o céu de um lado a outro

Agora deco está em Santa Rita
Vivenciando o que eu dizia
Lá em são Paulo os seus ouvidos discrentes
De tudo o que ouvia
Agora déco vai contar
Aos seus colegas o que de mim escutava
E eles então vão sorrir
Dizendo uns aos outros
lá em Santa Rita, deco aprendeu a mentir
déco vai dizer que lá em Santa Rita
o céu fica mais perto
que o sol fica logo ali
bem do nosso lado
e lá no rio, no barranco
dá pra ficar sentado
e com um pente fazer um penteado
olhando o seu reflexo
nas águas cristalinas do Rio Preto
que é todo espelhado

o peixe no rio a gente via por todo lado
de piau fóba, piau barrigudo, curimbatá a dourado
o céu da noite reluzia
os pássaros e os grilos, estrelado
o mundo é um só
as pessoas com seus amores
as suas histórias

ê Geovane
o ar é o que a gente respira

Geovane/Déco
Santa Rita de Cássia/BA
18-07-2009

o canto da sereia no Rio Juquiá

como a água está boa...
está chamando...o canto da sereia.
Terra amarela... água amarela
o sol esquenta o corpo
e chama a água fria
quente e frio
dois corpos
quente e frio
água e sol : I...ARA
quando se entra com o corpo quente em água fria
dá o choque térmico.
Antes molhe as pernas, os braços e a nuca.
Depois pule. Só depois...
...se souber nadar.
Peixe aprende a nadar no fundo da água.
Mas quando a sereia, a Iara, a mãe do rio, cantar,
não pule na água de jeito nenhum.
Nessa hora a água brilha
um brilho diferente ...é a I ARA
e canta ii...água corrente.
o vento sopra
meio à serração
e dá o minuto de bobeira
todo mundo tem
todo dia
um
1
minuto
de bobeira
essa hora é perigosa
é o canto da sereia.
Só uma voz de fora
quebra o encanto
quem tá dentro
nada vê...encantado
se viu...se encantô.
Só uma voz de fora quebra o encanto.

Ei, mano
calma...calma...calma...
é só deixar a água te encostar no barranco

quem falô foi veiaco
quem deu a mão foi criança

Da’onde você é?
Conhece esse rio?
Entra com um pé só
em água que não conhece

A sereia ficou de longe
acenando...acenando...acenando...

déco
Barnabés (Juquitiba) 01-02-2000
(do livro "vento caminhador")

No meio daquelas pedras...lá, como foi contado.

Quem muito conversa, dá bom dia a cavalo
e a palavra de um home um cachorro num come.
Sempre foi assim. Mas o mais de tudo...
é a gente procurá dizê a verdade.
A mais pura e sincera verdade.
Como se a gente escrevesse
como a gente conta,
sendo a gente mesmo...
porque as istórias que a gente ouve
e a gente sente e lembra como a gente ouviu
...é como se tivesse acontecido
com a gente mesmo,
e se ela é verdade
é porque foi Deus quem mandou.
E por isso, por ela ser verdade e vir de Deus,
ela não tem dono.
Quem é que pode dizê?
qui é dono de uma istória acontecida.
Esses causos que acontecem com as pessoas
e que foi Deus quem mandou eles acontecerem
só pra gente aprender com eles.
Não são eles de todo mundo?
quem entende da cabeça de Deus?
Quem é também o doido de dizê
que essas istórias
aconteceram só prá ele...qui é dele?
...igual aquela istória...é minha gente...
Quem é qui qué qui essa istória aconteça com ele?
Seja dele?
Escuta só:...
Diz que uma minininha
que morava naquela casa da cachoeira.
Que casa mais bunita aquéla...
Ôh, Meu Deus, isso me faz lembrá de Sulinha.
dá uma tristeza só de lembrá da histórinha dela.
A coisa mais linda ela, alegrezinha,
vivia correndo atrás das borboletas.
É mesmo que tá vendo ela lá...agachadiiinha,
na bêra da cachoeira.
conversando com os pexiiinho...os lambariziiinho...
Ninguém pensava no perigo não...
Mais sofreu comadre Maria
que veio lá da capital
pro sossego dessas matas.
Perdê a filhinha arrastada nas águas...
no meio daquelas pedras...
ninguém sabe como foi não! ninguém viu!
A mãe só viu foi o sumiço e a tristeza.
Hoje o povo conta que o que se sabe
é que ninguém mais morô naquela casa
depois daquele dia
e que criança nenhuma não deve de brincá
sem cuidado lá não.
Prá estória não se repeti
a casa da cachoeira ficô assombrada.
Ficou lá ela perto daquelas águas frias...
naquela friage...
Naquelas tardes escuras de medo
como se fosse um aviso,
um sinal pros que chegam...
Com essa istória, muita gente fica se perguntando:
Se foi só pelo sossego que esse povo veio,
não era melhor ter ficado lá mesmo pela capital?
Uns acham isso,
outros já acham que sempre na vida
tem que se buscá o melhor,
sem se preocupá com a vida ou com a morte.
Outros ainda só acham que só é tristeza...
essa vida...essa istória...
Quem é qui qué qui esta istória seja dele?
Eu é que não quero.

déco
Araraquara 16-10-99
(do livro "Vento Caminhador")

Resgate de Poesias - 5

HEROÍSMO

Velas pandas, nem brancas, nem escuras
Emergem de improviso...
Por entre o perysal verde-amarello,
Impelindo canoas
Mal pintadas
Toscas, esburacadas,
Carregadas de lenha,
Cheinhas de esteira de pery
O ganha pão do pobre,
Do luctador anemiado
Despresado
Sem ambições
Sem conforto
Analphabeto
Semi-nu...
Do nosso irmão infeliz,
Que nasceu e vive sempre na penuria
Heróica e honestamente
Porque não sabe lêr...

XTO.

Fonte: Jornal "O IGUAPE" Iguape-Domingo, 22 de outubro de 1933.
Anno X - Num. 342

Resgate de Poesias - 4

Stoicismo

Na ternura sem fim desta cantiga
De ao passado voltar me desiludo.
Não tenho mais aquella crença antiga,
E até meu verso já não exprime tudo.

Qual profeta de olhar sereno e mudo,
Abençoando o mal que lhe castiga,
Quero bem ao soffrer -meu suave escudo,
Quero ainda mais esta paixão amiga.

E abro os braços ao céu, desalentado,
Na extrema exhortação de um bem amado,
Na última prece da agonia extrema.

E lá no céu, por milagre santo,
Todos os astros se desatam em prantos,
Sagrando em luz a minha fé suprema.

ADOLPHO TOURINHO

Fonte: Jornal "O IGUAPE" - Iguape-Domingo, 08 de outubro de 1933.
Anno X - Num. 341

Não deixe os cães ladrarem

A ORDEM VEIO! Não deixe os cães ladrarem!
É preciso que fiquem sossegados!
Mantenha-os sempre bem alimentados!
Para que eles não parem, não! Não parem

De consumir produto nosso. Cão!
Mantenha os cães felizes no seu canto
Sem consciência que são cães, enquanto,
Nós criamos a nova ordem, irmão!

