira Deus eu encontre aqui a paz que tanto procuro, desde o dia em que Domingas...”
Interrompeu a leitura neste ponto. Notei que duas lágrimas escorriam de seus olhos avermelhados. Tomou um gole de vinho e permaneceu alguns segundos em profundo silêncio.

– Não sei o motivo de eu ter lido esta baboseira a um estranho que jamais vi em toda a minha vida. O forasteiro que me desculpe a indiscrição.

Fiz um sorriso de que tudo estava bem. Tomei um gole de vinho, e esperei que o homem retomasse a conversa.

Disse que se chamava Segismundo. Era naturalista. Viera do Reino para estudar a fauna e flora da Ribeira de Iguape, que tanto ouvira falar em sua terra, e sobre a qual poucos tinham algum conhecimento. Nascera em Coimbra, de respeitada família burguesa. Ao concluir a universidade, viajou por vários países da Europa, coletou espécimes naturais de cada nação, escreveu volumosos tratados científicos. Até que lhe deu na telha a vontade de conhecer o Brasil. Chegando ao Rio de Janeiro, os marujos do porto lhe contaram sobre um grande rio, que cortava boa parte da Província de São Paulo e ia desaguar no mar, na altura da Vila de Iguape. O que mais lhe despertou o interesse foi que garantiram que a Ribeira era ainda totalmente inexplorada. Sem hesitar, pegou a primeira sumaca que se dirigia a esta vila. Estava há algumas semanas instalado na “Manjubeira”, enquanto preparava as condições necessárias para se embrenhar no sertão.

Eu ouvia com pouco interesse a história daquele homem. Em minhas muitas viagens pela Europa e pela América portuguesa, tenho topado com um sem número de viajantes e de exploradores, e as suas histórias são quase sempre as mesmas, repetitivas, desinteressantes, geralmente fantasiosas. Mas, ao lembrar-me do ponto no qual Segismundo interrompera a leitura, veio-me à mente que ele ia falar de uma mulher. Talvez pudesse sair daí uma história interessante.

II

– A mais bela das mulheres! – exclamou Segismundo, sem perceber que falava em voz alta. Ao notar o meu ar de espanto, ficou corado e falou de generalidades, como a flora européia ou a fauna tropical.

Decidi induzi-lo a contar a sua história. Senti que, no fundo, ele desejava mesmo contá-la, mas talvez estivesse inibido por achar-se na presença de um estranho.

– Muito gosto me daria ouvir o resto da sua história, bom amigo – eu disse, sorvendo o último gole de vinho de minha caneca. Fiz um sinal ao estalajadeiro, que pronto encheu o meu recipiente.

– A natureza e as mulheres – prosseguiu Segismundo – sempre foram as minhas paixões, principalmente estas últimas. Conheci muitas, de variadas nações e línguas: ibéricas, gaulesas, escandinavas, eslovacas e até ciganas. Tornei-me um especialista no estudo da natureza feminina. Acreditava que conhecia tudo sobre elas, e durante muito tempo vivi dessa ilusão. Mas – ai de mim! – eu não imaginava que o edifício de minha certeza estava levantado sobre colunas de barro! E quando elas enfim ruíram...

Segismundo deu um grande suspiro. Tomou um gole de vinho e tragou lentamente o seu cigarro fedorento. Qual seria a história que tanto parecia atormentar o meu novo companheiro?

– Seu nome era Domingas – continuou Segismundo, agora exibindo intenso fulgor nos olhos até então apagados. – Conheci-a há cerca de um ano, na Vila de Xiririca, para onde eu havia me dirigido a fim de explorar a Gruta da Tapagem, sobre a qual os caboclos contavam tantas histórias. Como não existia estalagem na vila, fiquei hospedado na casa do vigário do lugar. Foi a minha perdição! Eu, na casa de um servo de Deus, tentado por uma serva do Demônio! – Diante do meu espanto, Segismundo prosseguiu: – O padre Malaquias morava com uma sobrinha e mais uma velha negra forra. Deixarei de lado os pormenores sobre a velha, pois falar de vidas já desbotadas somente nos sufoca o espírito. Vou falar de Domingas. Sim, esse era o seu nome. O rosto angelical e o corpo, de carnes tenras e virginais, realçavam o esplendor de seus dezenove anos. No alto dos meus cinquenta e dois, após uma vida inteira desfrutando das companhias das mais diferentes mulheres, Domingas me enfeitiçou. Os longos cabelos negros, repartidos em duas tranças, desciam até a altura dos quadris. Os olhos pestanudos, também negros, tinham um brilho que me fascinaram à primeira vista. Os lábios – ai, os lábios! –, carnudos, rubros como uma romã recém colhida, a denunciarem uma sensualidade pulsante, agreste! Duas fileiras de dentes esmaltados, muito brancos, muito alinhados, de imediato me conquistaram. E a sua voz! Suave como uma harpa dedilhada por músicos celestiais!...

