BÍPIDE

Manipular coisas, transformar
Com as mãos eu moldo, eu preparo, forjo
Modifico, adiciono, dou mãos substancia
ao movimento das mãos.
As coisa é tudo o que existe
coisa de faze
Alguma coisa qualquer coisa
as coisas se transformam
eu me transformo
eu sou homem bípide
caminho com duas pernas
como as aves. Mas não voo.
Os metafísicos voam.
Os sem terra também voam
A mais intensa e raivososa...
Tudo porque algu...
''Sobreviventes do massacre de sem terra
em eldorado de carajás dizem que a
PM escondeu vítimas.
Governo estadual nega "
A natureza não basta...
A modernidade necessitou criar
a ecologia
fusãoporassoreamentofusãoporassoreamentofusãoporassoreamento
fusãoporassoreamentofusãoporassoreamentofusãoporassoreamento
fusãoporassoreamentofusãoporassoreamentofusãoporassoreamento


c
o
r
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banco de areia banco de areia CANANÉIA ILHA DO CARDOSO
banco de areia banco de areia BAÍA DE TRAPANDÉ
banco de areia banco de areia CORDÕES DRENOSOS
banco de areia banco de areia
formando reestinga

Crosta de capa

Clausura branda e úmida da mata
agora sou eu a luz que foge, se embrenha
e banha-se na sedutora cascata.
Quem dera os outros viessem
e acocorassem a carcaça sedenta de caminhos
e rumos e concluíssem que são quase água
que descem dali e secam aqui.
Santificado seja vosso nome,
pois nos destes a célula-mater por herança.
Sedutora cascata é cenário
ao longe a observo
o que sai do interior será exposto
será aceito se for próximo
crescendo a compreensão
surgindo sempre a virgindade.

do livro "Vento Caminhador"
Miracatu (Renato, Déco e Nestor)
30-04 94

Noite sem nexo

Palavras soltas,
sentido quase sem nexo,
e o homem que podia ter sido,
nas águas foi molhado.
Cabelos, pele ardente que contrastava.
Tudo se foi
na noite caminhando,
e nos pingos que caíam
surgia a imagem embaçada
mascada, desfigurada, indefinida.
daquele rosto longo, daqueles dedos finos
daqueles cabelos lisos
daquela mulher inesquecivelmente esquecida
que tinha nos lábios ainda o perfume do batom
um odor de cigarros, lábios que beijavam ardentes
indiferentes, deprimentes...

do livro "Vento Caminhador"
Deco/ Matsuda
Miracatu - madrugada 14-15/02/94

antes da cachoeira

As regras são necessidades?
As necessidades são necessárias?
O amor é essencial.
O essencial é necessário.
O som é audível.
O audível é o que se ouve.
O que se ouve é o óbvio.
O óbvio é necessidade.
O som é bom.
O bom é bom.
O amor idem.
O vestígio é natural, às vezes.
Falar o que se ouve também.
Uma sucessão de palavras sem nexo.
As regras são meros preceitos desnecessários.
O desnecessário é necessário?
O amor é essencial ?
A essência, sim, é necessária.
Há sons inaudíveis.
O inaudível às vezes se ouve.
O óbvio é desnecessário.
O som é som.
O bom é ruim.
O amor é bom.
O vestígio é sempre natural..
Falar o que se ouve é original.
Há algo a mais que este olhar perplexo.

do livro " Vento Caminhador"
Deco/Julio César da Costa - (Clube da Esquina - Miracatu 1996)

NO EU DO POETA de DANUBIO FIALHO

Por que, ao leitor,

Deveria interessar o que se passa

No pequeno eu do poeta?



Bagagens

Conduzidas há centenas de anos,

Ainda em lombos de camelos

E, nelas, poesias, quem sabe

Não reveladas,

A bem de preservar-lhes

[a pureza original?



Num precioso garimpo

Pelo eu do poeta,

Encontraria, talvez,

O que ainda não foi dito,

Contrapondo-se à máxima:

“Tudo já foi dito”,



Ou talvez um baú,

Qual tumba faraônica,

Onde estaria escondido

O sorridente esqueleto

De um antigo amor

[que nunca veio a lume?