Precisamos dos cães consumidores!
Precisamos dos cães aquietados!
Precisamos dos cães todos felizes!

Assim mantemos o mundo e suas dores.
Assim mantemos o mundo e os coitados.
Assim mantemos o mundo e infelizes!

Osvaldo Matsuda
(SP, 08 de abril de 2009)

A MENSAGEM DO NAUFRAGO


A MENSAGEM DO NAUFRAGO

Domingo fui até a praia. Caminhava pelas areias quando tropecei numa garrafa trazida pelas ondas do mar. Dentro uma folha de papel. Curioso, abri a garrafa e li o texto:
- Estou numa ilha deserta, cercada por tubarões famintos. Não tenho como escapar por meus próprios meios. Por favor, help, per favore! Quem estiver lendo essa breve mensagem venha salvar-me que será bem recompensado.
Primeiramente descubra em que ilha estou, pois tudo o que vejo é mar. Desculpa! É óbvio. Uma ilha é um pedaço de terra cercada por água
por todos os lados. Posso confirmar que a descrição é correta.
Tenho dinheiro lavado em uma conta secreta em Pariquéra. Escolhi esta cidade por acreditar que todos pensam que dinheiro obtido por meios ilícitos é levado para a Suíça. A grana não é suja, fique tranqüilo, foi lavada e secada antes de ser por mim depositada.
Aqui na ilha não estou totalmente a sós. Encontrei um macaco problemático, creio que foi exilado nesse local devido a seu estranho comportamento. Não conte para ninguém, aliás, isso nem interessa, ele é tarado. Como dependo dele para apanhar cocos, estou consciente dos riscos e tudo que padeço é para sobreviver. Nem devia ter contado isso, mas como não tenho borracha para apagar, faça de conta que não leu.
Esse macaco demoníaco pensa que sou a cereja do bolo, uma Messalina sempre disposta a todas as libidinagens que só um símio selvagem e bestial pode concretizar. Nunca imaginei suportar tudo o que agüento sorrindo, mas o monstro, digo macaquinho, não gosta de me ver choroso e assim compartilho mudo, ele não entende português,toda a sua descarada e sensual devassidão.
Caro banhista! Se a garrafa foi levada pelas ondas do mar, então será encontrada em uma praia, por isso estou me dirigindo a sua pessoa como banhista. Caso você me resgatar será bem recompensado. Que tal dez mil reais? Palavra de naufrago! Caso traga uma jaula e conseguir levar o macaco, dar-lhe-ei quinhentos mil reais. Palavra de apaixonado.
Vou jogar essa garrafa ao mar, o macaco já está nas preliminares e se mostra tremendamente sacana e mau quando não lhe dou a devida atenção.
Obrigado

Obs. - Não esqueça a jaula.

Cada coisa que a gente encontra em beira de praia. Tantos fatos estranhos ali acontecem. Eu hem!

GASTÃO FERREIRA/2009

DIA DO AMIGO


AMIGOS

Plantei a flor amizade
Reguei com dedicação.
Dei um nome à saudade
Ao amor e a gratidão...

Tantos andaram comigo
Me incentivando a vencer
Alguns levaram consigo...
Um pouco de meu sofrer!

Por outros ares plantaram
As mudas do meu jardim.
Amigos que me deixaram,
Todos, pedaços de mim...

Os juntarei novamente
Quando chegar minha hora
E os levarei de presente
A Deus e a Nossa Senhora!

Gastão Ferreira/Iguape/2009

O POÉTA É O VENTO


O POÉTA É O VENTO

O vento vinha ventando pelos caminhos do mundo. Espiava sobre os telhados, sobre velas de jangadas. Cantava pelas esquinas, ventava pelas estradas.
O vento perdeu o rumo numa noite sem luar e dormiu feito criança sonhando com o seu ventar. Acordou na madrugada ouvindo um galo a cantar e La no alto do monte o vento ficou espiando a cidade despertar. Viu o povo batalhando na procura do melhor, professor professorando, pedreiro a pedreijar. O pastor pastoreando, a criança a estudar. O rio sereno buscando as águas azuis do mar. E o vento encantado, com tudo o que ele via, da cidade enamorado, pelas esquinas corria.
Viu a velha na janela olhando o fim da rua. Ouviu riso de menina, ouviu prantos e canções. Viu na mesa de quem come o que no prato restou, viu mendigo mendigando que com fome despertou.
Viu amor e abandono. Viu tristeza e solidão, viu o pobre e o rico, viu o doente e viu o são. Viu pessoas trabalhando em diversa profissão. O amor abrindo portas, ódio fechando em prisão. Viu um dedo apontando a beleza e a podridão. Muita gente se encontrando, outros perdendo a razão. Viu olhares de incertezas, viu desprezo e safadeza em quem nunca se amou. Viu orgulho, viu pobreza, viu bondade e viu horror. Viu maldade gratuita, coração enganador, viu gentinha se achando ser de tudo o senhor. Viu sonhos desencantados, ouviu gritos de agonia. Amantes desesperados vivendo de fantasias.
O vento quedou-se mudo. Só ventar é o que sabia. O vento nunca pensou que essa cidade existia. Soprou no banco da praça uma brisa de alegria e os casais de namorados o seu beijo ali sentiam. Soprou no adro da igreja e o rezador se benzia. Soprou no supermercado, nos bares e padarias, no varejo e no atacado, na porta do cemitério. Soprou por todos os lados, soprou por sobre mistérios.
Na cidade já desperta, o povo se perguntava:- Que será que acontecia que o vento tanto ventava?
O vento sabia tudo, tudo o que se passava. Corria de casa em casa e a tudo espiava. Passou pelos gabinetes dos mandantes do local. Ouviu risos e palpites, viu o bem e viu o mal. Leu na banca de revistas as notícias no jornal. Viu ladrão e viu polícia, viu os barcos no canal...

O vento ventou mansinho, pois de tudo ele entendia, em sua vida de vento ventava todos os dias. Afastou-se da cidade, sobre a montanha dançou e depois seguiu ventando e de tristeza... Chorou!