– A mulher perfeita! – interrompi.

– Sim, perfeita! – concordou Segismundo, mecanicamente, sem interromper a sequência de sua história. – E essa perfeição foi a causa da minha ruína... Mas não quero cansar o amigo com sentimentalismo barato. Deixarei essa tarefa a Shakespeare e seu casal de enamorados veroneses. Como disse, fiquei hospedado na casa do padre Malaquias, um velhote de magra compleição, o rosto encovado, os olhos gastos por muita leitura. Era exímio latinista. Durante horas ficávamos em seu escritório discutindo muitas passagens das Sagradas Escrituras, em especial o Eclesiastes, e também autores latinos. “Vanitas vanitatum, et omnia vanitas”. Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade – dizia o bom Malaquias, folheando o seu surrado exemplar da Vulgata, enquanto ajeitava no nariz afilado os seus óculos de grossas lentes. No início, Domingas me tratava com natural formalidade. Para ela, eu era apenas o “senhor doutor professor”, como ela me chamava quando me convidava para as refeições. Até o dia em que a negra forra bateu na porta do meu quarto... Devia ser por volta da meia-noite. Já um pouco sonolento, eu lia, à luz fraca de um candeeiro, o volume quatro da “Encyclopédie”. Levantei-me intrigado e, metido em meu camisolão, abri a porta.

– Sinhá Dominga manda dizê que deseja muito falá com o professô dotô... Sinhá le espera no quarto dela... – Apesar da luz fraca do candeeiro, pude notar um sorriso malicioso no rosto da velha. Homem experimentado que eu era, senti-me como um adolescente. Limpei o suor de meu rosto e senti as minhas mãos frias como se tivessem perdido todo o sangue das veias. Tentei controlar a inquietação que começava a tomar conta de todo o meu ser. Confesso que não imaginava o que a menina Domingas quisesse conversar comigo, àquela hora da noite, quando o padre Malaquias, que se deitava às oito, já deveria estar em seu quarto sono. Vesti o meu sobretudo e, a passos vacilantes, ansiosos, fui até à porta de seu quarto.

Com o coração aos saltos, suando por todos os poros, abri devagar a porta. Domingas me esperava, de pé, vestida num camisolão de algodão branco, que realçava as suas formas curvilíneas. Segurava numa das mãos um volume das “Epístolas” de Horário.

– Senhor professor doutor – disse Domingas, com uma súplica nos olhos negros e um sorriso maroto no rosto de menina. – O senhor poderia traduzir para mim esta passagem de Horácio? – Lendo em seguida o trecho: – “Oderunt peccare boni virtutes amore” (*)

(*) “Os bons odeiam pecar por amor à virtude” (“Epístolas”, Horário).

III


Fiquei sem ação diante do pedido de Domingas. Ora essa, traduzir uma passagem de Horácio! Justo Horácio, por quem nunca tive simpatia. Ainda se fosse Virgílio! Mas, passado o meu pasmo, traduzi o trecho solicitado. Domingas me agradeceu com um sorriso cúmplice nos lábios sedutores. Disse que muito gosto lhe daria se eu pudesse auxiliá-la em seus estudos de Latim.

– O padre... digo... o tio Malaquias – explicou-se Domingas, olhando-me no fundo dos olhos – já está muito velho e a sua memória deixa a desejar...

Estranhei esse comentário. Nos meus longos colóquios com o padre Malaquias o que sempre me chamou a atenção era o seu raciocínio lógico e o seu sólido conhecimento da língua de Cícero. Mas não tive tempo para pensar no padre Malaquias e em seu latinismo. Domingas me envolveu em seus braços e beijou-me ardorosamente. Nessa noite, começou o meu calvário...
– Amar uma linda e tenra rapariga – eu disse – não pode ser um calvário! Para mim seria um idílio...