Quem sabe interessaria

O próprio Egito,

Guardado em uma caixa de fósforos,

Displicentemente atirada a um canto,

Ainda com o palito que pôs fogo ao Sol,



Ou o legendário poeta e filósofo,

Omar El Khayyám,

Em uma taberna

Depois de fazer as pazes com Allah,

Longe das vistas de Marco Antônio,

Bebendo um vinho rosado

Na companhia de Cleópatra

E deste poeta?



Talvez encontre Abraão

[pedindo perdão a Sara

Por ter explorado sua beleza,

Entregando-a ao Faraó

Em troca de segurança e fortuna.



A grande novidade

Seria vê-lo desculpando-se

Com o Faraó

Por ter-lhe mentido

Que era irmão de Sara

E, arrependido,

Devolvia-lhe os bens que recebera

(bois, ovelhas, jumentos, camelos,

[escravos e servas);



Da mesma forma

O próprio Júpiter,

Deus de todos os Deuses,

Ajoelhado ante Juno

- arrependido em lágrimas –,

Desfiando todas as ninfas

E magníficas mulheres

Que possuiu, a bem

- ou não -,

De povoar a Terra.



Talvez estimule a imaginação do leitor,

A ponto de ver Jesus Cristo

Falando para o seu bordão

No Jardim das Oliveiras,



Ou o leve aos conflitantes

E jamais confessados

Pensamentos dos eunucos

Quando do exercício de suas veladas

E capengas funções.



Alguma novidade é possível...



Quem sabe,

Nesta sondagem,

Encontre, inesperadamente,

Uma misteriosa caixa de guardados,

Entre os quais

Lantejoulas e lança-perfumes

(desconhecidos por Freud),



Ou uma porta

Que conduza ao caminho

Dos segredos do cio

E seu calendário,



E, bem,

A um reservatório de lágrimas,

Ao lado,

O armazém das dores,

Ou ao desvio do inferno,

Onde, por um vintém,

É dispensada a confissão

E o arrependimento.



Quem sabe encontrasse,

Finalmente,

Os mistérios de Deus,

Esquecidos no bolso de um velho capote,

- Preto -

Pendurado em um cabide

Cheio de teias de aranha?



Ou a bíblia das bíblias

- carcomida por traças -,

Escrita de próprio punho

Revelando o dia do julgamento

E a prolatada verdade.



Por certo encontraria

No fantástico genoma do poeta,

Os eus que o precederam

- todos reunidos -,

Em torno de uma festa

Regada á champagne

- a verdadeira -,

E acompanhados, como sempre,

De encantadoras mulheres

- suas musas -,

Gritando um hip...hip...hurra,

Em homenagem ao eu do poeta

E à promissora genética.




Querido amigo Matsuda! O poema "No Eu do Poeta" é um daqueles que, como já disseste, valeu à pena escrever. Está inscrito no Concurso do Santander Cultural e Banco Real. Envio-te uma cópia ao mesmo tempo em que o dedico ao "Vale do Ribeira" para que os leitores paulistas divirtam-se e façam um comentário no site do Talentos da Maturidade, "No Eu do Poeta". Conto com teu pessoal e inestimável comentário. Um grande abraço, amigo Matsuda, do Danubio.

PIXAÇÂO (Revolução Simbólica Popular)