GASTÃO FERREIR
www.gastaodesouzaferreira.blogspot.com

CAFÉ COM LULA


CAFÉ COM LULA

Numa cidade muito distante, nos confins do Brasil, pólo turístico e cultural invejável. Cujos dirigentes eram pessoas educadas e amadas por seus concidadãos. Um paraíso na Terra, onde ninguém era perseguido e a imprensa livre para manifestar suas opiniões, ocorreu um fato inusitado que marcou profundamente a história da longínqua e rica cidade.
Os preparativos para uma grande festa estavam concluídos. Os estoques de foguetes vistoriados, seguranças contratados entre os amigos, discursos decorados. Foi quando a notícia vazou:- Lula tomaria um café por ali!
Foi um Deus nos acuda! Cinco bispos correram à cidade. Três governadores comunicaram com urgência urgentíssima que fariam questão de prestigiarem a festança e que trariam consigo centenas de prefeitos de seus estados.
Reservas de hotéis, feitas com antecedência de meses, foram canceladas na marra em favor das autoridades visitantes. Os melhores restaurantes ficaram a serviço dos excelentíssimos e suas portas, por ordem dos donos da cidade, vigiadas para que nenhum pobre ou curioso soubesse o que os manda chuvas comeriam e beberiam de graça.
Os setecentos mendigos vindos unicamente para achacarem romeiros foram levados para local ignorado e após régia gratificação conduzidos a uma cidade próxima onde ocorreria outra festividade. Aos quarenta moradores de rua, hóspedes permanentes do município, ofertaram um “luau” forçado em uma praia num leste distante, afastando-os definitivamente do centro e arredores da urbe.
Um habitante da localidade, cuja finíssima educação fora cantada em prosa e verso em todos os jornais regionais! Um tipinho grosseiro e caipira que nunca tinha saído além das fronteiras do município, mas que se achava à cereja do bolo foi convidado a recepcionar o presidente.
Na noite que antecedeu a festa houve toque de recolher, pois no dia seguinte o “homem” estaria por ali. A garotada do mal foi confinada em suas casas com a promessa solene de que após as festividades poderiam detonar o que bem quisessem como sempre faziam e sem cobranças.
Graças ao Bom Protetor a população ao menos uma vez na vida atendeu aos apelos da autoridade, pensando mais no bem estar de todos do que em si mesma. As menininhas boas como sempre não reclamaram e ficaram rezando em suas casas. As más, as freqüentadoras de forrós, danceterias e barraquinhas mal afamadas tentaram uma revolta contra a autoridade. A autoridade, com todo o amor do mundo acabou com a alegria das garotas do mal, informando que se não cumprissem o solicitado todas as espeluncas da cidade seriam vistoriadas e fechadas após o término dos festejos. Foi só por isso que colaboraram, pois certamente ponderaram:- O que é uma noite sem esbórnia, sem porre, sem gritos na rua, sem drogas, comparada com o restante do ano!
Ao alvorecer do esperado dia foi tão intensa a foguetada que até hoje os urubus não retornaram a seus ninhos nas montanhas. Onze horas da manhã e o visitante não comparecia. O povão na espera. Romeiros se babando, de olho num sonhado beija mão. Turistas ávidos por turistar, mas na expectativa. Todos com suas melhores roupas e melhores sorrisos. Milhares de pessoas comportadas frente às autoridades sentadas sob luxuosos palanques armados ao redor da praça.
Um único bêbado chamava a atenção dos presentes. O tipinho grosseiro que fora contratado para os salamaleques oficiais, foi tirar satisfação:- Cretino! Gentalha! Eu mando te matar! Onde foi que você bebeu se EU proibi bebidas alcoólicas por 24 horas antes de o ilustre chegar?
- Ah seu tipinho!Eu bebi na barraca “Café com lula”.
- Café com lula?
- Sim! Uma barraca de lona velha e suja perto da entrada da cidade.
- Meu Protetor! Como vou explicar a todo esse povo que tudo foi um engano! Algum gaiato viu o nome da barraca:- Café com lula e saiu por aí dizendo que Lula vinha tomar um café na festa, que será de mim?Oh xente!(Esqueci de informar que a cidade era na Bahia) Que vexame! Salvem-se quem puder que o bicho vai pegar, gritava histérico para os convidados.
Essa festa ficou para a história. Foi à única na velha cidade baiana em que os mendigos não importunaram os romeiros. Todos os visitantes se comportaram como pessoas civilizadas e todos os participantes levaram como recordação gratuitamente pedaços das luxuosas acomodações oficiais que restaram da pancadaria. Para os habitantes ficou uma lição:- Povo unido jamais será vencido!

GASTÃO FERREIRA/2009
Obs.:- Esse texto é totalmente fictício. Qualquer semelhança (aliás, nem existem semelhanças!) com a realidade é mera coincidência.

FESTA JUNINA - CASAMENTO NA ROÇA


FESTA JUNINA – CASAMENTO NA ROÇA

Oi amigão! Tenho novidades. Papai me levou para assistir a um casamento na roça, disse que faz parte de minha formação como cidadão e quero compartilhar com você esta nova experiência. Foi no centro de eventos de minha cidade. Armaram uma tenda enorme e lotada de convidados, de um lado os ricos e do outro os pobres. No lado dos sem futuro tinha espetinhos de carne, pipoca, quentão, quentão e quentão. No lado dos sempre bem favorecidos, tainha na brasa, costela assada, salada de maionese, arroz, cerveja e uísque.
O casal de noivos, Karlota e Kassiano estavam uns amores, só beijim beijim. Ela vestia uma cobra tatuada e ele um velho terno caipira feito de panfletos que não foram distribuídos em um grande evento passado. A mãe da noiva, dona Todamor pagou a festança, dizem que só em foguetes foram vinte mil reais, bem mais do que foi gasto no carnaval, também casamento de filha querida é coisa para ficar marcada para sempre. Os comes e bébes dos pobres ficaram em quinhentos reais e a comilança dos ricos em setenta e cinco mil reais. Puxa! Como o rico come e o pobre paga a conta!
O que não entendi é que toda à hora se agradecia a um Papai Noel que tem um som. Papai Noel não tem um trenó? A noiva ganhou do bom velhinho sua décima TV de plasma de cinqüenta polegadas e sua mãe também foi mimoseada. Apresentaram um coral com cantores vestidos de anjos e arcanjos, que foram regiamente presenteados pelo Papai Noel do som, digo, do sem trenó. Esse Papai Noel foi muito bonzinho. Para as crianças dos ricos distribuiu até computadores e para nós pobres jogava balas, ainda bem que eram balas de açúcar e não de chumbo.
Voltando ao casamento. A noiva estava radiante, poderosa, charmosa como sempre e sua madrinha era uma “zinha” com os óculos na ponta do nariz, que fazia cara de nojo para o povão que ria de seu cabelo desgrenhado. Os convidados especiais que estavam ocupando a parte nobre da grande tenda, pareciam desconfortáveis, papai disse que era por causa de retaliações causada por uma tal prestação de contas, concurso cancelado, destroca de favores, sei La! Coisas de gente honesta e transparente. Mas tudo foi resolvido pelo Papai Noel sem trenó que após cochichar com dona Todamor, a mãe da noiva, entregou a cada um dos especiais um envelope, creio que era um convite para algo muito importante, pois todos eles pararam de fazer beicinhos.
A festança voltou a ficar animada. A noiva jogando beijinhos para os pobres e flertando com os poderosos. A coisa ficou feia na hora da dança da quadrilha. Quando chamaram a quadrilha para dançar, começou um empurra empurra entre os convidados especiais e a baixaria tomou conta, ofensas, palavrões. Falaram coisas que eu não entendi, notas fiscais frias, superfaturamento, favores negados, nepotismo, em fim todas estas palavras que não compreendo. Os seguranças da festa ficaram inseguros e sobrou pancada para todo o lado. Meu pai e alguns amigos foram embora do local antes que sobrasse para eles e fomos assaltados pelos rapazes do bem, que roubam uísque em supermercados e roupas de grife nas lojas, mas que ninguém fica sabendo por que são de famílias de bem. Pedimos carona à turma do mal, e como estavam todos de mal nos trouxeram em segurança até a porta de casa.
Foi o melhor casamento na roça que assisti. Ainda estou em dúvida se acrescentou algo ao meu aprendizado como cidadão. No ano que vem, se a noiva não morrer, for abandonada ou fugir da cidade, vou pedir ao papai para convidar você para nos acompanhar. Um abraço