Segismundo soltou outro de seus profundos suspiros. Enxugou uma lágrima furtiva que, deslizando pelo seu rosto, chegou até o canto da boca.

– Domingas me enrodilhou em sua teia de perversidade de tal maneira que esse idílio (sim, confesso, no início foi um sublime idílio) transformou-se num penoso calvário. Apaixonei-me perdidamente por ela. Justo eu, homem experimentado, que julgava conhecer a essência das mulheres! Foi o começo de minha ruína... Pensava nela todos os instantes. Virou uma fixação para mim. As nossas “aulas” noturnas de Latim foram me consumindo, física e monetariamente. Domingas tirou a minha paz de espírito, e também alguns contos de réis. Fiquei refém dos seus caprichos. O seu amor – perverso e fútil – exigia alta paga. Consumi boa parte de minha herança paterna em jóias caras e roupas finas que mandei vir da Corte. E, quanto mais crescia a minha paixão por Domingas, mais diminuía a minha burra. A situação passou a ficar insustentável. Até o padre Malaquias, sempre meditabundo, passou a me olhar com um ar inquisidor. Talvez estivesse a desconfiar das nossas “aulas” noturnas...

Eu ouvia, impressionado, a história que Segismundo me contava. Numa fração de segundos vieram-me à mente as imagens das grandes cortesãs do passado. Mas esses pensamentos logo foram interrompidos, com a continuação da história.

– Comecei a questionar todos os meus valores. Como uma rapariga criada por um tio padre, vivendo entre paredes abençoadas, pudesse ser tão frívola? Foi então que, certo dia, a velha negra forra... Creio que ainda não disse como se chamava... Ingrácia era o seu nome. De nação Angola, tinha sempre aquele ar sorrateiro de ave de rapina no rosto lavrado de sulcos, a boca falta de dentes, o nariz verrugoso... Certo dia, a velha me chamou num canto. Olhou para todos os lados para se certificar se estávamos a sós.

– O professô dotô que se garre com Deus... Sinhá Dominga não é boa bisca!...

Ingrácia, desconfiei logo, devia ter muita coisa para me contar, mas Domingas me chamou da sala para o almoço. As palavras da velha ficaram martelando durante todo o dia na minha cabeça. Que Domingas não era uma menina doce e ingênua, isso eu já tinha sentido na carne. Era pérfida e fútil. Mas que outras facetas de sua personalidade e de sua vida a velha Ingrácia desejava me contar? Aquilo se transformou num suplício. Apesar da “aula” daquela noite, onde Domingas novamente me enfeitiçou com os seus ardores de amante, não consegui depois pregar os olhos, com a voz de Ingrácia ecoando em meus pensamentos... “Sinhá Dominga não é boa bisca”... Logo pela manhã, quando o padre Malaquias foi à igreja celebrar uma missa de exéquias, e Domingas estava ainda em seu quarto talvez ressonando, fui até a cozinha e arranquei de Ingrácia revelações que melhor seria jamais tê-las ouvido. A negra forra, com um sorriso de satisfação nos lábios murchos, contou-me todos os detalhes a respeito de Domingas.

– O professô dotô pensa que sinhá Dominga é sobrinha do padre Malaquia... pois, sim...

– E não é? – perguntei, assombrado.

Ingrácia fez uma pausa calculada. Sorriu, exibindo a sua boca falta de dentes. Os seus olhos, costumeiramente embaciados, exibiam um brilho sinistro.

– É tão sobrinha do padre quanto eu sou senhora dona...

Sem mais delongas, Ingrácia me contou tudo. O “padre” trouxera Domingas para a sua casa no ano anterior, pretextando ser a filha de uma irmã que morrera na Bahia. Na verdade, Domingas era a sua concubina...

– Inacreditável! – exclamei, olhando, bestificado, para Segismundo.

– E mais – prosseguiu o naturalista. – O padre Malaquias nem padre era...

Fiquei aterrado. Apesar de nunca ter sido admirador de homens de batina, confesso que já simpatizava com a figura do padre Malaquias, tão bem referida por Segismundo.