morador da praça da Sé pede Ataulfo Alves
canaviais à vista
sono
barulho de vento
na verdade eu queria dar um grande beijo nela
não sente falta
bichos
barulho
os de hoje
o zama binlá
batráquios
se arrependimento matasse
a sorte
a tarde
outra tarde
mais outra
assim iam, uma boiada, em fila, uma atrás da outra
até que veio a noite
queria estar naquela noite
vaga lumes
luares
além de tudo, ela
e o sereno da madrugada
se não fosse o tempo
aaaêaaaêÊaaaêaaaêÊaaaêaaaêÊaaaêaaaêÊÊ
vários círculos dentro deoutros maiores círculos
dentro deoutros menores círculos
o entardecer
Oi..., tudo bem? Ta ali, ta?
Nascimento
Aquela cor
E o sopro do vento
O canto dos pássaros
A pele sentindo aquele sereno vindo
Se pudesse escolheria tudo o que é de bom
calçada contra inundação em cidade grande
as tristezas...uma obrigação
latifúndio
ganância
andante, a não escolha
aglomeração
a cidade é a ponta do não-campo, do não-sítio,
da não-roça, do não-mato
a razão do urbano é a realidade do latifúndio
o latifúndio da cana mata mais do que 10...10 São Paulo
casa para quem não tem casa
lugar para plantar para quem não tem lugar para plantar
a fala de dentro
ouvi um tiro
outros mais
às vezes ser pobre funciona como uma couraça.
Seria melhor se não fosse assim
COHAB
MORUMBIZINHO
miscigenação
nordestino
Biko e Luter King
petróleo
água e seca
empurrando com a barriga
a enchente natural traz o saguarú que alimenta muita gente
fertilização natural de terras pobres
Miracatu, levando as lembranças pela caminhada
casas ecológicas
está vindo uma revolução espiritual
pra todo aquele que pedir será estendida a mão
estrada de terra deixa a água entrar no chão com mais facilidade
calçada contra inundação em cidade grande
flores para meu amor
reforma agrária
“pensamento filosófico, conhecimento científico
e percepção estética” Jão e atitude caminhada
todos unidos no espírito
Rap’ ente

déco
(para o livro Vento Caminhador)
( São Paulo, 2003)

ODE PARA DRUMMOND

Sua figura inspira silêncio
mas sua poesia em si incomoda
esse teu sorriso é tão mineiro
e essa poesia implacável

O que seria do mundo sem Drummond?
sem essa morte do leiteiro à Cyro Novaes
sem teogonia, sem José...

Sabendo que os ombros jamais suportariam o mundo
as palavras procuram seus reféns
que se danem as escolas
pré-modernismo , modernismo, sei lá...

Vejo um velho macilento e calmo
na noite enluarada
passos descompromissados.

em seguida vejo Elefantes
sobre o brejo das almas

um chinês carrega um galo
que breve tecerá uma manhã

Acordo com uma simples receita de ano novo.
sem saber que a minha história também era mais
bonita que a de Robinson Crusoé.


Julio Cesar da Costa

1997
obstrução
fusão por assoreamento
lacunas submersas
lagunas s
ão
d
i
s



pe
r

fusãoporassoreamentofusãoporassoreamentofusãoporassoreamentofusãoporassoreamentofusão

Caminhos

(poesia título da Mostra de Artes e Poesias “Caminhos” realizada em Miracatu e organizada por Osvaldo Matsuda)


Há incerteza.
Não sei porque me sinto assim.
O que me aflige?
Procuro uma resposta
Todos estão longe.
Caminham por outras ruas.
Olho em minha volta e os sentidos se entrelaçam.
Estou triste.
A rua está deserta.
Um cachorro ladra seus fantasmas caninos.
A lua me acompanha aumentando o contraste.
Passos se esvaem pelos becos escuros.
Uma lata de lixo repleta de folhas.
O ser humano é estranho.
Perco-me nas confusas ruas.
Não ligo. Vejo uma casa velha
e a infância me vem à memória
parecendo mais um lamento de saudade.
Percebo que sou um tolo,
e continuo a andar sem rumo
a buscar no âmago a perspectiva do futuro.
Pingos. A chuva começa a cair mansamente.
Tenta lavar o caminho.
Procuro a Lua,
mas ela não mais existe.
Aos poucos me confundo com os paralelepípedos.
Vou me extinguindo misturado com as pedras,
com as águas,
com o universo
e me encontro.