Seu amigo Dudu
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE
www.gastaodesouzaferreira.blogspot.com
Obs.:- Esse texto é uma obra de ficção. Não tem nada a ver com a realidade. Não vistam carapuças que não lhes pertencem. Os personagens só existem em minha imaginação, não
Cerquem minha criatividade com agressões e chiliques, nossa cultura não merece isso, são os
os escritores que presenteiam o futuro com histórias para vossos descendentes.

VIGIA NOTURNO


VIGIA NOTURNO

Sexta-feira, 13 de agosto, 23h45min. Meu local de trabalho? Prefeitura municipal de Pindaíba. Meu cargo? Vigia noturno. O prédio é antigo, palco de tantas e sofridas lutas políticas. Arquivo das memórias dos que por ali passaram na árdua tarefa de trazer progresso à cidade. Ouço passos no andar superior e um inquietante arrastar de cadeiras. O piso de madeira estala. Quem a esta hora tardia caminha na escuridão? Um ladrão em busca de segredos guardados no velho cofre? Uma autoridade que esqueceu um documento? Melhor verificar, é meu trabalho.
Subo silenciosamente pela escada, dobro o corredor, as luzes estão apagadas, apenas o luar ilumina a secretaria ao lado do gabinete, pela porta entre aberta passam vagos sussurros. O dever fala mais alto, vencendo o pavor que me domina espio pela fresta da porta.
Em volta da sólida e antiga mesa de reunião, movem-se negros vultos com roupagens do passado. Reconheço alguns já vistos em antigas fotos oficiais. Oito sombras na penumbra da sala ditam seus conselhos.
Na cabeceira da imponente mesa, alguém presta atenção às vozes do passado:- Seja você mesma! Vire o cocho! Olho no cofre! Mate os bernes! Compre a quem se vende! Acabe totalmente com o pedágio! Invista em imóveis! Não esquenta, todos passamos por isso! Faça regime! Viaje mais! A vida e o poder são breves, aproveite ao máximo! Aos inimigos? Retaliações! O poder embebeda e vicia!Faça uma grande obra, teu nome estará nela futuramente!Não solte o osso!Aos amigos?Tudo.
O vulto a cabeceira da mesa vai justificar-se perante seus antecessores no cargo. Seu olhar aflito, mira um por um os participantes da estranha reunião. Penso! Agora finalmente serei conhecedor dos segredos que envolvem nossa atualidade, planos, métas, transparência total de mistérios tão bem guardados.
Um grito corta o silêncio e estou debruçado sobre minha mesinha de vigia no andar térreo. Suado e trêmulo ainda sinto as presenças do passado. Em coro os adolescentes tornam a gritar na esquina. Acordo totalmente. Ufa! Que pesadelo.

Gastão Ferreira/2009
Obs.: Esse texto é totalmente fictício.

CARAPUÇA/CORRUPÇÃO


CARAPUÇA CORRUPÇÃO

Cultura! Pra que cultura?
Se falo só palavrão...
Por dentro todo grossura
Por fora só caiação...

Tudo que tenho na vida
Afanei do teu salário
A minha alma vendida
É alma de salafrário...

Cuspo na cara do pobre
Do rico sou servidor...
Vivo na lama mais podre
E faço pose de doutor!

Queres saber o meu nome?
Presta melhor atenção:
- Eu vivo da tua fome...
Meu nome é CORRUPÇÃO!

Gastão Ferreira/2009

AH! IGUAPE


AH! IGUAPE

Iguape minha Princesa,
Princesa do litoral...
Tenha contigo a certeza
És o meu bem e meu mal!

O meu bem são tuas matas
O teu ar puro é de mais...
Velhas ruas em que retratas
Casarões... Sonhos... Quintais!

Tua gente cancioneira
Festa em todo o lugar.
Em mim és mãe feiticeira:
- Vim aqui e fiz meu lar!

Mas o mal que te envolve
É a negra politicagem...
Dois véus tua face encobre
O dinheiro e a sacanagem.

Mas quem sabe chegue o dia
De virar a mesa e o prato...
De acabar com tanta orgia,
De ser Princesa de fato!

GASTÃO FERREIRA/2009

AI QUEM ME DERA


AI QUEM ME DERA

Ai quem me dera não sofresse tanto
Por carregar essa ilusão sem fim...
Ai quem me dera não perder o encanto
E crer nos outros e muito mais em mim...

Ai quem me dera eu pudesse um dia
Abrir janelas, portas e quintais...
Rever uma vez mais os risos e alegria
Que já partiram e não voltam mais...

Ai quem me dera partilhar o sonho
Matar a fome... Expulsar a dor...
E ser feliz e nunca mais tristonho
Pintar meu mundo de uma nova cor!

Ai quem me dera ter tantos amigos
Pra dividir meu sonho e meu amor!
E pelas trilhas caminhar comigo...
Na tarde mansa, primavera em flor!

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009

BARROSO & ANADIR/MEUS PAIS


BARROSO & ANADIR/MEUS PAIS


Ah! Se eu pudesse retornar o tempo
Que já passou e que não volta mais...
Sentir de novo o teu braço atento
... Eu beijaria e te abraçava mais...

Ah! Se eu pudesse retornar a tempo
Para dizer como os amei de mais...
Eu não chorava e soluçava ao vento
Vendo suas fotos meus amados pais!

Ah! Se eu pudesse reverter o tempo
Ver a criança tão feliz que fui...
Ah! Se eu pudesse, tolo pensamento
O tempo passa e jamais reflui...

Mas se pudesse só por um momento
Beijar seus rostos só uma vez mais
Eu vos diria como eu lamento...
Nunca ter dito que os amei de mais!

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009

LONGE DE IGUAPE


LONGE DE IGUAPE

Tão longe de minha terra
Sem os sussurros do mar,
Oh longo tempo de espera
Mas um dia hei de voltar!