– Aquele velho safado nem padre é – disse Ingrácia, com um fio de saliva escorrendo no canto da boca. – Não bastasse sê marrano, inda é pedreiro-livre...

Contou-me que o “padre” Malaquias chegara a Xiririca fugido do Reino por suas convicções religiosas e filosóficas. Ao passar pelo porto de Iguape, ficou sabendo que a Vila de Xiririca estava sem padre há mais de ano. Foi a peça que faltava em seu tabuleiro. Arquitetou um estratagema muito bem engedrado. Furtou uma batina de um padre, passageiro do vapor, que se dirigia ao sul. E, atravessando trechos da Ribeira em canoas e picadas de terra em lombo de burro, chegou a Xiririca, onde se apresentou ao povo como o novo padre enviado pelo Bispo de São Paulo. O povo fez festa por três dias e três noites, iluminando as testadas de suas casas, com Te Deum na Igreja Matriz e com salva de roqueiras pela companhia de milícias. Amado pelo povo, ali permaneceu. Até que chegou o padre de verdade enviado pelo Bispado... Malaquias sumiu nos sertões da Ribeira. Dizem que estaria a paroquiar em Santo Antônio do Juquiá...

– E Domingas? – perguntei, quase num sussurro, diante de história tão impressionante.

– Essa fugiu com um tropeiro, jovem e de boa estampa, para a Vila de Apiaí da Ribeira, levando as jóias e as roupas que eu lhe dei, como um butim de nosso amor... Dela nunca mais tive notícias...

Segismundo silenciou. A sua história chegara ao fim. Agora eu compreendia a desilusão de meu amigo. Para animá-lo disse que a vida continua, e em cada vila raparigas jovens e belas estão a nos esperar. Pedimos as últimas duas canecas de vinho, bebemos e nos recolhemos aos nossos quartos. A noite já ia alta. Dormi como um fardo pesado que se atira dentro de uma sumaca. Sonhei com Domingas, a bela e fútil rapariga ribeirense. Foi um sonho ardente, sensual. Ao despertar, decidi mudar o meu itinerário. A Vila de Santos, para onde planejara seguir, poderia me esperar mais um pouco. Em Apiaí da Ribeira, para onde agora partirei, certamente encontrarei aventura mais interessante.
(Conto publicado no JORNAL REGIONAL, , nº 842 (04/09/2009); nº843 (11/09/2009); e nº 844 (18/09/2009).

FIM

TRISTES AO ACASO

Belo é o passeio
gravitacional das folhas
ao desprender-se dos galhos
e timidamente pousarem sobre
a terra fria.

Ah! vento estival
porque varres as folhas secas
que em breve serão humus
onde as minhocas em seu bailados
rompem a crosta
num gesto único de oxigenar.

e o vento valente
varrendo vai,
as folhas secas sem vida
são acolhidas pelo jovem poeta
ganhando vínculo das palavras
tristes ao acaso.

Julio Cesar Costa- ( poema escrito para
dialogar com o poema Folhas Secas do livro Vazio
de Nestor Rocha)

INDIOS

são crateras
e se crateras forem
são as serras
e quando serras morrem

são as chuvas
e quando chuvas caem
e se espalham pela mata

Indios
chegou a hora
e no terceiro milênio
o que será de sua flora
no terceiro milênio

vejo um pássaro sem asas
seu corpo sangra
por trás de um país.

Como sábios
sabiam ser justos
como lendas
eram inígmas

repletos de leis
despidos de cruzes
repletos de luzes
indios

Natureza
mãe da vida
quem te sangra
faz ferida
tão exposta
tão sofrida...


Renato Cavalheiro

QUEM ELES PENSAM QUE SÃO?

Quem eles pensam que são?
O que eles pensam que são?
e se conseguem pensar
será o que pensam ser?

Quem eles pensam que calam?
Porque não querem que falem?
e se querem que calemos
será mesmo uma palavra calada?
as palavras caladas serão?

Vou ver a tristeza
vou ver a Tereza
vou ver as crianças
vou ver as meninas
vendendo seus corpos
abortando seus mortos.

O que eles pensam dizer?
sobre o que eles pensam dizer
e se conseguem dizer
será o que dizem ?