déco
Miracatu 7/08/1993
(do livro Vento Caminhador)

logo esta palavra

é só dar um ponta pé inicial
qualquer chute
lápis
briga
parando para pensar
aos poucos vai ficando lá longe
no tempo
sempre surge alguém
SÍLABAS
azul da cor da noite de lua cheia
aviões
a curruíra é uma avezinha que canta muito bem
aparece derrepente
igual ao sussurro
aquelas curvas volteadas de azul
pontas cobertas com imaginações
coaxar de sapos
montanhas ditas azuis volteadas do pôr do sol alaranjado

déco
11-2004
são paulo

no trem com o som e a noite

Pulei o tempo com você,
no pensamento.
Parei aqui,
e voltei.
Voltei por várias vezes.
Revi aquele sorriso
Meio apaixonada...meio sem graça
Meio feliz...meio não tô nem aí.
Só queria pular de novo o tempo,
andar com você caminhos afora.
Quanto mais se anda, mais o tempo passa.
fiquei parado.
tentando carregar aquele momento.
Então,
pulei o tempo,
com você,
no pensamento

déco
SÃO PAULO
26-05-2005

RADICAL ARTE

TALVEZ ESSE TEMA
NÃO TENHA TEMA
PODE SER O QUE VOCÊ
PENSA VIVER.

UMA ESTRELA FRIA NO CÉU.
O QUE O CEGO ENXERGA
O SURDO OUVE
O QUE O UNIVERSO CONTÉM.

O ÓLEO SOBRE A ÁGUA
O FOGO SE ALASTRANDO
DEBAIXO DA CHUVA TORRENCIAL,
O VENTO EM SILÊNCIO.

RADICAL CHIC
PARA VALER
O QUE VOCÊ ENTENDER...


MARTINS CASTRO- 1993

GÁS VISÃO

Gasosa humanidade soçobrante
Flutuou airosamente algum instante
Antes que os gases fossem ilusão
De uma velha era, data: gás visão!

Eis os poluentes! Resultante
Da moderna balança delirante
Buscando sempre e sempre a exploração
Da natureza toda, numa ação

Sem precedência que disseram os vivos:
A morte vem aí, tudo que sobra
Sobra por sobrar, pois esta grande Obra

Tão necessária à vida dos nativos,
Esvai-se tão ligeira a última dobra,
Tendo que redobrar, mas não redobra!
(Osvaldo Matsuda)
(SP, 20 de maio de 2009)

CULPA

Culpa

Aquele vento que vinha de frente
Camuflava o bafo da morte
Em meu encalço,
Era ela que tecia de toda a visão
Eu a vi tão real
Eu a vi
Era meu pai no paredão
E quantos fuzis em sua direção
Aquele homem e aquele momento
E quantas mãos inseridas em seu rosto
E eu precisei chorar no seu lugar
Ao tempo que morria
Eu vi
Meus doze irmãos no corredor
Esperando a hora abraçados despedindo-se
Desculpando-se
Notaram-me e perguntaram da mãe como passava,
Precisei mentir
Pois morrera pelos doze na prisão da pena só
Chorei por eles também
Homens recolhidos pendurados em gaiolas da consciência
Escorrem dor agora
Pois amanheceu, o homem que veio do barro
Não poderia participar da pedra.

Renato Cavalheiro

NÃO CONSIGO TE CARREGAR EM MIM!

Não consigo te carregar em mim
A clorofila de tua folha passou
Eu sou esta formiga nômade e sedentária
Ao sair eu fico, ao voltar eu parto,
Indomada dor sem sombras
Mas de penumbra disforme
Este sol que invade teu quarto
Fere seus olhos,
Eu não quero
Eu recebo teu rosto impresso
Me empreito ao teu sonho por agora
Amarra teu sonho ao meu
Então abrirás um paraíso a nossa frente
Em todos os teus poros
em todos os teus sentimentos
verte o mar em que me reidrato,
Princesa, seu néctar me adormecia
Em seu aroma eu viajei sem sentir
tocar a terra,
tuas mãozinhas de fada tirava de mim meus escudos e minha espada
e já desguarnecido, desprovido,
mergulhava em seu olhar
sem reservas, medo ou culpas
éramos duas argilas umedecidas
pela mesma consistência amor!
Moldava-nos mutuamente
Em um grau elevado
Solidificava nossos sentimentos...