Quero rever a Juréia
As montanhas tão serenas
Ir à festa em Cananéia
Tantas lembranças amenas

Dançar forró no Rocio...
Navegar no mar pequeno
Saltar da margem do rio
Remar canoa sem remo.

Ah! Se saudade matasse!
Eu já teria morrido...
A dor no peito renasce
Nunca fechando a ferida!

Iguape em minha memória,
Rio correndo para o mar
Pescador contando história
Sereias... Sonho e luar...

GASTÃO FERREIRA/2009

LOGOTIPO DA ACADEMIA VALERRIBEIRENSE DE LETRAS



CONCURSO DE DESENHO DA ACADEMIA VALERRIBEIRENSE DE LETRAS - EM FORMAÇÃO - TEVE COMO VITORIOSO:








JOSÉ HENRIQUE DA SILVA CORRADINI




DA CIDADE DE BRASÍLIA




O vencedor receberá uma máquina fotográfica digital e livros de autores locais.

Hoje baronesa, amanhã condessa

(Conto, por Roberto Fortes)

Os historiadores garantem ser verdadeiro este episódio, conquanto sejam reticentes em apresentar documentos comprobatórios. A darmos razão a certo iconoclasta inglês, não devemos acreditar num historiador; ele sempre falseia a verdade. Pela mesma razão que não devemos acreditar num padre; mas deixemos este quieto em seu canto, que já tem trabalho de sobra em seu bom combate contra o mal. Fiquemos apenas com os historiadores, dos quais Heródoto foi o primeiro; e devemos acreditar nos seus relatos tanto quanto acreditamos que a Marquesa de Santos foi uma puritana.

Diz a crônica que, no mês de julho de 1825, a Vila de Xiririca recebeu a visita de Sua Majestade o Imperador D. Pedro I. Muitos tem se perguntado – e não lhes pode ser negado o espanto – o porquê de o Imperador ter cismado em visitar a Vila de Xiririca. Neste ponto há divergência entre dois ilustres historiadores. Varnhagen assegurou, pelo hábito da Ordem de Cristo, do qual era cavaleiro, que o motivo da visita estava ligado aos interesses estratégicos do Império do Brasil em evitar a guerra contra a República da Argentina. O Imperador não se deslocaria para um lugar distante e de difícil acesso se não se tratasse de relevante assunto de Estado. Já Capistrano de Abreu, embasado em conjeturas um tanto discutíveis, afirmou que o motivo só poderia estar relacionado ao interesse do Estado em assegurar a permanência dessa parte da Província de São Paulo, ambicionada pelos argentinos. (Por lapso do cronista, não foi mencionado que esse episódio se desenrolou – ou teria se desenrolado – ao tempo da Guerra da Cisplatina).

– É nada! O Imperador veio pra cá porque estava de chamego com a Baronesa de Xiririca! O finado marido, que nunca teve influência na Corte, só virou barão porque o Imperador sempre arrastou as asas para a futura baronesa...

– O Barão de Xiririca decerto deve ter desconfiado das intenções do Imperador. Mas, macacos me mordam! Ainda se a baronesa possuísse os encantos da dona Domitila...

– Mesmo que desconfiasse, um título de barão limpa a reputação de qualquer um.

– Até de esposo ludibriado... O Imperador e comitiva ficaram hospedados no solar do barão?

– Sim. Mas o Imperador não veio com uma comitiva. Veio somente com o seu secretário, e também alcoviteiro, Francisco Gomes da Silva, de alcunha o “Chalaça”.

– Os jornais oposicionistas da Corte devem ter deitado e rolado, em especial, a “Aurora Fluminense”, do Evaristo da Veiga, pois não?

– Isso eu não sei. Não leio a imprensa da Corte, só os bandos reais que são afixados na porta da Igreja Matriz.

Os detalhes dessa obscura visita do Imperador D. Pedro I à Vila de Xiririca, por mais que tenham sido esmiuçados, não deixaram registros precisos. No entanto, Antônio Paulino de Almeida encontrou umas anotações do secretário “Chalaça”. Essas notas, escritas com umas letras corridas e nervosas, ficaram registradas numa caderneta, esquecida sob o colchão da cama na qual dormiu o secretário. Caderneta posteriormente encontrada por uma das escravas da casa, que conseguiu a alforria misteriosamente.

– E além da carta de alforria, eu quero que sinhá me dê aquele vestido de baeta que o Imperador deu pra sinhá...

– Isso é um absurdo! Jamais, sua negra atrevida!

– Sinhá se aprecate, que eu conto tudinho pro sinhô barão...

– Leve também este colar de pérolas que Pedro tirou do porta-jóias da Imperatriz, minha boa e dedicada mucama...

– Sinhá é mermo um anjo de bondade! Que Deus nosso sinhô conserve sinhá por muitos anos...

Paulino de Almeida nunca esclareceu como essa caderneta veio parar em suas mãos. Talvez a tenha encontrado numa prateleira esquecida do Arquivo do Estado, onde trabalhou por décadas. Essas anotações, caso sejam fidedignas, parecem ser bastante esclarecedoras.

“14 de julho de 1825 – Depois de muitos dias sacolejando por estas estradas abomináveis da Ribeira, que mais se assemelham a picadas de bugres, chegamos à Vila de Xiririca. Bem conheço os desvarios do meu senhor, mas, francamente, trocar os encantos da bela Domitila por um roceira enfeiuscada e boçal como a Baronesa de Xiririca, só pode significar que o meu senhor está desvairado. E, o que é pior, ainda se expor a uma situação dessas. Os republicanos, segundo me informou o serviço de inteligência do Império, pensam em dar um golpe de Estado e, vejam só, exilar o meu senhor na Vila de Sant´Anna de Yporanga, mais precisamente na Gruta do Monjolinho. Até que não seria de todo mal. A água fria da gruta talvez lhe restitua o siso perdido.

“16 de julho – A despeito do ar disfarçadamente ingênuo, não creio que o barão seja de todo desprovido de senso de observação. Percebo que ele está a desconfiar. A escravaria da casa põe-se a cochichar pelos cantos sempre que o meu senhor fica a sós com a baronesa. Ouvi um negrinho comentar com outro que, de madrugada, quando o sinhô está ferrado no sono, o meu senhor e a baronesa discutem altos negócios de Estado no quarto de hóspedes.

“19 de julho – A situação está ficando perigosa. Esse maganão do meu senhor não se emenda, mesmo com as advertências que ousei lhe dar. Pois veja só que desajuizado: convidou a baronesa para ir com ele se refrescarem nas águas da Ribeira! O barão, naturalmente, concordou, e até expressou no rosto simulado um sorriso de contentamento. Um negrinho da casa me jurou pelas chagas de Cristo que ouviu o seu sinhô falar sozinho, enquanto esfregava as mãos:
“– Minha valiosa esposinha! Vá-me baronesa e volta-me condessa!...”