Vou ver a miséria
vou ver as camélias
vou ver as mais velhos
vou ver as mais lúcidos
chamados psicos
pelas lentes dos míopes

Renato Cavalheiro

CANTAR A ECOLÓGICA SEMENTE

Fato de estarmos bem não significa
Que assim continuaremos calmamente
A cantar a ecológica semente,
Que resistente a tudo frutifica

Mesmo em condições de precariedade,
Que a tudo enfrenta e em tudo é vencedor
Amenizando sempre a nossa dor
Para assim manter a nossa vaidade

De estarmos no controle desta vida!
No entanto, o descontrole é tão imenso
Que faz aprofundar mais a ferida

Desta Terra vivente e adoecida.
É preciso rever valores! – Penso. –
Mas, de que adianta? Somos a prurida!

SP, 16 de agosto de 2009.
Osvaldo Matsuda

A ÁRVORE DE LIVROS

A ÁRVORE DE LIVROS
(CONTO INFANTIL)



I - PESCADOR
Nando morava numa cidade linda. Seu pai era pescador e gostava de contar suas histórias. Nando era fascinado por leitura, mas o que o pai conseguia mal dava para o sustento familiar e não era justo tirar do pouco que restava para a compra de livros.



II - A CIDADE
A cidade apesar de toda a beleza natural que a cercava, estava um tanto abandonada. Prédios antigos em ruínas, roubos, assaltos e até mesmo assassinatos tiravam o sossego dos habitantes. Nando gostaria de estudar para no futuro melhorar o lugar onde nasceu, mas estava meio complicado realizar seus sonhos.



III – O LEÃO SOLITÁRIO
A coisa tava feia, até a estátua de um leão fora roubada de seu pedestal, talvez para ser encarcerada por trás de altos muros em alguma mansão particular. Ninguém sabe ninguém viu! Coitado do outro leão ficou tão solitário.



IV - O PEDIDO
Nando tomou coragem e pediu livros a seu pai. O pai não querendo magoar o filho, tentou explicar a situação, a eterna falta de emprego na cidade, a pindaíba em que viviam. Achou melhor não fazer tais comentários, Nando era criança e não entenderia, apenas falou:- Encontre uma árvore de livros e faça bom proveito!



V - A ÁRVORE DE LIVROS
Nando em sua inocência jamais duvidou da palavra do pai e toda à tarde após a volta da escola saía à procura da tal árvore. Na orla do lagamar algo chamou a sua atenção, era uma árvore de livros. Agora toda a vez que tem um tempo livre ele passa horas lendo as muitas histórias que sempre quis conhecer.


Gastão Ferreira/Iguape

ORAÇÃO



ORAÇÃO

Ave! Cheia de graça.
Ave! Cheia de luz.
Tem fel na minha taça
Tem um povo na cruz!

Embalaste o Seu berço
Ouviste a Sua voz.
Sei que tens apreço
Interceda por nós!

Nessa negra hora
Na cidade aflita
Tanta gente chora
E um filho grita:

- Oh Nossa Senhora!
Mãe do Redentor
Nos socorra agora
Com o teu amor...

A treva afasta
Ao progresso induz
Ave! Cheia de graça
Ave! Cheia de luz.

Gastão Ferreira/Iguape
oBS.- A placa com o rosto do Papa
Pio XII até essa data 10/09/2009
ainda não foi recolocada no pedestal
Foi retirada em março/2009 e entregue
em mãos para ser reposta.

COMPUTADOR



COMPUTADOR

Computa computador
Que só sabe computar
Passarinho enganador
Que não pode mais voar.

Te aprisionei na gaiola
Para ouvir o teu cantar.
Doce som de uma viola
Na minha casa a chorar!

Era livre meu amigo,
Passarinho cantador.
Embora vivas comigo
Sou causa da tua dor!

Vou te soltar finalmente
Desta prisão que te dei,
Assim cantaras contente
Os sonhos que te contei!

E quem ouvir o teu canto,
Dirá:- Como canta bem!
E saberá que meu pranto
É parte do teu também!

Gastão Ferreira/Iguape

MURO DE PEDRA



MURO DE PEDRA

No velho muro de pedra
Erguido por mão escrava
A flor que no alto medra,
Foi por lágrima regada...

O tempo passa e semeia
Colhe quem sabe colher.
Sangue que corre na veia
Rubra tinta de escrever...