TROVAS CAIPIRAS

TROVAS CAIPIRAS

Nos sertões do alto Juquiá, em um fandango onde eu me achava
Cantava um violeiro, quando a elle se chegou uma mulata e pediu-lhe
que respondesse em versos, e ao som da viola si beijar era crime, si o
beijo era peccado. O nosso emprovisador caipira, não pateteou e retemperando
o pinho, vociferou:


Um beijo não é crime
Nem nunca foi pecado
Pois um beijo inté ridime
Arrufado namorado.

O beijo puro e nobre
De lábios como os teus
É esmola dado á pobre
Empréstimo feito a Deus

Mesmo o beijo que arrebata
O que dá maió ventura
Que é beijo da mulata
Cum abraço p’ra sentura...

Sendo dado cum amo
Que nasceu no coração
Sendo assim num é peccado
Inté é vertude e sarvação.

Assim o beijo nem crime
e peccado nunca é
Pois o beijo inté redime
Os peccado das muié

Si beijo fosse crime
condenado pelo eterno
As muié da terra firme
tavam todas no inferno

Mas o beijo que é subrime
que encanta, quase mata
É aquelle que nos imprime
uns beicinhos da mulata
esse beijo, aqui lhe digo
põe a gente em boa paz;
de-me um desse por castigo
Pois nem posso cantá mais

Saruva (Jornal O Iguape 1940)

A ÓTICA DA DOR POR CESARE PAVESE


DOR

A dor não pode ser objetivamente determinada por instrumentos físicos,
A dor é antes de mais nada parte integrante do ciclo da vida.
A palavra dor origina-se do latim vulgar “dolore” e designa dor física indo até a dor moral, pesar,desgosto,tormento, aflição, tristeza.
Segundo Sternbach, 1968 “ a dor pode ser uma sensação pessoal e íntima do mal”.A palavra dor representa uma categoria de fenômenos compreendendo uma multidão de experiências diferentes e únicas.
Para Shakespeare “ a dor enerva a alma, torna-a mais teimosa(...) é o veneno da beleza”.
O poeta que mais soube falar da dor foi sem dúvida Cesare Pavese,ele era italiano e nasceu em Santo Stefano Belbo, nas Lange (Província de Cúneo) em 9 de Setembro de 1908, tendo-se mudado muito cedo para Turim,passou um ano na prisão de Barcaleone devido a questões políticas.
Sua tese de licenciatura foi sobre Walt Whitmam e já não era um desconhecido
quando em 1936 publicou Lavorare Stanca: tinha já publicado e continuava a publicar estudos sobre literatura norte-americana clássica e contemporânea
reunidos num volume publicado em 1951.Traduziu Daniel Defoe(Moll Flanders)Charles Dickens, Hermam Melville(Mobie Dick e Benito Cereno),
James Joyce(Dedalus).
Pavese suicidou-se em Turim em 1950.




És a terra e a morte

És a terra e a morte
A tua tentação é a treva e o silêncio.
Não há coisa que viva mais do que tu
Afastada da manhã.

Quando pareces despertar
Toda tu és dor
Está-te na dor e no sangue
Mas não a sentes,
Vives como vive uma pedra
Como a terra dura
E há sonhos que te vestem
movimentos, soluços
que ignoras.
A dor como a água de um lago
Estremece e envolve-te.
Há círculos à flor da água
Deixas que se desvaneçam
És a terra és a morte.

Césare Pavese,
In “ O vício Absurdo” & etc
Tradução de Rui Caieiro
Julio Cesar da Costa
pré ensaios

astromar

astros no espaço, passeiam
passeio cósmico,
explosão de alegria infinita
e o mar cobrindo quase
toda a terra firme
junção de um nome
explosão exposta no final da sensatez
visões vastas de um desprendido do tudo e nada
que se fez humano
que se fez um louco
a descobrir
o universo em que o humano existe
e se fêz o todo
o astromar

astromar
12/12/1993

água

transparente e consistente
contradição líquida
que satisfaz.
a certeza de ser eterno
que se transforma
o sólido
adentro da substância
ânsia da alma
aguardente

astromar
miracatu 11/12/1993

pedras

sempre me agarro numa
julgo sempre estar além do conceito
não há a existência de...
caminhos
as pedras são fatos
Pedro Pedra construiu igreja
e derrubou o muro
são fatos, as pedras
feitos
concreto, palavra,
ignorância
Pedro com pedra construiu
seu mundo

astromar
miracatu 26-02-1994

eu mesmo pus as pedras no sapato (prisão de poeira cósmica)

cor negra da morte violeta vem a mim
eu, o exemplo do humano
carrego complexos no fato
de não senti-los
necessidade de não senti-los
afasto a morte, o pensamento.