Terminam aqui as anotações do secretário “Chalaça”. As demais páginas parecem ter sido arrancadas. Alguns estudiosos acreditam que foram aproveitadas por Paulo Setubal em seu livro “As Maluquices do Imperador”.
(Esta é uma obra de ficção)

Biodiversidade ícone

Caminharemos de mãos dadas, vítimas
Que somos de um ambiente degradado
Biodiversidade ícone de um brado
De sermos mais felizes do que as rimas

Desta modernidade alucinada,
Sequiosos de: bem, felicidade,
Amor, riqueza, paz... Mas, na verdade
Infeliz na sua própria morada!

Caminharemos sempre avante, em frente,
Sabendo que um desastre (que iminente!)
Já bate em nossas portas descuidadas

Cobrando certamente anos de abuso
Indevido das fontes boas (quanto uso!)...
Reservas naturais amortalhadas!

Osvaldo Matsuda
(SP, 08 de abril de 2009)
Poema de ver


Os homens velhos braçais começam o dia tirando areia da rodovia
A serração desce a serra, veste ela de branquinho...
As duas frutas teimosas penduram esperança nos galhos secos de uma árvore
A menininha assustada olha o mundo do banquinho da bicicleta
O sol ensaia um azul lá no alto do céu
E eu olho...
Minhas retinas fatigadas amanhecem as coisas, fotografam a vida dentro de si.


Paloma

13/02/06

Haicais experimentais

Haicaizinho açucarado

Para minha sobrinha, de aniversário

Mel milagre
Doce
De abelha e flor

18/05/07



Na Ilha

Um tssuru
passou voando
garça de papel

janeiro de 2009



Noite de junho

Açúcar vazio
Até as formigas
estão com frio

03/06/09

RECHEIOS DE IMPACTOS AMBIENTAIS

O aumento da biomassa humana, item
Causador de transtorno em vidas que antes
Tinham situações mais significantes
E abrangentes; um fato novo tem

Mostrado que o equilíbrio em desconcerto
É qual bomba-relógio na iminência
De explosão! Causadores – diz a ciência –
De impactos ambientais graves e o acerto

É morte e extinção! São os tais recheios
De impactos ambientais estruturados
Não no aspecto genético formal

Mas, em vícios humanos que estão cheios
De sangues de biomassas dizimados
Pelo processo humano cultural!

(SP, 10 de junho de 2009)
Osvaldo Matsuda

A fuga

As batidas na porta da sala não paravam. Vinicius tentava tapar os ouvidos, mas não conseguia impedir. O som dos socos e pontapés que seu pai dava na porta da sala, não paravam. Nilza, mãe de Vinicius queria impedir que Avelino entrasse em casa. Estava bêbado novamente. E como sempre nervoso. Avelino era um homem forte, trabalhava como “chapa”1 desde que perdeu o emprego, há mais ou menos um ano, e o pouco que conseguia durante o dia, bebia tudo e mais um pouco, no bar do seu Juvêncio, que ficava na esquina.
Nilza se virava, vendendo salgadinhos e doces na rua. Vinicius a ajudava sempre que podia, quando voltava da escola.
“Que saudades do antigo Avelino”, dona Nilza sempre falava isso. Na época que ele não bebia e não batia nela. Era uma boa pessoa. Mas agora, bastava beber para se transformar em outra pessoa. Um animal.
Lá fora, largou a esteira de impropérios contra sua esposa e às vezes, contra o seu filho e contra qualquer um que se metesse em seu caminho. Os vizinhos, incomodados com a gritaria, começaram a acender as luzes e alguns até se atreviam a abrir a janela. Avelino gritava e esbravejava, dizendo que não era da conta deles e chegou até a jogar uma garrafa contra uma das casas.
Avelino consegue arrombar a porta e vai direto para o quarto. Encontra sua esposa sentada sobre a cama com a cabeça baixa.
- Ô sua desssgraxada, não me ouviu batendo na porrrrta não? - Disse Avelino, com a voz arrastando como se sua língua estivesse inchada.
Nilza não respondeu e continuou com a cabeça baixa.
- Ô sua desssgraxada, tá ficando surda?
- Eu ouvi sim e toda a vizinhança também.
Diante de tal resposta, Avelino esticou o braço esquerdo e deu um sonoro tapa em Nilza.
- Sabia que tem lei contra isso? Um dia eu fujo daqui.
- Tá pessssando que xou algum gnorante? Eu sei desssa lei da Maria de “não sei o quê”. E isprimenta fugi pro se vê se num te acho e te trago pelos cabelo. – dizendo isso Avelino deu um soco em Nilza, jogando-a para o chão. Ela bateu a cabeça no guarda roupa e desmaiou. Avelino, mal se agüentando em pé, tombou na cama e adormeceu também.
No meio da noite Nilza acorda. Tudo doía. Tinha um hematoma na cabeça, resultado da batida no guarda roupa. O lábio estava inchado e partido e estava sangrando pelo nariz, devido ao soco que levara. Todo o seu braço esquerdo e sua camisola estavam manchados de sangue. Ficou sem entender. Não podia ser o dela, pois já estava seco. Tentou se levantar e sua visão escureceu acompanhada de uma forte dor de cabeça. Quando as imagens começaram a ficar clara, viu seu marido jogado sobre a cama e o sangue pingando na lateral. Viu seu filho num canto do quarto com uma faca manchada de sangue na mão.
- Filho, o que você fez? – Disse Nilza desesperada correndo de encontro com o menino.
- Eu escutei ele gritando com você mamãe. Ele te machucou. Depois eu vi você cair e pensei que ele tinha matado você, então eu matei ele. Desculpa mamãe. – Vinicius começou a chorar e Nilza o abraçou forte.
- Venha meu filho. Temos que fugir.

Fim

1-chapa.: Trabalhador autônomo

Alguns detalhes interessantes que descobri enquanto escrevia esse texto.

A CADA 15 SEGUNDOS uma mulher é espancada. A cada nove segundos uma mulher é ofendida na conduta sexual. Também a cada nove segundos uma mulher é desmoralizada no trabalho doméstico ou remunerado. Mulheres negras têm mais chances de serem estupradas que as mulheres brancas.
A lei citada no texto é a Lei Maria da Penha. Ela foi sancionada pelo presidente da república no dia 07 de agosto de 2006, a lei é a 11.340/06.
Mais detalhes no site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_maria_da_penha


por Jack Sawyer

JAPÃO



Manhã de quarta-feira.