Entre o tronco e a chibata
Toda uma história de dor!
Tem tanta gente que mata
Tem coronel... Tem feitor...

Sonhos que foram morrendo
Em anjos bons se tornaram.
Pelos muros se escondendo
Em musgos se transformaram.

Ah! Esses muros tão velhos
Ah! Se pudessem falar...
São os nossos evangelhos
Tem muito a nos ensinar...

Gastão Ferreira/Iguape/2009

O ANEL

O ANEL



I – MIRIAM

Miriam encontrou o anel na calçada. Quem o teria perdido? Uma jóia cara, de boa qualidade. Colocou-o no dedo e segui seu passeio, mais tarde o mostraria a seu noivo. Hoje é um dia especial, dia de marcar a data do casamento. Estaria preparada para a vida a dois?Pedro era confiável a ponto de dividir seu futuro com ele?Por que tantas dúvidas? Nunca as tivera, sempre acreditou amar sinceramente seu noivo! Que estava acontecendo com ela?Seria a emoção de marcar a data?



II – PEDRO

Pedro amava sua noiva, disso tinha absoluta certeza. Sentia-se desconfortável nesse momento, de uma hora para outra a idéia de casar o assustava. Era algo vago, um pressentimento de que estava arriscando seu futuro, um aviso de perigo iminente. Precisava refletir melhor, telefonaria a Miriam e marcaria outro dia para escolher a data.



III – SONHOS

Miriam deitou contrariada, Pedro estava estranho e reticente. Custou a dormir. Uma sombra de mulher gritava ao lado da cama; - Ele te trai!Não te ama!Olha como estou! Meu noivo fez isso comigo. A bala atingiu meu coração e eu não merecia isso. Eu confiava e era feliz! Veja como estou... Veja como estou!Ele tem que pagar o que fez! Eu quero vingança... Eu quero vingança!



IV – LOUCURA

Pedro atendeu a porta, era sua noiva. Três tiros e ele tombou sem ouvir o quarto disparo. Miriam atingira a própria cabeça e teve morte instantânea. A policia foi acionada, uma ambulância socorreu Pedro que conseguiu ser salvo e o corpo de Miriam encaminhado ao IML para autópsia.



V – O ANEL

Um investigador procurou Pedro. Queria saber onde comprara o anel de sua noiva. Pedro nunca vira tal jóia. O policial estava transtornado, era a quinta noiva que matava o noivo e cometia suicídio em menos de um mês e todas elas possuíam o mesmo anel. Como podia uma jóia guardada no cofre da delegacia desaparecer e reaparecer com as vitimas?Qual o negro segredo por trás de um anel de noivado?O que estava ocorrendo?Pedro jamais ficou sabendo.


Gastão Ferreira/Iguape

A DAMA NA JANELA

I - PALACETE
Família tradicional, em seu palacete na praça principal recepcionou o imperador quando de sua inesquecível visita a cidade. O coronel José Galvão, senhor de escravos e engenhos, proprietário do imóvel ali habitava com a esposa e filha.



II - MARIALVA
Marialva a única descendente e herdeira do coronel estava inconformada. O pai não concordava com seu namoro com Adamastor, um pescador sem eiras e beiras que roubara seu coração. Nunca abriria mão de sua felicidade, estavam no ano de 1859 no século das luzes e não na idade média. Saberia lutar por seu grande amor.



III – ADAMASTOR
Adamastor jamais perdoara o coronel José Galvão pela morte de seus pais. Em criança, escondido na mata, presenciara a carnificina comandada pelo coronel em pessoa. Sua casa incendiada, família carbonizada e terras apossadas. Criado por um tio, ninguém soube que sobrevivera a tragédia.



IV - CASAMENTO
O assassino não foi encontrado. O coronel e esposa mortos numa emboscada. Marialva casa-se com Adamastor. Vendem bens e propriedades, transformam tudo em ouro e decidem começar vida nova no Rio de Janeiro. Adamastor viaja para apressar a mudança. Marialva permanece no palacete já vendido a espera do aviso para a mudança. O aviso demorou, mas chegou:- “Vapor “Mãos Limpas” naufragou nenhum sobrevivente.”