morte violeta,
ainda não te aceito

astromar
miracatu 1993/1994

os as

aaaaaaa
às
projetado a classificação da didática
e o "a" da abelha?
voou zunindo no horizonte

astromar
miracatu 1993/1994

o valor do dinheiro é o homem

é dor de barriga de um midas
é uma moeda que compra
a alma
homem, produto em baixa
no mercado-vida
só se alimenta do comum
tudo estruturado em valor da carne humana
(no meu caso, da mulherada)
...???...!!!...,...???.

astromar
miracatu 1993/1994

CINEMA

Imagens coloridas
imaginação, fantasias
flerte com o real
imaginário traços que divide.

Faça a coisa certa
Poderoso chefão
A última tentação de Cristo
Cinema Paradiso

Woody Allen disfarçado
Coppola fora de lente
Scorcese co Taxi driver
e Carlão o último dos Corsários!

Encontros Poéticos

O poeta Julio Costa , o cantor Giovane do Valle e o flautista Andre Mendes
1999.
Um sarau na casa do Poeta Julio Costa 1997

Saudoso poeta e violeiro Alan Muller(de chapéu),Osvaldo Matsuda,Nestor Rocha,Genêsio Jr,e o italiano Màximo(ao violão) .



Impureza do Branco de Carlos Drummond

Invisivel interferencia semantica
Pois penso, traduzo o que sinto
por meio de signo de linguagem
Dos quais segundo Bourdieu estão
todo nosso patrimonio cultural
herdado e preservado, base geradora
de todo o conceito e preconceito
Drummond,atraves de uma intervenção
poetica nos faz repensar os significados
normativos e consequentemente
interagir com fatos coisas pessoas de um
novo jeito
Produzindo com isso a diferença que segundo
Batson é a raiz da informação (in:North 1996)
Invisivel interferencia semantica
Impureza do branco
Neve leite alvo candido claro transparente
palido brancoso quse sem vida(ao contrario
brilhante) sem macula inocente idiota e ingenuo
Apenas ingenuo
Ingenuo não
Inocente e doce
Doce de abobora em calda
calda seiva sangue
Agua Postiça - Osvaldo Matsuda e Nestor Rocha

FAIXA DE GAZA

Avenida Georg Bush em Bagdá
Fale-me para sempre, maçã terra
eu te vi numa prisão em silêncio
de sua liberdade,
mais uma noite de caça
a nossa raça.
Noite queimada em febre
o medo, um satélite ao redor do homem,
o mundo moído em sua voz...
sobre cavalo do pó, cavados em pó...
uma noite sem existir
o franco atirador, produto bruto
noite águia para sempre,
Filhos do erro urbano
urinados
menino cinzento
monstro de lama, olhos de fogo
bolemia de ânsia em lágrimas
sólidas ameaças. O beijo digital da morte
a noite alagados de sonhos
amontoados em sorrisos
agarrados à garganta e à glote,
cavidade de matéria
mergulhadas na escuridão,
toda voz amanhecida
em um edílio bárbaro.
O mundo acabou ontem! e foi tão belo
em todo seu mergulho fórcepts
um pedaço de seu rosto preso
ao sapato rompido em grito
sem conselhos, sem soluços
corpos descansados
covas, carnes, terra santa!
o ventre rompido em distância

A vida
coisa alguma se fez para esculpí-la!
coisa alguma!
chamas eternas em Gaza
o beijo derretido
ele é o baleado
a dor esculpida.

Renato Rodrigues Cavalheiro