Alan estava eufórico. Afinal conseguiria sua tão sonhada viagem para o Japão, através de um intercambio. Seria neste fim de semana. Não conseguia se conter de tanta felicidade. Mas coisas estranhas começaram a acontecer.
Ao preparar seu café da manhã, por acidente, deixou a caixa de cereais cair na mesa e derrubar quase todo o seu conteúdo. Na afobação de tentar aparar a queda, esbarrou na caixa de leite e a derrubou no chão. Não se importou muito, pois havia só um pouquinho. Iria se atrasar. Resolveu limpar toda a bagunça antes. Retirou primeiro a louça e os talheres, quando voltou para limpar os cereais, parecia que havia letras nos espaços vazios, antes ocupados pelas louças. Parecia a palavra “NÃO”. Não ligou muito, juntou tudo e foi limpar o chão. Olhou o relógio, não daria tempo. Pegou a mochila e saiu. No chão, o leite escorreu pelo vão entre os pisos e formava a sílaba “VA”.
O ônibus demorou a chegar na escola devido a um acidente de trânsito. Um sedan bateu em um caminhão de tubos de aço. O motorista morreu na hora com um tubo que atravessou o pára-brisa.
O bizarro foi o sangue espirrado no vidro traseiro do sedan, que pareciam formar as palavras “NÃO VÁ”.
Alan não viu. Não queria olhar. Era muito sangue para começar o dia.
Na escola, tudo transcorreu bem. A euforia continuava e a visão do acidente não abalou sua alegria. Recebia parabéns de vários colegas que sabiam da sua viagem.
Durante a aula de língua portuguesa, o professor pediu que acompanhassem a leitura de um texto no livro de exercícios. Parecia que sua mente lhe pregava peças pois as palavras “não”, “vá”, “agora”, “ainda”, “desista”, ficavam dançando em seu campo visual, como se estivessem em negrito, se destacando do texto. Tentou se concentrar e tudo voltou ao normal. Talvez estivesse impressionado por causa do acidente.
Quando toca a campainha de fim de aula, ele espera os outros saírem enquanto arruma suas coisas. Já estava de saída quando um dos vidros da sala se espatifa.
Assustado corre até o canto da sala com mais alguns colegas para ver o que tinha acontecido. Um pobre beija flor havia atravessado o vidro. Ainda se debatia em meio aos cacos.
Já em casa, achou melhor não comentar nada, pelo menos o da escola, pois o acidente da rua seus pais já sabiam.


Tarde de quinta-feira


Alan estava andando de bicicleta com os amigos quando resolveram que queriam dar uma festa de bota fora para Alan. Seria na sexta à noite, na véspera de sua viagem. Ele achou a idéia legal e aprovou.


Manhã de sexta-feira

Já na escola, Alan não se continha de alegria, não via a hora de o sábado chegar. No intervalo “recreio”, Miriam, uma mestiça japonesa veio falar com Alan. Era esquisito. Ela era sempre tão tímida, só conversava se falassem com ela. Talvez queria se despedir dele e dizer que não iria a festa.
- Alan gostaria de falar com você um instante.
- Pode falar Miriam – respondeu Alan todo simpático.
- Sabe... não é fácil pra eu falar abertamente assim mas... eu não ficaria tranqüila se não te disse isto.
- Pois então diga.
- Adie sua viagem. Não vá no sábado. Vá no domingo. É mais calmo.
- Não. Estou aguardando isso há tanto tempo, não vou esperar nem mais um dia.
- Eu falo sério. Andei tendo sonhos horríveis, mesmo antes de saber de sua viagem.
- Isso é besteira – rebateu Alan – Você deve estar impressionada com alguma coisa, talvez um filme que você tenha assistido.
- Não Alan, porque eu inventaria alguma coisa assim, sabendo que é o seu sonho. Não estou pedindo para você desistir, apenas adiar um dia.
- Já está decidido. Vou no sábado e pronto.
Deu as costas para Miriam e saiu. Ao passar pelo espelho de corpo inteiro do corredor não viu o seu reflexo. Quando seu cérebro processou essa informação, voltou correndo para olhar o espelho. Na verdade, foi só uma ilusão, seu reflexo estava lá. A conversa com Miriam e a expectativa da viagem estava gerando um abismo emocional no qual ele tinha que se controlar.


Tarde de sexta-feira

Toda a turma da escola estava na festa, inclusive os professores. Por onde passava recebia tapinha nas costas e parabéns. De repente, a pessoa que ele menos esperava estava lá também. A Miriam. Ela estava com uma blusa de mangas curtas com um longo decote nas costa e saia acima dos joelhos, o que era muito incomum.
“ – Provavelmente, estaria ali para tentar dissuadi-lo da viagem.” – pensou Alan.
Ela havia parado na bancada de bebidas e pegou dois copos de refrigerantes. Sem que Alan percebesse, ela despeja um pó em um dos copos e vai em sua direção.
- Se veio aqui para me fazer desistir, está perdendo seu tempo porque...
- Calma, calma. Só vim para lhe desejar boa viagem.
- Só isso? Sem discurso?
- Sem discurso, prometo. – dizendo isso entregou um copo para Alan e outro colocou na mesa e cruzou os dois dedos indicadores em frente aos lábios como se, selando um juramento.
Retomando seu copo ela levantou à altura dos olhos e disse:
- Um brinde a você Alan. Que você desvende a magia do oriente.
- Tin-tin – respondeu Alan tomando todo o refrigerante em um gole só.
- Boa viagem. Tenho que ir agora.
- Valeu por ter vindo.
Após três horas de festa, Alan se sentia cansado e meio zonzo, e disse aos colegas que voltaria pra casa porque teria que acordar cedo e seus pais haviam saído.
Quando estava na cama, demorava para dormir e quando pegava no sono, acordava com pesadelos. Já era de madrugada quando conseguiu ter um sono tranqüilo.


Noite de sábado

O telefone toca insistentemente. Alan levanta meio sonolento, olha pela janela e percebe que é noite ainda e atende o telefone.
- Alô. – responde com voz pastosa.
- Graças a Deus, você está aí ainda, por que não atendeu o telefone antes. – disse Emerson, seu colega de escola.
- Como assim, “aí ainda”? Nem amanheceu.
- Acorda cara, já é sábado, você perdeu o vôo, graças a Deus.
- O que você está dizendo?
- Liga a televisão – disse Emerson
Alan tateia a cama em busca do controle remoto e liga a tv no RecordNews, bem no momento que o repórter dá as noticias.
“... estamos aqui no aeroporto, na sala de controle aéreo e a nota que foi divulgada para a imprensa é que o vôo que saiu do Brasil para o Japão caiu no mar do Japão, na área conhecida como Triângulo do Dragão, que é parecido com o Triângulo das Bermudas do oriente. É muito provável que ele tenha caído na área da Fossa das Marianas, a região mais profunda do oceano, podendo chegar a até 11 km de profundidade. Especialistas acreditam que não houve sobreviventes. O Triângulo do Dragão é conhecido por vários desaparecimentos de navios e aeronaves que ...”
Alan desliga a televisão e fica pensando em Miriam.

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Em memória das vítimas do vôo 447 da Air France.