V - LONGA ESPERA
Marialva foi despejada de seu antigo palacete. Toda a riqueza estava em mãos de Adamastor. Apesar do bilhete Marialva tinha certeza que seu esposo sobrevivera e que viria a seu encontro. Sem bens, sem dinheiro, sem profissão virou pedinte, adoeceu, morreu... Morreu?
Adamastor trocou de nome, Nivaldo. Riquíssimo, casou com Cássia, constitui família e tocou a vida. Sua vingança fora plena.
Marialva, dizem, espera até hoje a volta do esposo amado. Na última janela de um velho prédio abandonado, frente ao mar, aguarda o momento em que um navio qualquer trará seu amor. São cento e cinqüenta anos de espera. Muitas pessoas no decorrer das décadas viram Marialva debruça a janela, esperando... Esperando.

Gastão Ferreira/Iguape

UFO... UFO... UFO

UFO... UFO... UFO



I – O DISCO VOADOR
Ninguém sabe quem primeiro avistou o estranho objeto voador não identificado. Aterrissou de vez no portal da cidade e foi à maior concentração humana já vista na localidade. Gente a pé, de bicicleta, a cavalo, de carro, carroça, skate e canoa. Toda a população estava ali reunida.



II – O EXTRATERRESTRE
Quando a porta da nave espacial abriu, uma criatura nunca vista, óbvio era um extraterrestre, imediatamente dirigiu a palavra à multidão em expectativa. Nem um suspiro foi ouvido, até os quero-queros pararam de querer-querer.



III – A MISSÃO
- Povo do planeta Terra, moradores desse magnífico burgo, autoridades aqui presentes, senhores, senhoras, moços e mocinhas, meus amigos (nota-se que era um discurso decorado e já ouvido por quem foi a alguma solenidade pública), venho em missão especial a fim de levar para meu mundo alguns dos que aqui estão. Minha nave espacial tem acomodação para cem pessoas. Por favor! Quem se apresenta?



IV – A ESCOLHA
Todos tremiam apavorados. O ET era feio prá cacete, mas ninguém conseguia mexer um músculo do corpo, apenas a boca:- Eu não! Eu não!
O extraterrestre perguntou quem eram os líderes locais. Foi um tal de apontarem dedos para prefeito, vereadores, assessores, diretores, advogados, chefes, chefinhos, empreiteiros e puxa sacos em geral.
O ser do outro mundo colocou todos eles dentro da nave e trancou a porta, deu a partida e gritou:- Adeeus!


V – CONSEQUÊNCIAS
Algum tempo depois desse desagradável acontecimento, a cidade era outra. Turistas vinham conhecer o primeiro local visitado por um disco voador. A cidade tomou o rumo certo, árvores bem cuidadas e bem podadas, lagamar despoluído, ruas limpas e sem pedintes, segurança plena, silêncio noturno, prédios antigos reformados e preservados, cidadãos orgulhosos com o lugar onde vivem, nem ousam cuspir nas calçadas. Estão pensando em erigir um monumento ao UFO que permitiu que o progresso finalmente chegasse.


Gastão Ferreira/Iguape

O ESPELHO

O ESPELHO

I - O ROUBO
O vetusto palacete da Condessa da Barra foi assaltado e entre os vários objetos furtados constava um antiqüíssimo espelho de cristal. Estava com os nobres há séculos, desde que o fundador do clã saqueou e queimou um palácio mouro na baixa idade média. Os condes da Barra sempre tiveram um trágico destino, simplesmente desapareciam sem deixar pistas e eram as mulheres, as condessas que conduziam os muitos negócios da rica família.



II - MÁRIO
Mário dente de rato, criado na sarjeta, expulso de todas as escolas, freqüentador de delegacias, olhava extasiado o belíssimo objeto furtado. Deve ser efeito da droga pensou, o espelho refletia uma cena que parecia em todo o aspecto real, era como um filme; - Uma cabana na margem de um regato, a porta abria e uma garota em desespero corria para frente do espelho e clamava por socorro, suas mãos arranhavam em vão a fria superfície, ela não conseguia atravessá-la.



III – DEVANEIOS
Dia e noite Mário postava-se frente ao espelho. Podia ver a paisagem, a moça, sentir seu medo, entender seu chamado de socorro. Em sua solidão se imaginava o salvador da donzela em perigo. Com o passar do tempo e talvez devido ao continue uso de drogas pesadas, acreditava conhecer a personagem desde criança, seu nome era Larissa, fora seqüestrada e conseguira fugir do cativeiro e agora necessitava de sua ajuda, de seu carinho, de seu amor.


IV - A PASSAGEM
Mário estava apaixonado, era seu dever proteger quem roubara seu coração. Naquela noite junto à superfície do espelho tentava inutilmente acalmar a mulher desesperada que de olhos brilhantes apontava para seu coração. Fechou os olhos e se imaginou no outro lado abraçado a Larissa, um arrepio perpassou por seu corpo, sentiu frio e abriu os olhos... Estava do outro lado.



V - LARISSA
Vem! Disse Larissa, a dama do espelho. Mário abraçou-a fortemente, beijou seus cabelos e sentiu todo o horror tomar conta de sua mente, uma podridão, uma angustia um pavor repentino... Larissa se modificara, criaturas horripilantes saiam da cabana em sua direção. Não podia voltar, estava num mundo estranho, em um mundo alem da imaginação e a último som que ouviu foi à voz de Larissa dizendo a seus irmãos:- O coração, como sempre, é meu!


Gastão Ferreira/Iguape

Silas Correa Leite (na TV Cultura) 04/09/09 - 22h

Dia 04 de Setembro Silas Correa Leite no 'Provocações' da TV Cultura
Contribuido pelo Redação
terça, 18 agosto 2009
Nosso colunista, o poeta Silas C. Leite, de Itararé, na TV Cultura
A direção do programa 'Provocações' da TV Cultura de São Paulo confirmou: dia 04 de Setembro próximo, às 22 horas, o
polêmico apresentador e dramaturgo Antonio Abujamra levará ao ar a entrevista gravada com o escritor de Itararé,
Silas Correa Leite, conhecido como 'poetinha'.
O programa foi gravado dia 25/07 nos estúdios da Barra Funda de São Paulo, ocasião em que o autor falou de sua obra
em evolução, dos sonhos que vem realizando, das idéias diferenciadas, de autores que o influenciaram.
Falou de Itararé, claro, de seus ídolos, da carreira, do que pensa e porque escreve.
A gravação foi editada, mas deve ir ao ar meia hora da entrevista, já que o programa tem duração de uma hora, em
média.
Mais uma vez Itararé, como nos tempos de Elvira Pagã, das Irmãs Pagãs, do Maestro Gaya, do próprio ator Carlos
Casagrande, da Rede Globo, é mostrada com o que tem de sua arte, suas criações, seus artistas.
Silas começou a escrever aos 16 anos, com o pseudônimo de Sil Corley (suas iniciais), no encarte 'O Carrapato',
produzido pelo Marcos Chunda que o jornal 'O Guarani' trazia com humor, causos, literatura, crônicas, etc. Em 1968, o
jornal O Guarani estava começando sua história brilhante do maior veículo de comunicação da região sul do estado de São
Paulo, com colunistas, entre outros, como Pedro Ribeiro Pinto, Lucas Ferreira, Delio Simões, Edson Melilo, Ávila (Antonio
Vinicius Lages) - Hermínio Lages no auge da vida - e outros.
ROL - Região On Line


14/08/09


Sonhos de Uma Criança em Itararé


Eu era o menino
Que sonhava incendiar barcos de papel de pão
Assumir a bússola, o sextante, o timão
E com a nave louca desgovernada
Ganhar o corrimão da enxurrada...

Eu era o guri
Que olhando o céu de Itararé tão infinito
Ainda assim fazia pito-carito
Pois eu tinha um sonho altaneiro, bonito
De ser poeta, vencer, ter floração
Muito além daquela constelação

Eu era um piá
Em Itararé – a beira do Paraná
Que tinha loucas ilusões, fantasias...
Em deixar a terra-mãe onde canta a sabiá
E todas as minhas conquistas e vitórias teria
Vivendo de cervejas, de serestas e de poesia...

Mas veio a baldeação da florada da vida
O curumim sentindo fome e a alma dividida
Garrou o mundo em busca de diploma, arco-íris, anel
Mas sofrido descobriu-se um dia de luta descabida
Que ainda é só aquele pobre menino do barco de papel
E o incêndio é a saudade de uma distante Itararé querida!


Silas Correa Leite – E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue: www.porta-lapsos.zip.net