A SAIA NO ARMÁRIO


A SAIA NO ARMÁRIO

Oi amigão!
Nessa semana deu o maior rebu na casa do vô Toinho, parece que desconfiaram que tio Manú fosse gay. Eu sei que você vai pensar:- Logo tio Manú que não pode ver um rabo de saia!
Pois é amigão! E foi justamente por causa de uma saia que estava escondida no armário dele que a desconfiança veio a público. Tio Duda, o maior machão que essa terra de coronéis já conheceu, foi categórico:- É mona!
Tia Fefê foi à única que tentou defender tio Manú afirmando que a saia era dela. Vovô Toinho ficou uma fera, e como estava bebendo deste o momento do fatal acidente com a peça de vestuário, tentou jogar um copo de caipirinha no rosto de titia e gritou na lata:- Logo você Fefê? Nunca usou uma saia na vida! Te cuida moleca! Ta pensando que engana alguém?
A migucha de tia Fefê quase bateu no vovô, mas aquela outra amiga que é goleiro deu um cala boca geral e foram todas para o campinho treinar para o próximo jogo do campeonato municipal de futebol feminino.
Tio Manú tentou se justificar alegando que a saia era uma lembrança do último banho da Dorotéia e que ele a guardou como recordação para um dia distante mostrar aos futuros netos.
Vovô quase teve um enfarto, ficou roxo de raiva e emborcou mais uma caipirinha. Gritou “parmeira” umas dez vezes, e quando ele grita “parmeira” o mundo se cala:- Maínga! Oh maínga seu cachorro!Não permito que filho meu participe do banho da Dorotéia vestido de mulher, pode sair de qualquer coisa menos de mulher! Jamais vou esquecer o que aconteceu com o compadre Burity, o conservado, há quinze anos. Saiu com uma roupa idêntica a sua e foi estuprado cinco vezes!
Tio Manú ficou branco igual fantasma e jurou de pés juntos que não houve nenhum estupro e que apenas passaram a mão na bunda dele umas cinqüenta vezes, fora alguns beliscões na “poupança” nada mais sério ocorreu.

Vovô Toinho completamente torrado abraçou-se a tio Manú, pediu desculpas e gritou para toda a vizinhança ouvir:- Manú é macho! Manú é macho! Obrigado meu Bonje!
Estou relatando esse acontecimento para você ver que isso de sair fantasiado de menina é uma fria. Após ler essa cartinha queime os dois vestidinhos que combinamos usar no próximo carnaval e não conte nada para ninguém. Um abraço do amigo

Dudu

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009

DÁDIVAS DE DEUS



DÁDIVAS DE DEUS

Somos viajores no universo, aprendizes de vida. Cada estrela um sol com planetas orbitando a sua volta. Em algum longínquo sistema solar deixamos um lar, em outros astros teremos futuras moradias. O próprio Cristo afirmou:- “Na casa de meu Pai há muitas moradas.”
Hoje compartilhamos a Terra, esse pequeno planeta azul acompanhando um sol de quinta grandeza, um diminuto ponto de luz brilhando no infinito da criação. Um planeta jovem, um planeta em evolução tentando melhorar o bicho homem, um ser criado para cuidar e manter sua efêmera casa no espaço.
Nossa mente, a mente hominal é uma mente criadora. Diferenciada dos outros comparticipes da vida, divide emoções, sentimentos, planos e idéias, num constante combate com a ignorância. Na teoria evolucionista nosso planeta foi criado a partir da agregação do pó estelar e segundo os preceitos religiosos nossa alma imortal é parte do sopro divino. A maioria de nós não consegue entender a profundidade e grandeza desse fato. Perdemos-nos em ódios, retaliações, desamor. Muitos dentre nós vêem o semelhante como alguém para ser humilhado, explorado, hostilizado como animal daninho.
Muitos tiram proveito da inteligência para o crime, o roubo, a degradação moral. Outros nos utilizam politicamente em sua sede de poder, outros tentam nos dominar através da religião e muitos outros nos tratam com arrogância e prepotência, esquecidos que derivamos de um mesmo princípio biológico e que no fim seremos iguais perante o túmulo que nos aguarda. Nosso ouro não nos seguirá para alem da morte. Nossa ganância, tolos preconceitos, vaidades, desafetos e picuinhas não nos tornam melhores frente a nossos semelhantes. Infernizamos nossos iguais por pura maldade, abrimos à porta a escuridão moral nos crendo superiores. Não compartilhamos, não dividimos. Nosso egoísmo é uma cela sombria em que nos trancamos por comodidade e onde encarceramos o sopro divino que nos diferencia dos outros seres.
Nem todos são assim. Nosso criador é um Pai generoso. Alem da vida nos presenteou com o planeta Terra, um jardim esplêndido, uma fonte farta de alimentação e vez ou outra para aliviar nossas dores manda disfarçado em homem um de seus anjos. Esses seres, raros entre nós, são um bálsamo aos que sofrem, aos desvalidos, aos sem voz para reclamarem, aos carentes de bens materiais. São seres que conseguem ver em cada semelhante um irmão necessitado, independente de cor ou ideologia. Seres que compreendem a dor alheia sem se importarem se serão ou não reconhecidos.
Essas pessoas não terão seus nomes em ruas, praças, pontes e avenidas. Não merecerão um diploma de cidadão, não ouvirão aplausos bajuladores em atos públicos nem pisarão nos tapetes vermelhos do poder efêmero dos que dilapidam nossos impostos. Disso não carecem, sabem que cumprem honestamente com seu dever social. Confortam, socorrem, auxiliam a medida do possível. São uma dádiva divina á uma humanidade criança e irresponsável.
Nossa cidade. Nossa amada, velha e simpática Princesa do Litoral Sul, com suas lutas seculares contra o nepotismo, a insensatez, a intolerância, o egoísmo dos que deveriam dar o bom exemplo da dignidade, do humanismo, também não foi esquecida por nosso Pai criador. Dizem que a unanimidade não faz parte da razão humana, sempre haverá alguém a discordar. Mas no meu conceito e no de milhares de iguapenses pedimos reconhecimento para duas pessoas diferenciadas, que com humildade, trabalho e dedicação, são dádivas divinas à nossa comunidade:- Doutor Paulo Roberto Stephan da Cruz e José Carlos Martins Ribeiro, o Zé Carlos da farmácia.
A eles nosso agradecimento em nome de uma população tímida que aplaude o algoz e nunca o benfeitor. Não vamos esperar que partam sem um gesto de carinho de nossa parte, sem que saibam que são queridos e estimados, e do quanto somos gratos à suas pessoas pelo muito que fazem por nossa gente desvalida. Vamos dar um bom dia, um sorriso, um aceno de reconhecimento. Eles não necessitam de títulos e honrarias para se sentirem respeitados e amados, eles sabem o quanto valem. Vida longa, saúde e felicidade ao Zé Carlos e ao doutor Stephan, eles fazem a diferença.

GASTÃO FERREIRA